Mecum omnes plangite! (chorai todos comigo!) O Fortuna (Carl Orff)

Não há dois meios de enfrentar a pandemia, apenas o do humanismo e da solidariedade comunitária. A COVID 19 encontrou um mundo dividido, conflagrado, profundamente desigual e, sobretudo, vivendo uma crescente valorização da individualidade e de um egoísmo absoluto, cínico e brutal. Todos nós, do mais humilde e ignaro aos maiores potentados, passaremos por uma prova, que irá definir o futuro das nossas sociedades e da construção da estrutura mental de cada indivíduo do planeta.

Recebi no dia 14 de março, de um parente próximo, que certamente me ama, profissional de saúde esclarecido, um vídeo de um “especialista” verdadeiramente criminoso, que minimizava os efeitos da doença, definindo como uma gripe banal a nova moléstia (peça ainda agora replicada pelo líder da IURD e diversos outros líderes religiosos e políticos).

No dia seguinte, um grande número de pessoas, certamente com vários médicos e pessoas de elevada escolaridade, participaram das manifestações públicas comandadas pela mais alta autoridade do país, cuja própria realização as tornavam imorais e mesquinhas, quaisquer que fossem suas pautas, seu conteúdo obscuro e tenebroso apenas agravou o crime.

Seguramente, enquanto escrevo essas palavras, há alguém calculando o impacto financeiro da morte, da morbidade e privações a que milhões de pessoas estarão sujeitas. Não duvido que alguns estejam comemorando economias. Porém a pandemia traz para essas pessoas, talvez isoladas em ambientes perfeitamente assépticos, um terrível e milenar dilema, expresso por uma poesia medieval, imortalizada na obra do compositor alemão citado em epígrafe: Ó Fortuna… Engestatem podestatem… Dissolut at glaciem. (A Sorte… A miséria e o poder, ela os funde como gelo).

E a sorte está lançada! De que valem as cercas e os muros para garantir a segurança de seus lares? De que valem as barreiras de baionetas para proteger a propriedade? Isso pode servir contra eventuais criminosos e massas miseráveis enfurecidas. O microscópico vírus não toma conhecimento de nada disso. Em que tipo de palácio de cristal poderiam se abrigar os homens (em sua maioria, velhos) que controlam o mundo?

Certamente há recursos para alguns viverem, com bastante conforto até, em bolhas isoladas. Mas e o mundo em que vivem e do qual usufruem largamente? O que aconteceria com sua Igreja. Ou com o seu prostíbulo? As pessoas que conhecem e estimam? Qual seria o impacto disso na psiquê de ser humano? Que tipo de monstro de insensibilidade estaria se criando? A situação é ainda mais complexa, pois que quanto mais tempo o indivíduo consegue se preservar no curso da propagação, mais exposto ele estará. Então chegamos ao ponto: a vitória do ser humano só pode ser obtida coletivamente.

Olhe que fina ironia. Os “reis da mina e da fornalha” dependem da atitude do mais miserável esmoleur imigrante de sua elegante cidade. Obviamente que administradores de um sistema acostumado a manipular a “opinião pública” (para dizer o menos), sabem perfeitamente o que fazer. Mas a propaganda no caso não é para vender um automóvel ou um telefone. É preciso convencer milhões de pessoas, as quais não foi dado acesso a uma educação adequada, a mudar suas atitudes, comportamentos e mesmo a forma de encarar a vida (e em muitos casos prover meios para que possam fazê-lo). E isso não pode ser feito sem o exemplo.

Claro que a mídia tem que fazer o seu papel, e tem feito de maneira competente até agora. Mas de que adianta isso se o povo olha para cima e vê dirigentes rapaces, ávidos por aproveitarem-se da situação? Nada. Vai continuar a velha lógica do periférico que danifica o telefone público, por olhar para ele e não enxergar algo que lhe pertence. O que se passa na cabeça de um trabalhador chamado ao risco para a economia girar, de um pequeno empresário vendo seu negócio ruir, de um trabalhador precarizado tendo que enfrentar um leão a cada dia, quando pode observar que seu governo aproveita a crise para acelerar seus projetos, sem passar pela necessária e regular discussão?

Como as “medidas emergenciais” propostas por Guedes, a venda da Eletrobras a toque de caixa por uns trocados (16 bi) e a possibilidade de amesquinhar o serviço público, tão necessário nesse momento. É preciso que haja uma mudança de atitude urgente! Nosso país está absolutamente na contramão do mundo inteiro.

Parabéns ao povo espanhol, cujo governo que nacionalizou todos os equipamentos de saúde. Parabéns aos povos do mundo que conseguiram criar um sistema de saúde capaz de enfrentar essa emergência, desde a pequenina ilha de Cuba, até nós mesmos, que construímos o SUS. Toda solidariedade, tanto aos povos de países menos afortunados, como os de nossos irmãos ancestrais africanos, quanto aos de países totalmente dominados pelo capitalismo selvagem como os EUA.

Reconhecimento aos governantes que estão conseguindo sucesso na guerra contra o vírus, como os da China, Coréia do Sul, Taiwan, Malásia. Apoio aos governos e aos povos da Europa, continente que nos é referência e de onde vieram muitos de nossos pais e avós. Solidariedade e irmandade com nossos vizinhos da América Latina, independentemente de suas orientações e situações políticas.

Quanto a nós, precisamos mudar! Não é possível que as pessoas que comandam esse país, que são poucas e muito poderosas, não tenham compreendido que esse “terraplanismo cultural” e essa ultradireita tosca vão levar todos ao desastre. É absolutamente imperioso valorizar e dotar de recursos o SUS, que é a nossa maior arma, e impedir a destruição do serviço público. Varrer, empurrar para a deepweb a negação da ciência que pode matar. A Justiça do Brasil tem que deixar essa chicana politiqueira e se impor como um instrumento efetivo para defender a vida, pois que sem isso acabará perdendo seu sentido e será cada vez menos respeitada e reconhecida. Discutir abertamente e preparar medidas de recuperação econômica, que sejam generosas e inclusivas. Dotar a nação com urgência de uma liderança responsável, capaz de vencer esses desafios enormes. E essa é uma tarefa hercúlea, que a cidadania não pode assumir. A maioria dos homens comuns está atomizado, confinado, atemorizado e frágil. No momento, cabe a elite econômica e política mudar sua atitude, para mudar a nossa história.

Espero que os ilumine a sabedoria e temam o vaticínio do poeta desconhecido, morto há mais de mil anos: hac in hora, sine mora…Corde pulsum tangite…Quod por sortem sternist fortem. (Nessa hora, sem demora…tange a corda vibrante…porque a sorte, abate o forte).

Por Eduardo Papa, professor, jornalista e artista plástico

 

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