GILBERTO MARINGONI: Há brigas dentro do governo, mas isso não o derruba

Há fissuras sérias no bloco dominante e em torno desses atritos acontece o que há de importante na disputa política no Brasil. A oposição não existe, fato que dá ares de tragédia à situação atual.

Entenda-se aqui como bloco dominante o conjunto de classes e frações de classes dentro e fora do governo a lhe dar sentido e sustentação. Tal bloco compreende concretamente a cúpula do governo, a alta burocracia estatal – em especial os comandos das forças armadas – o capital financeiro e produtivo (indústria, agricultura e comunicações), igrejas evangélicas e setores da alta classe média. Leve-se em conta que no quesito capital estão arrolados setores externos e internos.

As diferenças se dão em dois diapasões, economia e privatização do Estado.

NO ÂMBITO ECONÔMICO, tudo indica haver uma certa fadiga do empresariado com uma economia estagnada desde 2015, por obra e graça de decisões de três governos. Paulo Guedes está na alça de mira da mídia e do empresariado. Veja-se a genial manchete da Folha de S. Paulo desta quinta (5): “Investimento afunda, PIB freia e Bolsonaro faz piada”. É digna dos melhores dias do jornal “Hora do Povo”.

Medidas de austeridade, cortes orçamentários e concentradoras de renda beneficiam o topo da pirâmide até o ponto em que o exagero na dose ou a persistência no tempo do uso de medidas ortodoxas pode comprimir a demanda agregada a tal ponto que o sistema se torna disfuncional. Economia nenhuma funciona sem ter quem venda e quem compre. Câmbio elevado idem idem. Pode favorecer setores exportadores até o momento em que encarece a produção das manufaturas domésticas, cada vez mais dependentes de insumos importados.

NO ÂMBITO DAS PRIVATIZAÇÕES, o perigo da hora está na dissolução do monopólio estatal da força. O episódio do motim da PM cearense escancarou ao país o descontrole, a quebra de hierarquia e a balbúrdia reinante na segurança pública. Milícias significam a privatização de serviços estatais, a começar pela segurança, passando pela distribuição de gás, TV a cabo, planejamento urbano e ocupação do território.

A petulância do Coronel Aginaldo (adoro este nome!) Zambelli, chefe da Força Nacional que estimulou a baderna armada das polícias, indica gravíssima quebra de hierarquia. Contra tais desordeiros, setores do Exército e das próprias polícias vieram a público apontar a bizarrice da situação.

A OPOSIÇÃO NÃO ENTRA em nenhuma dessas pendengas. Depois da família Gomes – Cid e Ciro – se manifestarem com vigor, impera o silêncio. Todos fazem as contas de perdas e danos. O PT hesitou em se colocar, o PCdoB manifestou-se formalmente e o PSOL fez cara de paisagem e omitiu-se diante do ocorrido. Tomou a popular decisão “nem-nem”. O episódio, repita-se, não é do âmbito meramente policial, mas indica grave sintoma de dissolução do Estado.

A esquerda não morreu. Mas está de tal forma enredada em suas contradições intestinas, que não consegue ter posição sobre pontos de extrema relevância para a população.

ESSE É O GRANDE NÓ da quadra atual da vida brasileira. Bolsonaro – entendendo-se aqui o bloco dominante mencionado acima – não cairá por autodissolução.

Conhecemos um governo que praticou inacreditável haraquiri político há cinco anos, ao cometer forte estelionato eleitoral, dobrar a taxa de desemprego em 15 meses e romper com sua base social. É improvável que a história se repita.

Bolsonaro pode ser tosco na forma, mas não é bobo e nem parece ter vocação suicida. Sem oposição digna deste nome, iremos de pequenas a grandes tragédias até 2020, e além.

GILBERTO MARINGONI Há brigas dentro do governo, mas isso não o derruba

Aos trapos e farrapos.

Por Gilberto Maringoni

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