Manuela no Roda Viva: A comunista do Brasil

 

Manuela D'avila no roda viva
Manuela D’Ávila no Roda Viva

A deputada gaúcha Manuela D’Ávila é a candidata do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) para a Presidência da República e foi a convidada do Roda Viva desta semana. DISPARADA, neste espaço, cobrirá semanalmente todas as entrevistas da série com os pré-candidatos.

É impossível não começar este texto citando a deselegância da bancada que a entrevistou hoje. A vulgaridade de pessoas do naipe de Frederico D’Ávila -– coordenador do candidato Jair Bolsonaro – ou mesmo o “filósofo” Joel da Fonseca (filho, e exclusivamente isto, do economista liberal Eduardo Giannetti) deixou claro a escolha da bancada em polemizar assuntos terceiros e tacanhos. Os entrevistadores pareciam não superar o fim da Guerra Fria.

Todos sabem que Manuela, se eventualmente Presidente, não fará revolução alguma. O Brasil é um país conservador, que vive sob a égide da lógica de mercado e dela não sairá tão cedo. A bancada do Roda Viva quis, durante o programa, apontar pseudo contradições históricas do PC do B ao invés de debater o Brasil. A insistência de Ricardo Lessa em saber a opinião da candidata sobre o Stalinismo foi quase sexual. Se ainda construísse suas intervenções sobre bases sólidas dos problemas do regime soviético teríamos um debate mais interessante. O apresentador optou pela fulanização chula do processo histórico. Bola fora de quem andava batendo na trave.

Manuela revive o melhor da tradição partidária do marxismo-leninismo. É, de fato, uma mulher de partido. Sua entrevista foi – devido ao atraso de seus entrevistadores – quase uma defesa exclusiva de um “comunismo morderno” em um tempo em que o neoliberalismo só tolera apropriar-se de partidos antes “social-democratas”.

Nos poucos momento em que pôde apresentar seus planos para o Brasil sem ser interrompida por vulgaridades nos moldes de “fascismo é de esquerda”, a deputada defendeu a industrialização do Brasil como saída para a crise. Foi enfática, em diversas oportunidades, em defender o papel do Estado na promoção do desenvolvimento. Citou investimentos em infraestrutura via BNDES, participação ativa dos bancos públicos no combate ao rentismo e outras medidas já conhecidas do campo popular.

Nas intervenções econômicas mostrou domínio e preparo. Defendeu uma reforma tributária que taxe o andar de cima. Curioso que no debate presidencial deste ano o tema parece ter ganhado ares de unanimidade, tendo sido defendido até pelo ainda presidenciável tucano Geraldo Alckmin. Manuela titubeou um pouco quando questionada sobre a forma de financiamento de suas políticas públicas indutivas. Nem mesmo o mais otimista dos economistas de esquerda acredita que a reforma tributária será capaz de recuperar nossa capacidade de investimento. Faltou competência dos entrevistadores e talvez certa perspicácia da entrevistada em apontar medidas mais factíveis para o falido Estado brasileiro.

Questionada sobre o temido indulto ao ex-Presidente Lula, não titubeou em dizer que caso eleita, consumada a condenação pelo STF, daria o indulto ao ex-Presidente. Um PS: já ficou claro que a estratégia de pressionar o Judiciário dessa forma não funciona. A pauta é um desserviço à defesa de Lula.

Criticou o ativismo judiciário com muita coragem, em tempos quase inquisitoriais em que criticar nossos messias de curitiba (em minúsculo) soam quase como heresia. Tentou apontar as dificuldades da sentença de Moro em que pese ter sido interrompida inúmeras vezes, de forma grosseira e deselegante.

A cama de gato parecia não ter fim. Dos ataques “feministas” (e aí coloquemos várias aspas) de Vera Magalhães, até pegadinhas em temas como estupro, feitas pelo coordenador de Bolsonaro. Manuela talvez tenha tido o Roda Viva mais difícil da série.

A questão da condenação de Lula foi outro episódio terrível. A bancada passou um bloco inteiro fazendo a mesma pergunta e tendo a mesma resposta, em razão das provas da condenação. Um momento patético em que os jornalistas pareciam tirados de um manicômio. Para os fãs do programa, algo a ser lembrado para nunca mais ser repetido.

A candidata gaúcha prestou um grande serviço ao polarizar com dogmas religiosos dos liberais brasileiros. Desde uma critica ao conservadorismo de boutique travestido de movimentos liberais até posicionamentos firmes quanto às máximas de ajustes fiscais acachapantes. A deputada por vezes calou o despreparado filho de Giannetti, defensor dos liberais de boutique.

Manuela dificilmente será candidata. Quem acompanha política mais de perto sabe das dificuldades de se colocar uma candidatura presidenciável em tempos de recursos escassos nos partidos políticos. O PC do B tem outras e justas prioridades. Manuela provavelmente tentará ser governadora do Rio Grande do Sul, fazendo o caminho tradicional de um outro político de sua linhagem, que a gaúcha inclusive citou várias vezes: Leonel Brizola.

Que o Rio Grande tenha de volta a grandeza que lhe é de direito.

 

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