Ministro da Educação inventa o instituto da delação imaginária

Em meio ao clima obscurantista e punitivista da cambulhada brasileira, o ministro da Educação inventou o instituto da “delação imaginária” ao incentivar que sejam dedurados os que andam coagindo os estudantes coitadinhos a participar de manifestações. E que poder de coação esse de botar milhares de pessoas nas ruas país afora! Uma monstruosidade.

Tudo a ver com o monstrengo em que se transformou o Brasil onde a violência jurídica de juízes nazistas se mistura à virulência dos ataques do próprio governo à democracia – todos eles achando que é fácil baixar o machado em cima de raízes e troncos dos princípios da dignidade da pessoa humana, da liberdade, da livre expressão e do desenvolvimento em todos os níveis.

A “delação imaginária” é apenas mais um dos diversos tipos de violência interligados aos quais estamos submetidos. No plano simbólico, o bombardeio acontece através da sinergia manipuladora das novelinhas mequetrefes da TV Globo com seu jornalismo marcado por uma espécie de dramaturgia neoliberal de amavios fascistas. Estes se manifestam nas análises dos comentaristas políticos e econômicos cheios de pose, manipulando gráficos e tabelas para reforçar a chantagem do governo a favor da destruição da previdência pública.

No planto político, a pusilanimidade dos eleitos pelo voto popular dizendo para as câmeras de televisão que buscam o consenso e a “racionalidade” pelo diálogo, como se fossem pessoas ponderadas e defensoras da nação. Diálogo entre amiguinhos nos bastidores de negociações espúrias de um toma lá de cá vergonhoso, como se o Congresso fosse uma turminha de pessoas agraciadas pela sorte do destino.

Lula então tinha razão ao estimar, já faz tempo, a quantidade de picaretas por metro quadrado lá no Legislativo. Não à toa o costume de se referirem à Câmara e ao Senado como “Casas”, espaços privados de indivíduos apartados da sociedade. Esta não tem nem mais (se é que algum dia teve) uma opinião pública, sequestrada que foi pelas elites midiáticas para transmutar seus interesses privatistas e antinacionais como “vontade geral”.

Apesar disso, muitos políticos eleitos resistem – e é com estes que podemos contar numa articulação com movimentos sociais, sindicatos, partidos, entidades profissionais, pequenos e médios empresários, extratos da classe média, jornalistas independentes, militares defensores da soberania nacional, alguns setores eclesiásticos e outros segmentos – entre os quais, como não poderia deixar de ser, os estudantes brasileiros que estão dando uma lição ao governo e à sociedade.

Lembremos: a cambulhada brasileira não quer nos convencer apenas que todo político é corrupto e que o Judiciário também – mentira que devemos denunciar a fim de impedir qualquer tipo de golpe contra a democracia. Quer nos convencer que funcionários públicos e professores de universidades também são corruptos e que ficam manipulando os alunos para fins de atividades partidárias. A cambulhada faz com que qualquer um pode ser chamado de corrupto ou comunista se fizer críticas ao governo.

No plano econômico, um navio à deriva, não como resultado de uma inevitabilidade do sistema capitalista, mas sim por conta do conluio de interesses externos e internos visando à rapinagem dos recursos estratégicos, à flexibilização de regras, às privatizações descaradas, à precarização do trabalho, ao desmonte do Estado e do parque industrial. Nunca se sabe se vai naufragar, mas aderna aqui e ali sinalizando total falta de perspectivas e embrulhando o estômago diante das boçalidades manifestadas pelas altas autoridades.

No plano da sociabilidade mínima nos espaços públicos, a violência física e verbal sempre pronta a emergir ao mínimo gesto. E partindo, invariavelmente, de gente contra a liberdade de expressão e opinião e contra a diversidade, a exemplo de pessoas que agridem outras só porque estão vestidas com camisetas estampando o rosto de Marielle Franco e Anderson Gomes – cujo assassinato é um grande sapo que ainda não desceu pela garganta da República.

Essa singela e rápida análise poderia se estender em relação a outros planos de diferentes dimensões da vida nacional. Mas bastam essas que me vêm à cabeça no momento, apenas como início de reflexão, para lembrar que as coisas estão interconectadas – da “delação imaginária” à falta de perspectiva de um país que, nas contradições dos seus 30 anos de democracia, vem mostrando como o voto é coisa muito séria e preciosa.

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