Maduro entre gringos, chapetones e o Decreto de Guerra a Muerte

Após a derrocada da Primeira República da Venezuela, os líderes da declaração de independência tiveram que se exilar às pressas. Simón Bolívar se instalou em Nova Granada de onde organizou a Campaña Admirable – a ofensiva, contando com uma pequena força militar, contra o sanguinário capitão, Domingo de Monteverde, enviado pela Espanha para restaurar o domínio da coroa sobre a Venezuela. Os chapetones, colonos nascidos na metrópole que ocupavam os principais cargos administrativos e militares, recolocaram os criollos, descendentes dos espanhóis nascidos na colônia, de volta ao lugar subalterno de antes.

Durante a Campaña, à medida que o Exército Patriota avançava sobre as Tropas Realistas, Monteverde intensificava seus métodos impiedosos contra a população civil, promovendo assassinatos de apoiadores da independência, além de fuzilamentos sumários de todos os prisioneiros de guerra. Relutante em reproduzir tais métodos, considerados indignos, em um dado momento da marcha, quando se encontrava em Trujillo, Simón Bolívar se viu obrigado a responder a altura, assinando o Decreto de Guerra a Muerte, em 15 junho de 1813. A ordem era: matar todos os espanhóis que estivessem em terras americanas!

Em 6 de agosto daquele mesmo ano, apenas 52 dias após a assinatura do decreto, Bolívar e seu pequeno exército entravam triunfantes em Caracas, derrotando as forças de Monteverde e estabelecendo a Segunda República da Venezuela. Os chapetones que sobreviveram tiveram que fugir.

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No dia 26 de junho de 2020, o Wall Street Journal publicou um artigo[1] que relata como o opositor do atual regime venezuelano, Leopoldo López, que se encontra refugiado na embaixada espanhola em Caracas, articulou, de dentro da embaixada (!), a invasão do país por um grupo de mercenários liderados por ex-militares estadunidenses, com o objetivo de assassinar o presidente Nicolás Maduro. Preso em 2014, acusado de incitar a violência das garimbas – manifestações de grupos contrários ao governo que atacaram simpatizantes do regime bolivariano e as instituições do país, deixando o saldo de 43 mortos –, López foi acusado de mentor dos ataques e condenado a 13 anos de prisão. Após 3 anos, foi colocado em prisão domiciliar, que foi revogada em 2019, após participar de um ato público ao lado de seu aliado, Juan Guaidó, que seria parte de uma tentativa de golpe desarticulada pelas forças de segurança venezuelanas. Após a revogação da prisão domiciliar, Leopoldo pediu asilo na embaixada espanhola, onde se encontra desde então.

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Da Espanha, desde a prisão de López, o ex-premiê social-democrata Felipe González começou a articular com lideranças mundiais manifestações contra o regime venezuelano, especialmente depois da vitória da oposição nas eleições legislativas de 2015, que levou ao conflito que resultou na transferência das funções da Assembleia Nacional da Venezuela para o Supremo Tribunal de Justiça, em 2017. Também o ex-chefe do governo espanhol, o conservador Mariano Rajoy, trabalhou incessantemente para que a União Europeia aderisse às sanções dos EUA à Venezuela (que começaram no governo Obama), provocando irada reação de Maduro: “Racista te dije Rajoy, colonialista te dije, Rajoy, basura corrupta te dije, Rajoy, ¡basura colonialista! ¡A Venezuela se le respeta, este es el pueblo de Simón Bolívar!”

Talvez desde que o General Morillo veio restaurar o domínio espanhol após o fim da Segunda República, a Venezuela não tenha passado por um período de ataque tão intenso. Pressão internacional, que se acentuou após a eleição de Trump e a sequência de golpes na América Latina articulados desde Washington que isolaram a Venezuela, deixando-a cercada de governos hostis, a manufatura da opinião pública mundial pela onipresente denúncia diária das tragédias sociais venezuelanas em todos os veículos de comunicação, um terrorista atirando de helicóptero na Suprema Corte e no Ministério do Interior, bombas explodindo na rua durante a votação para a Assembleia Constituinte, atentado contra a vida de Maduro executado via drone carregado de explosivos durante uma parada militar, ameaça de Trump de uma intervenção militar direta dos EUA, baixa súbita do preço do petróleo, inflação descontrolada e demais desastres vindos da combinação de sanções internacionais com uma economia de monocultura nunca alterada de fato, articulação entre Brasil e Colômbia para uma guerra contra a Venezuela a mando do governo Trump, autoproclamação de um deputado como legítimo presidente do país, após a reeleição de Maduro, inacreditavelmente reconhecida por vizinhos e pelos países ricos, bloqueio econômico total, impedindo a exportação de petróleo e a importação de alimentos e remédios, mesmo durante a pandemia do coronavírus, roubo de 1 bilhão de dólares em lingotes de ouro depositados em um banco inglês, que muito convenientemente, só aceita conversar com o “presidente Guaidó”.

A despeito desse cenário conflituoso e desfavorável, o regime bolivariano resiste. Contemporâneos de Maduro se foram de formas mais ou menos trágicas: Rafael Correa, Dilma Rousseff, Ollanta Humala, Salvador Sánchez Cerén, Tabaré Vázquez, Evo Morales. A exceção foi Cristina Kirchner que se foi, mas conseguiu voltar, após quase ser presa e tendo que abrir mão da cabeça de chapa.

