MILTON TEMER: Esquerdismo, doença infantil…

É realmente impressionante a forma como se invoca em vão uma obra tão importante da literatura política, sem levar em conta quem seu autor alvejava, e em que circunstâncias o tema se lhe apresentava.

Comentários inteligentes, dos quais discordo eventualmente, me obrigam a uma pequena reflexão sobre o mau uso da teoria gramsciana, para além das formulações de Lenin.

PARA DEFENDER qualquer pacto de anormais, lá vem o acomodado ex-revolucionário denunciar o “sectarismo” de quem se considera incapaz de tratar como aliados os provenientes dessa turba de direitistas reacionários, neoliberais anti-sociais até o talo, dissimulados em um pantomímico “centro democrático”.

MAS JUSTIÇA SE LHES FAÇA. Não é deles qualquer iniciativa ilusória quanto a compromissos programáticos. Deixam claro, em entrevistas e em declarações, públicas, que estão dispostos sempre a discutir, mas sem afirmar nada que se lhes possa depois cobrar como acordo traído. São os do campo da esquerda que, para contornar o alambrado, fazem ouvidos moucos para tudo que lhes chega, deixando claro que pacotes de contra-reformas anti-sociais e privatizações que entregam aos maganos do grande capital empresas estatais, mesmo lucrativas, não cessarão em absoluto se depender dos protagonistas de tais “frentes”.

DE CONCRETO, o que resulta aos acomodados é comprometer negativamente, por reprodução mecânica de citações, os grandes teóricos e líderes revolucionários históricos, transformando-os em cúmplices de toscas manipulações, ao eludir a gritante diferença entre as realidades objetivas atuais e as que esses líderes enfrentavam quando das proposições ora surrupiadas.

FUNDAMENTAL É compreender que análises objetivas se dão sobre realidades objetivas. Análises e proposições que, não raro se contradizem, quando reproduzidas sem citação do contexto em que foram geradas. O conjunto da obra de Lenin é exemplar nessa variedade de eixos táticos, que a esquerda liberal se aproveita para desqualificar, como se ali houvesse ali argumento para todo gosto, sem levar em condição as conjunturas distintas e as táticas condizentes com cada momento.

A SOCIEDADE CIVIL sobre a qual Gramsci operava para discutir a disputa de hegemonia nos anos 30 do século passado, com Hitler e Mussolini no poder, tem muito pouco a ver com os tempos que vivemos. Tratava-se de uma sociedade civil pautada, no mundo do trabalho, pela solidariedade de classe entre os trabalhadores da produção em série fordista. E que muito pouco têm a ver com organização e a exploração da mais valia do mundo do trabalho nos dias de hoje, com a robotização incessante da produção, com o proletariado se dividindo entre uma camada de assalariados dispostos a tudo para manter seus empregos e uma outra, se disputando por todos os meios, o espaço que lhe resta numa informalidade de crescimento também incessante. A debilidade do movimento sindical, não só no Brasil, nos tempos atuais é prova evidente dessa nova organização, ou fragmentação social, se comparada com o peso que tinha até a década de 80 do século passado.

ESTAMOS, PORTANTO, muito mais para Lenin nos momentos de radicalidade e de afirmação da necessidade de um partido de vanguarda, capaz de ser portador de um conceito de “classe para si” se sobrepondo à passividade do “classe em si”, para um fragmentado e fragilizado mundo do trabalho, do que o Lenin que denunciava o esquerdismo dos que negavam o partido como agente revolucionário, e aqueles que se recusavam à aliança – não com uma direita dissimulada em centro – mas com um partido socialista, de fato, como o Labour inglês.

ESSA DISPUTA institucional a esquerda parlamentar combativa faz – daí a importância dada à sucessão na Câmara, subestimada por muitos – em todo o potencial que ela nos fornece. Mas não para celebrar e operar pelo que Marx classificou como “cretinice parlamentar”, relevando a prioridade da representação na luta de classes para a acomodação em torno do “jogo de consensos” do seis x meia-dúzia.

ACOMODAÇÃO NÃO PODE SER MOTE das representações de esquerda no covil parlamentar. Essa é, sim, aos que de esquerda se condicionam aos limites daquilo que mantem ou amplia sua possibilidade de reeleição. Da esquerda, enfim, que está muito mais para liberal do que para contestadora da ordem vigente.

NÃO É NECESSÁRIO ser um radical de esquerda para constatar tal obviedade. Radomiro Tomic, o senador democrata-cristão que perdeu a eleição no voto direto contra Salvador Allende, não hesitou em contestar seus correligionários, que se aproximavam de Jorge Alessandri, o representante da direita mais reacionária chilena, no segundo turno a se decidir no voto congressual: “toda vez que as forças democráticas se aliam com a direita é a direita quem ganha”.

ISSO SE COMPROVOU quando a DC chilena, que concordara com Tomic na votação do segundo turno, resolveu se aliar aos golpistas que conspiravam contra o governo da Unidade Popular, e terminou tão perseguida quanto os partidários de Allende , depois que o sanguinário Pinochet se consolidou no poder.

LUTA QUE SEGUE, portanto, com uma Frente Unida de Esquerda, dentro e fora do Parlamento. E contra as conciliações que, no Brasil, só demonstraram como a classe dominante sabe se aproveitar dos arrivistas para impor seus desígnios.

PS.: E que ninguém conclua que “CONCILIAÇÃO PRECOCE seja a doença senil de ex-comunas”.

Por: Milton Temer.

É realmente impressionante a forma como se invoca em vão uma obra tão importante da literatura política, sem levar em conta quem seu autor alvejava, e em que circunstâncias o tema se lhe apresentava.

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