As mentiras de Bolsonaro e Weintraub: para onde caminha a educação em 2020

A prática da mentira na atualidade ganha contornos de uma realidade líquida em que o cidadão comum, se não se dedicar à pesquisa para descobrir outra perspectiva, passa apenas a acreditar nos fatos e dados que lhes são prontamente apresentados. O governo já angariou grande rebanho utilizando esta estratégia e agora o coloca em ação dentro das pastas do executivo, assim como faz Weintraub e sua turma que diz estar promovendo um processo revolucionário na educação brasileira.

Jair Bolsonaro e o ministro da Educação, Abraham Weintraub, Foto: Sérgio Lima/Poder360
Jair Bolsonaro e o ministro da Educação, Abraham Weintraub. Foto: Sérgio Lima/Poder360

Para quem assistiu a live do Presidente Jair Bolsonaro em 07 de janeiro, com a apresentação de um vídeo resumo sobre os feitos realizados pelo MEC em 2019, até se choca com tantas políticas públicas implementadas em tão pouco tempo e eficiência em fazê-las. Dentre elas, anunciam a fundação de 05 Universidades apenas no primeiro ano de governo. Para o Ministro, o Brasil sairá do fundo do poço na área da educação a partir de agora, mas há que alertarmos que nem mesmo o FUNDEB está garantido em sua continuidade, que vence em dezembro de 2020 e é imprescindível para Educação Básica, haja vista que do montante aplicado nas escolas públicas em 2019, R$ 248 bilhões, 65% saíram do Fundeb, ou seja, R$ 156 bilhões.

Ao buscar algumas informações, no entanto, a realidade conta com algumas diferenças, a começar pelo anúncio das Universidades, que foram consideradas como obras do governo em razão de nomeação de reitoria. A Universidade Federal de Jataí, a primeira colocada na conta de Bolsonaro, foi criada pela Lei 13.635 de 2018, a partir do desmembramento da Universidade Federal de Goiás. Seu campus, que já existia desde 1980, pois fazia parte da UFG, é o maior do estado de Goiás e em 2018 ofertou 25 cursos de graduação e 07 de pós-graduação. O mesmo ocorre com a Universidade Federal de Catalão (UFCat), que também compunha o corpo da UFG e foi desmembrado em 2018, tornando-se Universidade própria.

Já a Universidade Federal do Agreste de Pernambuco (Ufape) é fruto do Projeto de Lei 5272, datado de 2016, sendo sancionado também em 2018, ano de sua implantação. Aqui vale destacar, ainda, o decreto 9725/2019, em que foram extintos 13,7 mil cargos da administração pública, atingindo principalmente as Universidades Federais e sendo a Ufape justamente a mais atingida com os cortes dentro de seu estado.

Mais uma Universidade anunciada pelo Ministro como de sua criação, a Universidade Federal de Rondonópolis (UFR), é também fruto de desmembramento, já que era incorporada à Universidade Federal de Mato Grosso, com campus em Rondonópolis, tornando-se sede própria por meio de Lei 13.637 de 2018, ano em que já possuía aproximadamente 5 mil estudantes. O mesmo processo ocorreu com a Universidade do Delta do Paraíso (UFDPar), que em 2017 foi desmembrada da Universidade Federal do Piauí, depois de sancionada a Lei 13. 651, criada a partir de solicitação presidencial nº 222 ainda em 2016.

Além das mentiras como prática cotidiana do atual governo, a formação crítica de leitura e escrita é também alvo decretado por um governo que atribui como meta, de acordo com vídeo divulgado pelo ministro em sua página do twitter em 05 de janeiro, três inimigos a serem combatidos, sendo eles “o pessoal da corrupção”, “os oligarcas” e “os comunistas e socialistas”, sendo possível essas três variáveis se interseccionarem.

Não à toa o presidente da república entende que os livros didáticos “têm muita coisa escrita” e seu ministro anunciou já ter promovido uma limpa nos materiais escolares. Não diz respeito apenas à mentira do “sai o kit gay e entra a leitura em família” – e sabe-se lá o que seria isso. Essas colocações denotam o retorno do método da cartilha “Caminho Suave”, que de suave não tem nada, e que tem como objetivo formar cidadãos não pensantes, que, com dificuldade, decifram letras tentando formar palavras, sem leitura crítica do mundo e capacidade construtiva de textos. O que vemos é que, além das mentiras serem liberadas pelo responsável pelas políticas de educação do país, estamos sendo levados para a o retorno dos tempos em que se alfabetizar era um processo doloroso e traumático para a criança e acarretava muitas dificuldades de aprendizagem, desestímulo com a educação e fracasso escolar.

Por Marisa Demarzo

Deixe uma resposta