Nicolás Maduro segue em Miraflores sob a mira dos canhões coloniais do velho e do novo continente. A conspiração de gringos e chapetones para desestabilizar a Venezuela pela sabotagem, terrorismo e estrangulamento econômico, só trouxe sofrimento ao povo que dizem querer libertar. Querendo ou não, a estratégia de Maduro de agir externamente buscando parcerias no Oriente, fora do “eixo do bem”, e internamente com espionagem profissional e ações certeiras, além de treinar e armar suas forças de segurança oficiais e milicianas, tem se mostrado bem sucedida.

A última conspiração, nomeada de Operación Gedeón, caiu no colo de Trump que, parece, quer restabelecer os termos do Decreto de Guerra a Muerte de Bolívar, empurrando a culpa da mancomunação para seus sócios da embaixada espanhola em Caracas. A operação consistia em contratar um grupo de mercenários, formado por venezuelanos e estrangeiros e treinado na Colômbia, para invadir a Venezuela e matar Maduro. Porém, a parte do grupo que se dirigiu ao Aeroporto Simón Bolívar, na região metropolitana de Caracas, foi presa pelas autoridades venezuelanas. A outra parte do bando foi presa na cidade costeira de Chuao. Ao entrarem no país em uma lancha, no começo de maio, levantaram a suspeita de pescadores que, por acaso, também faziam parte da Milícia Nacional Bolivariana, ramo das Forças Armadas encarregada de treinar civis para a proteção do país (hoje, segundo o próprio Maduro, esse braço armado conta com mais de 1,6 milhão de milicianos espalhados pelo país).

Rendidos pelos pescadores e convertidos em memes imediatos na internet, pelo curioso fato da tropa de elite golpista ter sido presa por simples pescadores com parco treinamento militar que trabalhavam no local, o evento chamou mais atenção ainda quando foi descoberta a identidade dos estrangeiros que compunham o grupo. Um era agente da DEA (agência de “combate” às drogas do governo estadunidense) e os demais, ex-militares integrantes das Forças de Operações Especiais dos Estados Unidos que trabalhavam para a empresa de segurança privada Silvercorp – que já havia operado com seus soldados mercenários no Iraque e Afeganistão. Não bastando todas essas digitais gringas na Operación Gedeón, o dono da empresa, Jordan Goudreau, já apareceu em vídeos fazendo a segurança do próprio Trump em eventos nos Estados Unidos, em 2018.

Durante o interrogatório, um agente estadunidense revelou ter assinado um contrato com Juan Guaidó, com seu estrategista político, Juan José Rendon, e com o deputado venezuelano, Sergio Vergara. No depoimento do acusado, que dizia ter sido abandonado por Guaidó após o fracasso da operação, ele descreveu o acordo afirmando que “o valor inicial era de U$1,5 milhão, mas nunca foi pago, ainda que Guaidó tenha recebido um fundo de U$ 9 milhões para operações de defesa”.

Às revelações recentes do Wall Street Journal sobre o envolvimento de Leopoldo López no evento, articulando um golpe de dentro da embaixada da Espanha em Caracas, seguiu-se a declaração do ministro das Comunicações da Venezuela, Jorge Rodríguez, dizendo que “todos os detalhes do planejamento que levaram à incursão militar armada foram planejados na sede da residência do governo da Espanha [em Caracas]”. Rodríguez também apresentou um áudio de um desertor venezuelano, identificado como Clíver Alcalá, no qual ele confessa que “o pessoal de Leopoldo” o apresentou a Jordan Goudreau.

Diante desse cenário, o tripé golpista Washington-Madri-Bogotá pode ter ficado um pouco manco, sobretudo no momento em que Trump tenta a reeleição enfrentando, dentre outras coisas, as revelações apresentadas no livro do seu ressentido ex-conselheiro de segurança, John Bolton. No livro, Trump é mostrado como um presidente errático e “surpreendentemente desinformado”, que não sabia que o Reino Unido era uma potência nuclear e que achava que a Finlândia era parte da Rússia.

Sobre a Venezuela, segundo Bolton, para Trump seria “cool” invadi-la, pois o país “é realmente parte dos Estados Unidos” e que tinha o desejo de derrubar Maduro para fortalecer os laços com suas bases eleitorais na Flórida. Trump teria hesitado em apoiar Guaidó, que para ele parecia uma “criança” diante de um “forte” Maduro, o que o fez cogitar ‘desrreconhecer’ o autoproclamado presidente venezuelano.

Essas informações apresentadas por Bolton tiveram seu conteúdo reforçado em recente entrevista dada por Trump ao site Axios[2], na qual ele indica não ter muita confiança em Guaidó, visto que teria falhado em controlar o país apesar do apoio internacional que recebeu. “Guaidó foi eleito. Eu acho que eu não era necessariamente a favor, mas eu disse ‘algumas pessoas gostavam dele, outras não’. Soou ok para mim. Não acho que tenha sido muito significativo de uma maneira, ou de outra” – afirmou Trump. Questionado sobre a possibilidade de se reunir com Maduro, Trump disse que: “Poderia pensar nisso. Maduro gostaria de se reunir. E eu nunca me oponho às reuniões”.

A mera sugestão de uma reunião com Maduro é mais que um indicativo de que o autoproclamado presidente Guaidó pode estar próximo de ter seu título apenas autorreconhecido. Diante das conexões estreitas entre Trump e a Silvercorp na tentativa de golpe frustrado, existe a chance de o presidente estadunidense bradar ao presidente cucaracha na reunião vindoura, no mais genuíno spanglish: ¡Decree de Guerra a Muerte! ¡Chapetones, go home! ¡Viva Bolívar!”

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[1] https://www.wsj.com/articles/venezuelan-opposition-guru-led-planning-to-topple-maduro-11593163801

[2] https://www.axios.com/trump-venezuela-guaido-maduro-ea665367-b088-4900-8d73-c8fb50d96845.htm

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