GILBERTO MARINGONI: Verdades, mentiras e o pum do palhaço 

O imitador de Bolsonaro é a coisa mais verdadeira que seu governo fez nas últimas semanas. O presidente divulga um chamamento ao golpe via whatsapp e fala em seguida que o vídeo era falso, gravado anos antes. Afirma dar todo apoio ao governo cearense na batalha contra as milícias da PM, mas envia o chefe da Força Nacional para apoiar os amotinados. Quando confrontado com o desastre do PIB, pergunta ao imitador “quem sabe o que é PIB?”

Ao subverter a lógica política de tentar formar maiorias a seu favor, disputando hegemonia na sociedade, o mandatário dá espaço a um confusionismo dispersivo. O objetivo claro é repelir tensões sobre si e pautar a agenda nacional com bizarrices que vão das bananas a jornalistas a chiliques da ministra Damares e discursos escatológicos da neoconvertida Regina Duarte. Se há algum ordenamento no mise en scène oficial, este parece ser distrair o público pagante enquanto tenebrosas transações são feitas nas estrebarias dos ministros Guedes e Moro.

Mas a distração é em si sulfúrica em direção ao ordenamento institucional. Dissolve-se o Estado por cima – a infraestrutura – com a entrega de ativos e riquezas nacionais e por baixo – na superestrutura – com o fim do monopólio da força – miliciamento da segurança pública -, quebra das Universidades e ataques generalizados à inteligência.

O país está mais pobre que há dez anos. Não é obra apenas de Bolsonaro, justiça se faça. Dilma Rousseff e Michel Temer também pisaram nesse solo, onde um dia houve grama. Mas o mergulho vertical baseado na fé fundamentalista do mercadismo – aliado à carolice de bispos patifes – tenta nos fazer crer que esse é um caminho sem volta.

A destruição agora mira justamente esse ponto: convencer todos da impossibilidade da volta, do desmonte do entulho ultraliberal, das sacrossantas verdades do empreendedorismo, do “não há alternativas” e das posibilidades – brandidas até por gente da oposição – de que o que está feito, feito está. Uma grande frente deve ser esterelizada de propósitos mais sólidos e mirar a democracia, como se ela fosse composta por nuvens e puns de palhaços (apud. DUARTE, R., 2020). Democracia sem seu substrato material. Democracia separada da economia, como há 200 anos pregava o pai dos celerados liberais, Jean Baptiste Say.

Polarizar com a naturalização do entulho é a única saída que nos resta. Polarizar com o novo normal e com a vida como ela é. Polarizar com o fato de que o existir cotidiano das maiorias não está fadado a repetir o massacre de esperanças que enfrentamos.

Lembremos. A única coisa real que Bolsonaro nos oferece é o palhaço com faixa presidencial. A atriz decadente exalta seu pum. O derretimento do país pode levar tudo a explosões espetaculares na sociedade.

GILBERTO MARINGONI Verdades, mentiras e o pum do palhaço 

Ressalte-se: até mesmo pum pega fogo.

Por Gilberto Maringoni

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