A marcha da estupidez

A historiadora americana Barbara Tuchman produziu um livro magnífico, “A marcha da insensatez”, mostrando como decisões históricas insensatas produziram resultados tremendamente desastrosos. Seu parâmetro lendário é o cavalo de Tróia. Abandonado pelos gregos às portas da cidade, o cavalo era um sinal claro de uma armadilha. No entanto, os troianos decidiram puxá-lo para dentro da cidade, talvez movidos por curiosidade, possibilitando aos gregos atacarem a cidadela por dentro e abrir caminho para a destruição de Tróia.

Marcha da insensatez não é propriamente o que está acontecendo no Brasil desgovernado por Bolsonaro. Aqui o que prevalece é a “marcha da estupidez”. É a estupidez que governa as decisões econômicas de Paulo Guedes, as decisões do MEC, as decisões na área de Direitos Humanos, a decisão na área agrícola, a decisão na área sensível do Ministério das Relações Exteriores. Estamos num processo peculiar da história brasileira no qual um presidente diz, sem ser contestado, que veio para destruir, e não para construir.

E é o que tem sido feito com absoluto rigor. Até o momento, sobretudo na área econômica, não houve uma única medida – uma, sequer uma -, de estímulo à retomada da economia, que certamente vai desabar por mais este ano. É que o processo de destruição foi acionado. Destruição da capacidade de investimento do BNDES, destruição anunciada do Banco do Brasil, intenção manifesta de reduzir o papel do Banco do Brasil no crédito rural a fim de dar espaço aos bancos privados mais caros, enfraquecimento da Caixa, retalhamento da Petrobrás e da Eletrobrás.

Ninguém deixou cavalo de Tróia nas portas do Planalto. Os cavalos estão dentro dele. São os emissários da estupidez, com direito à cobertura imbecil de um guru especializado em insultos e que se comporta com os cães filósofos da Grécia antiga, os cínicos, vivendo em barris como ele agora vive em bolha. Pois é sob a influência dessa gentalha que o Brasil corre o risco concreto de perder seu principal mercado, a China, vital para a preservação de nossas reservas internacionais em face da evidente decadência imposta pelo governo à indústria.

Uma camada densa de ideologia recobre a questão da produção e exportação de commodities pelo Brasil. É verdade que era preferível que exportássemos bens de maior valor agregado. Entretanto, para isso teria sido decisivo que tivéssemos políticas industriais sustentáveis, principalmente nos últimos anos, com capacidade de gerar excedentes comerciais. Entretanto, os países  em desenvolvimento, inclusive o Brasil, descobriram, nas crises dos anos 90, que sua principal fragilidade eram os déficits em conta corrente.

Países da Ásia responderam às últimas crises internacionais acumulando reservas, seguindo estrategicamente o exemplo da China e do Japão. Fizemos isso nos anos 2000, empiricamente, não pelo lado industrial, mas pelo lado das commodities, com preços e quantidades puxados pela China. Diante disso, foi sorte termos um primário forte, pois do contrário não teríamos acumulado reservas. Agora, o Itamaraty “não ideológico” pretende desbaratá-las gratuitamente, sem desenvolvimento possibilitado por importações. Quer que o Brasil defenda “valores” descartando exportações de soja e minério, entre outras.

Mas o ataque ao agro pelo governo Bolsonaro se manifesta também na área do crédito. Guedes quer cortar a participação do Banco do Brasil (hoje de 60%) no crédito rural. A estupidez reina também  aqui. No mundo inteiro a agricultura é subsidiada, seja por razões econômicas, seja por razões sociais. Mas há uma razão financeira adicional quando se trata de exportações rurais. O que se recebe em cada dólar de exportação vai para as reservas; a contra-partida do dólar, em reais, entra na economia. Se o Banco Central não cometer a estupidez de enxugar esses recursos, eles irrigarão o sistema produtivo como um todo, além do rural. Com isso, a exportação rural presta um duplo serviço à economia, que o governo Bolsonaro quer duplamente destruir em sua “marcha da estupidez”.

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