Ação do MPF contra nomeação de Eduardo Bolsonaro é antidemocrática

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou ontem uma ação civil pública contra a indicação de Eduardo Bolsonaro para o posto de Embaixador do Brasil nos Estados Unidos. A embaixada em Washington D.C. é o cargo mais cobiçado da diplomacia brasileira.

A ação, que conta com pedido de liminar, tramita agora na Justiça Federal. Além desta, consta que o partido Cidadania entrou com um mandado de segurança coletivo preventivo, no STF, também com pedido de liminar, para impedir a nomeação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada em Washington.

O MPF entende que o governo deve atender critérios para nomeações desse tipo, tais como experiência e mérito em atividades diplomáticas. Caso esses critérios não sejam atendidos cabe à justiça, no entender do MPF, barrar as nomeações.

Isso é absolutamente absurdo e antidemocrático. Essa tentativa beira o ensandecimento completo do corporativismo institucional da República e reforça sua dissociação do funcionamento democrático da Nação. Pior ainda, certamente conta com o aplauso de 90% dos partidos de esquerda do país.

A representação do país é um cargo notadamente político, não técnico. Qual é o próximo passo do MPF e do Judiciário? Impedir a eleição de um presidente sem formação universitária? Impedir que pessoas sem qualificação técnica depositem seus votos nas urnas?

Política externa e ação diplomática são coisas diferentes. Mundo afora, nem mesmo ministros das relações exteriores costumam ser diplomatas de carreira.

Requer-se de um embaixador que ele possua uma visão abrangente da vida do país, de suas necessidades e das relações com seus vizinhos e parceiros internacionais, não que conheça em detalhes os rodapés do Tratado de Santo Ildefonso de 1777, que certamente são estudados por diplomatas de formação.

Acima de tudo, requer-se que um embaixador seja capaz de organizar e dirigir seus diplomatas no sentido da política externa vitoriosa nas urnas. Um embaixador é um líder capaz de dar concretude a uma ideia de engajamento do país com o mundo na relação específica com o país onde atua.

Essa é uma experiência que se adquire na política, no contato com o povo e na convivência com outros povos. Como questionar que Eduardo Bolsonaro cumpre esses requisitos, se ele é deputado federal eleito com 1,8 milhão de votos e é conhecidamente articulado com seus interlocutores estrangeiros?

Seria essa ação do MPF um arroubo elitista? Sabemos que é uma instituição formada por concursados que, pela dificuldade imposta pela seleção, costumam sair das mais caras faculdades e cursinhos preparatórios do país, portanto não seria de se estranhar.

Mas observem bem: até mesmo o governo dos EUA já aceitou Eduardo Bolsonaro como representante do Brasil em seu país. Como pode uma instituição cujos funcionários são concursados se imaginar mais legítima do que a escolha e a aceitação de representantes populares eleitos em dois países diferentes?

Nesse sentido, concordo plenamente com a crítica de Alon Feuerwerker: a nomeação de Eduardo Bolsonaro está sendo questionada pelos motivos errados. O conteúdo da política externa, que é o mais grave, passa intocado pelo crivo elitista, venha este das corporações do judiciário ou de partidos distantes do cotidiano popular, ambos isolados em suas torres de marfim.

Isso revela a tendência geral de ignorar o caráter entreguista do atual governo brasileiro.

Não surpreende que a esquerda tenha se distanciado tanto da população trabalhadora e dos mais necessitados, abrindo espaço para alguém como Jair Bolsonaro preencher com seu carisma.

A cada ofensiva do governo, a esquerda cai na mesma armadilha. Apoiar uma ação como a do MPF e “tirar sarro” da capacidade de Eduardo Bolsonaro como embaixador por ele ter fritado hambúrguer nos Estados Unidos invariavelmente sai pela culatra: é uma ofensa aos milhares de brasileiros que concorrem por vagas limitadas em cursos gratuitos de instituições de apoio para obter uma qualificação como cozinheiro (a) e enfrentar o profundo desemprego que assola as famílias.

O efeito não poderia ser mais lógico: quem frita hambúrguer se identifica com o deputado, permite-se sonhar, se vê representado. A direita liberal e entreguista ocupa espaços porque possui algo a mais do que a esquerda também liberal e entreguista: a capacidade de produzir elos de identificação com os eleitores mais humildes.

Esquece-se, também, que partiu do mesmo Ministério Público grande parte da ofensiva contra a política legítima e democrática nos últimos anos. Não está o noticiário recheado de conspirações pelo poder conduzidas por Deltan Dallagnol?

É realmente o momento para aplaudir qualquer tentativa de pautar a agenda política por parte das corporações?

A única preocupação deveria ser o destino das relações entre o Brasil, um país periférico e subdesenvolvido, e os EUA, uma potência hegemônica imperialista que trabalha incessantemente para impedir que países mais pobres e fracos conduzam suas políticas e administrem suas riquezas autonomamente.

 

 

 

 

 

1 Comentário

  • Será que o articulista conversou com o povo pra chegar a essa conclusão esdrúxula?
    O povo não se identifica com Eduardo pq frita hambúrgueres. As pessoas enxergam a nomeação como o que é: uma mamata pelo simples fato de ser filho do presidente. Se o nome dele fosse Eduardo da Silva jamais seria nomeado. Isso foi dito com todas as letras pelo presidente. E se tem uma coisa que o povo não se identifica é gente que sobe na vida pelo sobrenome.

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