CHRISTIAN LYNCH: ‘Deixa o cara governar’? Mourão e o Governo Bolsonaro

A leitura das declarações do vice-presidente em sua última entrevista vão confirmando minhas impressões, que aproveito para atualizar nessa hora do almoço. Na cabeça do general Mourão, o governo é de centro-direita com alguns extremistas. Que quer dizer isso? Que, para ele, a administração Bolsonaro não é dos Bolsonaros, mas das forças armadas e de outros elementos mais moderados ou “racionais” (Guedes?). O presidente, os filhos e o núcleo reacionário e fascista aparecem como um elemento secundário, “populista”, às vezes irritante ou ridículo, que ele minimiza frequentemente (“o Jair”, “Eduardo Bananinha” etc). O Heleno também aparece como eventualmente destemperado, e nesse sentido, não representativo da “serenidade” dos demais militares.

Por outro lado, Mourão sugere ser necessário conviver com esse núcleo radical em um contexto democrático, entendido como aquele em que a administração precisa do “show” cenográfico de “figuração” popular, providenciado pelo bolsonarismo. O “populismo” radical aparece como um elemento útil porque permitiu à direita subir democraticamente ao poder. Mesmo assim, o vice não esconde as críticas aos Bolsonaros, que com a sua “retórica inflamada” também contribuem para o mal estar geral. O golpismo bolsonarista, para Mourão não passa de retórica para agradar o “gado”: o golpe é impossível, é inviável, é desnecessário. Também admite que o governo Bolsonaro pode falhar e que, nesse caso, ele irá – vejam a expressão – “para a lata de lixo de história”.

Que se tira disso? Embora governistas, Mourão e os outros militares não se apresentam como bolsonaristas até desejam se distinguir deles. O partido deles é o exército, e no seu discurso implícito, são os militares e outros conservadores “normais” que dão rumo ao governo, apesar da alopração dos radicais. Estes são úteis porque alijaram “a esquerda” (os liberais como FHC e os socialistas como Lula), quando um governo conservador, mas “constitucional”, era necessário para dar um freio de arrumação no país. Nesse sentido, os problemas do governo apontados pelos críticos oposicionistas são lidos sempre como choramingos de derrotados, ou que os outros poderes impedem o governo de atingir seus fins. Embora Bolsonaro também contribua com seu destempero.

O que resulta da entrevista, seja como for, é que a adesão dos militares a Bolsonaro parece em parte ideológica, em parte pragmática. É necessário sustenta-lo para dar uma chance à direita dentro do regime democrático, mas também porque o exército tem a obrigação “patriótica” de ajudar a empurrar o piano. Mais ainda, o governo tem que ser defendido, porque, na sua visão, é um governo principalmente dos militares e não dos Bolsonaros. Os Bolsonaro são úteis ou necessários porque venceram nas urnas, mas quem governa de fato, quem administra, são seus colegas de farda e outros conservadores convictos, mas “constitucionais”. O discurso golpista dos radicais, reacionários e fascistas, é desdenhado como “show off” populista, decorrente do demagógico regime democrático… Então, “Deixa o cara governar” significa, em larga medida, “Deixa os militares governarem”.

De tudo o que foi exposto, emerge uma aparente via de mão dupla entre o presidente e seu “gabinete militar”. Por um lado, Bolsonaro explora a imagem dos militares para obter popularidade com a sua base e intimidar as instituições. Mas, por outro, ele também precisa demostrar aos militares que tem popularidade, para garantir que eles continuem no barco, viabilizando seu governo. A colaboração dos militares não é incondicional. A presença do ministro da Defesa ao seu lado ontem, sobrevoando de helicóptero a manifestação bolsonarista na Praça dos Três Poderes, parece simbólica desse duplo movimento.

Por: Christian Edward Cyril Lynch.

1 Comentário

Deixe uma resposta