Marielle Franco: O grito que transborda a carne

Para um olhar menos experimentado, nada novo no Rio de Janeiro. Carros de polícia andando com suas sirenes desligadas, o andar apressado de trabalhadores no Centro, aeroporto lotado, engarrafamento em diversos pontos, calor de 35 ºC, escritórios cheios de reuniões “importantes”, lama preta pelas poças dos paralelepípedos, o cheiro fétido do mar aos pés da réplica da nau dos grandes descobrimentos da Praça Mauá, a Candelária com suas ruas largas e alguns palestrantes anônimos, falando sobre qualquer coisa a qualquer pessoa.

Nada disso resiste a um segundo olhar.

A história nos primórdios do Rio de Janeiro, contada por Aluísio Azevedo em seu livro “O Cortiço”, nos lembra do romance de João Romão e a negra escrava Bertoleza. Romão, que era um homem branco qualquer, que se vale das poucas conquistas da escrava dedicada para iniciar sua vida e garantir seu avanço econômico individual. Roubando-a de seu antigo senhor e prometendo-lhe uma vida digna, se aproveita da pobre até quando lhe convém. Ao fim e ao cabo de uma série de trapaças para enriquecer-se, abandona a escrava em um dos golpes mais baixos da literatura brasileira, causando – por revolta e decepção – o suicídio de Bertoleza.

Temos, desde sempre no Rio de Janeiro, uma dívida com as nossas Bertolezas.

A verdade é que continuamos a provocar a morte de nossas dedicadas mulheres, em especial as negras. Se no passado, elas sofriam em silêncio as injustiças daqueles que delas se valeram, atualmente são vibrantes na política e se fazem ouvir nos mais importantes saguões nacionais. Incomodam e não podem ser legadas ao esquecimento. Se posicionam e o fazem de forma corajosa. São muitas as que bradam pontos incômodos na face hipócrita da sociedade. Não se matam em agonia solitária, ao contrário, estão cientes e dispostas a encarar o cano fumegante de um anônimo covarde para eternizarem-se. Saem dos cortiços para os palácios e trazem aos seus pés a força que a sociedade não mais pode ignorar. São tão generosas que não negam aos que sempre lhe exploraram, a grandeza que carregam nos estandartes de suas lutas. Não penalizam homossexuais, menores e tantos quantos sejam os esquecidos e invisibilizados. Ao contrário do que lhes fizeram, abraçam a todos e oferecem guarida aos pleitos dos excluídos. São grandes.

Aluísio de Azevedo também não se esqueceu de outra figura que permanece presente no cenário atual do Rio de Janeiro: os “Botelhos”. Os portadores do discurso militaresco covarde, que vive às custas de alguém que os sustente e que faz, sempre que preservados pelo anonimato, acordos de ocasião ao custo de valores morais que não têm. São capazes de marchar 6 horas seguidas aos pés dos batalhões sob os olhares das ruas, mas escondem a traição da esposa daquele que lhes dá guarida esperando proceder alguma futura chantagem. O Rio de Janeiro permanece lotado de Botelhos, aquele tipo que chama seus ídolos de mito, mas é incapaz de entender a condição pútrida de sua constituição moral. Covardes. Fracos. Medíocres. Que aplaudem, por detrás dos computadores, a morte de uma mulher negra que dedicou sua vida ao trabalho honesto. Entram em transe orgásmico por poderem destilar seu ódio sem o preço da coragem que não possuem. Invejam Marielle Franco, porque não são capazes de oferecer sua carne pelo que arrotam ser seus proto-ideais.

A morte de Marielle é um mergulho forçado no lixo que os Botelhos fluminenses transbordam nas favelas.

Essa ambiência tosca, que corrompe os trabalhadores civis e militares, é insistentemente escondida daqueles que nela se encontram. Não nos enganemos: é também dos cortiços que vem a admiração pela atuação virulenta das forças policiais. A maior tragédia fluminense é a ficção coletiva de que inexiste saída. Inexiste opção. A conformação de décadas de exploração de uma política “Romão” por sobre nossas Bertolezas, que nos incentiva ao suicídio de ideais. Marielle é o grito que transborda a carne negra para além de sua condição humana. Irrompe o tecido do tempo para entrar na história no rol das mártires políticas, mas demanda que este assunto seja tratado com a gravidade e entrega coletiva que lhe é pertinente. Não se pode compactuar com a tendência desmoralizadora do ambiente que se criou no Rio de Janeiro. Não se pode, como nos conta Azevedo ao descrever o personagem Jerônimo, abandonar os valores que nos trouxeram até aqui para nos tornarmos mais um morador anônimo corrompido do cortiço da moral fluminense. Marielle abraçou esse antidestino e o fez até as últimas consequências.

A verdade é que o dia de hoje no Centro do Rio de Janeiro, para além de suas características quotidianas, estava pesado. Estava com aquela fina camada de tensão que apenas os olhares mais atentos são capazes de perceber. Sob o SOL escaldante, pairava uma camada atemporal, daquelas que fazem tudo querer passar mais devagar. Daquelas que precedem grandes acontecimentos e, caso sejam nutridas com o envolvimento e o coração de um povo, são transformadas em mudanças positivas ao curso da história. As poças estavam em turbilhão, os cheiros mais azedos e os sentimentos mais estremecidos. Perdemos uma grande figura e sua alma se condensava nas reflexões de cada indivíduo. Aos poucos, as mentes se uniam em uníssono na Cinelândia e, às centenas, refletiam sobre esse grande estopim que rachou as estruturas da inércia fluminense.

Fica aqui a nota de pesar da Equipe do Disparada. Esta não é a primeira abordagem sobre o assunto, tampouco será a última. Queremos manter este ponto e esta vívida tensão mesmo após a solução do caso, o que exigimos ser rápido e corretamente procedido. Não cabe ao Disparada ser conivente com mais um trágico fim de alguém que tanto trabalhou, de SOL a SOL, com a honestidade divina do suor diário, por gente que tanto precisa. Em nossas vidas tão atribuladas, paramos um momento em júbilo pela trajetória desta mulher que, infelizmente em sua morte, revela a grandeza que existe nas ambições políticas nobres sempre presentes no nosso Brasil. Obrigado, Marielle.

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