A contra-história da modernidade e a reconstrução do movimento comunista

No distante 2015, no site do PCB, foi publicada uma entrevista com o saudoso Jean Salem. Na entrevista ele descreve brevemente como a ideologia dominante se apropriou da história da classe trabalhadora no século XX e coloca como maior exemplo o apagamento da centralidade da Resistência em Stalingrado na vitória sobre o nazifascismo.

Salem, nessa mesma entrevista, realizou uma afirmação que nunca mais saiu da minha cabeça: a retomada do movimento comunista passa por um balanço crítico, uma verdadeira nova escrita da história, da modernidade burguesa como um todo e do século XX em particular. Nesse mesmo período, comecei a me aprofundar na obra de Domenico Losurdo, um intelectual que dedicou sua vida a esse projeto.

Toda minha produção, em última instância, tem essa finalidade. Esse novo balanço crítico da história é parte da luta pela reforma intelectual e moral com vistas à construção de uma nova hegemonia (Gramsci) e, também, a luta de classes na teoria, como provocava o grande Althusser. Reconstruir o movimento revolucionário passa por um longo trabalho político, organizativo, técnico e também teórico.

Essa batalha teórica pode ser sintetizada em um grande desafio: destruir toda influência de Hannah Arendt no balanço histórico da modernidade. Essa pensadora é a síntese dos principais elementos constitutivos da ideologia burguesa reinante: a ) demonização das experiências socialistas como auge da barbárie moderna; b ) apagamento da questão colonial (e do nazifascismo como radicalização da tradição colonial-imperialista Ocidental); c ) hagiografia do liberalismo, transformando ele em um mito, um vetor de eterna defesa das liberdades individuais e dos direitos humanos; d ) compreensão eurocêntrica da questão democrática e exclusão da dimensão geopolítica e de resistência/condição de vida dos explorados e oprimidos na qualificação de um regime como democrático.

É claro que Hannah Arendt não é a única a expressar esses elementos. Em muitos aspectos, não é nem a mais reacionária (Nietzsche, por exemplo, é bem mais reacionário que ela), mas a autora de “As origens do totalitarismo” tem credenciais de esquerda (é aceita como parte do pensamento progressista) e, objetivamente, pauta a existência de muitas organizações do campo socialista e de esquerda (como é o caso no Brasil do PT e PSOL e uma porrada de movimentos sociais).

Basicamente, esse é o sentido das minhas falas nos lançamentos do Revolução Africana nos diversos estados do Brasil.

Esse trabalho coletivo, não apenas meu, não apenas do PCB, é indispensável para sairmos da barbárie e, como diria o grande Benjamin, salvar os nossos mortos do inimigo.

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