Marina Silva no Jornal Nacional: entre reais e fictícias contradições

Marina Silva é a quarta e última convidada da tradicional série de entrevistas com presidenciáveis, promovida pelo Jornal Nacional da Rede Globo. As três primeiras foram com Ciro Gomes, Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin. DISPARADA, por meio de seus colunistas, fez a análise de todos os entrevistados durante a semana.

Marina Silva permanece tentando pairar acima da dicotomia PT-PSDB, e da política como um todo (chegando ao disparatado ponto de equiparar Dilma a Temer/Aécio). Mas a entrevista buscou trazê-la junto aos demais mortais.

As primeiras perguntas jogaram com a contradição entre a sua incapacidade de liderar um pequeno partido, e a sua pretensão de governar um continental país. Marina não desfez o paradoxo, limitando-se a entender a dissidência de metade de seus parlamentares como a naturalidade de sua personalidade aberta ao diálogo ou de seu “partido em rede”.

O questionamento à “líder Marina Silva” seguiu com a dificuldade de se entender o que ela propõe minimamente sobre questões centrais do país. Em um dos únicos bons momentos dos entrevistadores na semana, Renata Vasconcelos conseguiu extrair algumas “propostas” para a Reforma da Previdência: discutir a alteração da idade mínima (mantendo a diferença entre homens e mulheres), transitar para um regime de capitalização e cortar privilégios do alto escalão da Administração Pública.

A candidata, defensora integral da Lava Jato, talvez tenha ficado tranquila quando o assunto se encaminhou para o combate à corrupção. Na prática, foi incapaz de explicar aos espectadores suas escolhas de 2014: ter montado chapa com Eduardo Campos (contra quem só não pairam maiores suspeitas por elegância com o falecido) e apoiado Aécio Neves no segundo turno. Com direito à ironia de William Bonner, que a questionou se de lá pra cá já havia criado algum mecanismo para não cometer os mesmos erros.

A respeito da incongruência ente o discurso da “nova política” e as alianças estaduais da REDE com partidos praticantes de “corrupção brava” ou entre a sua saída do PV em 2010 com a colocação de Eduardo Jorge na chapa, Marina Silva demonstrou seu pouco zelo com a política institucional. Para ela, pouco importam os partidos, suas alianças são sempre com as pessoas.

Embora durante todo o debate tenha resistido a ser interrompida por William Bonner (que parecia igualmente encabulado em fazê-lo), foi ao final que Marina Silva mostrou a firmeza que vem caracterizando sua campanha.

A respeito do agronegócio e de sua gestão no Ministério do Meio Ambiente, não aceitou ser colocada pelos jornalistas como defensora da ecologia em um conflito insanável com o desenvolvimento. De um lado se recusou a tratar o agronegócio como um bloco fechado incapaz de se abrir à modernidade, de outro deu exemplos de grandes obras licenciadas sob sua administração (vide a transposição do rio São Francisco).

Fez ainda uma tímida defesa de Lula enquanto presidente, que se nunca lhe deu a infraestrutura que ela julgava necessária, também nunca fez pressão para que beneficiasse indevidamente empresários.

Em sua despedida, Marina Silva deixou uma bela mensagem, afirmando desejar um Brasil no qual ninguém seja obrigado a ter uma história de vida sofrida como a sua. Não deixa de ser justo.

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