JONES MANOEL: Moral, poder e o aprendizado da história

Em 2015 tive a oportunidade de ler uma longa entrevista do filósofo e historiador italiano Domenico Losurdo. A certa altura da entrevista, Losurdo é perguntado sobre a democracia em Cuba e se ele não é crítico “ao partido único” e, ao que o entrevistador chama, de “déficit de democracia”. Losurdo apresenta uma resposta corajosa, ousada e que mudou radicalmente minha forma de ver a política.

O italiano diz abertamente que frente ao imperialismo é necessário tomar medidas defensivas e que, para os revolucionários, nada é mais importante que manter o poder. Fora do poder não existe possibilidade de mudanças radicais na vida do povo trabalhador. Em seguida, Losurdo afirma que os que estão preocupados com a democracia em Cuba, devem defender, em primeiro lugar, o fim do bloqueio, agressões, sabotagens, pressões diplomáticas e afins dos Estados Unidos contra Cuba. O que os Estados Unidos querem, segundo o filósofo, é um sistema político que permita que o poder do dinheiro e dos meios de mídia privados possam ser exercidos na ilha da Revolução. Para Losurdo, criticar os supostos “déficits de democracia” em Cuba fora de um quadro histórico-concreto das agressões imperialistas é uma forma de ceder a ideologia dominante.

Losurdo continua a reflexão e mostra que em toda tradição liberal existe a teoria do Estado de exceção e da ditadura em momentos de emergência. O liberalismo nunca duvidou que “fora do poder, tudo é ilusão”. Ainda afirma que grandes pensadores modernos, como Hegel e Alexander Hamilton, desenvolveram a teoria de que fora de uma situação de segurança geopolítica, isto é, com a ameaça de guerra pairando no horizonte, é impossível imaginar o livre desenvolvimento de formas democráticas. Para Losurdo não resta dúvidas: a burguesia, por trás de toda sua reflexão sobre “limites ao poder” e legalidade, nunca descuidou de construir uma superestrutura jurídica-política, e uma filosofia de justificação correspondente, para garantir o poder em momentos de crise nacional. Por que os trabalhadores, no poder, não poderiam fazer o mesmo?

Aqui entra o aspecto ideológico da questão. A burguesia permite que os trabalhadores chorem por seus mártires mortos, fora do poder. Aliás, uma longa tradição do “Marxismo Ocidental”, diz que seu principal mérito foi não ter exercido o poder, transformado o marxismo em “ideologia de Estado”. Por isso, a burguesia acha lindo chorarmos pelos Allende’s e Rosa’s Luxemburgo’s, mas sofre de horror se reivindicamos Stálin, Mao, Fidel, Kim Il-sung etc. Temos que ser o eterno Davi na luta permanente contra o Golias. Não podemos, nós, termos armas. Devemos sempre, a todo momento, ser o povo do deserto, vagando, sofrendo, oprimido. Temos que louvar um povo destituído de tudo, como o Palestino, mas recusar outro povo com a mesma luta do palestino, mas que tem… uma bomba atômica (falo, é claro, da Coreia Popular).

Não vou julgar ou criticar Evo e os dirigentes do MAS. Não tenho capacidade de avaliar se foi a melhor tática. Mas não podemos nos achar moral e eticamente superiores a burguesia por causa da renúncia de Evo em comparação, por exemplo, com Sebastián Piñera, que se mantém no poder a base de sangue. O poder, em última instância, é a capacidade de impor sua vontade a outras classes e grupos sociais a partir da força. Ele, o poder, não só é a boca de um fuzil, mas é, fundamentalmente, a boca de um fuzil. Em momentos de crise, quem define a exceção, cria a nova regra.

Aprendi com Losurdo que nossos mártires devem ser lembrados e honrados, mas os que vivem e dirigem o nosso povo, merecem o mesmo. Amo Che Guevara, mas amo mais ainda Fidel Castro. No realismo político a moral não é desimportante. Ela é fundamental na luta pela conquista e conservação do poder. Mas só com a moral, sem o poder, tudo é ilusão. Mas não queiram sempre chorar os nossos mortos. Desejem, assim como os bolcheviques, cortar a cabeça da família real. Classe dominante expurgada não realiza golpe de estado.

Por Jones Manoel.

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