Um mundo a ganhar

O sábado que Bernie Sanders escolheu para inaugurar sua pré-campanha a presidente dos Estado Unidos amanheceu frio. A neve que caiu durante a madrugada cobria as ruas de Nova York e o céu nublado era convidativo para ficar em casa. É verdade que o dia não estava tão frio se comparado a outros da mesma semana, mas temperaturas próximas de zero não podem ser consideradas agradáveis sob nenhum critério razoável, e horas em pé na neve congela qualquer pé. Mas o frio acabou não sendo suficiente para me prender em casa, nem eu nem centenas de outras pessoas que encheram o campo no qual o encontro aconteceu.

lançamento da pré-campanha de Bernie Sanders nos EUA
Foto: Allan Hillani

Cheguei na estação mais próxima do Brooklyn College perto das 10 horas da manhã, e enquanto seguia o fluxo do que provavelmente eram pessoas indo para o comício, começo a ouvir alguém cantar com entusiasmo “Bernie, Bernie, Bernie”. Era uma funcionária negra da companhia de metrô, que, possivelmente, devido ao seu turno de trabalho, não poderia estar presente no evento, mas que de modo algum aceitava não participar das atividades. Momentos como esse mostram que as pautas pelas quais Sanders ficou famoso há quatro anos atrás não se restringem a uma bolha jovem branca progressista.

A afirmação de Bernie Sanders e seus apoiadores de que não se trata de construir uma campanha, mas um movimento, faz sentido por momentos como esse e vários outros que pude experienciar nas horas seguintes. Não se trata simplesmente de construir um movimento social organizado contra o establishment de ambos os partidos democrata e republicano. Isso também, considerando que haviam infindáveis listas de assinatura para que quem quisesse pudesse começar a se organizar no seu comitê local num admirável esforço de construção pela base. Mas a ênfase na ideia de movimento parece estar associada à experiência coletiva que uma campanha como essa pode produzir, um estar junto cuja potencialidade transformadora tantas vezes apareceu na história.

lançamento da pré-campanha de Bernie Sanders nos EUA
Foto: Allan Hillani

A universidade escolhida para o primeiro comício da campanha foi onde Bernie Sanders iniciou seu ensino superior antes de se transferir para a Universidade de Chicago, e o campus fica a algumas quadras do apartamento em que ele nasceu e cresceu. O simbolismo pessoal não era aleatório, e deu o tom de todas as falas do comício. Em um contexto em que se colocar à esquerda do clintonismo do Partido Democrata não é mais uma exclusividade, o comitê da campanha percebeu a necessidade de não apenas destacar o que o governo precisa fazer para melhorar a vida das pessoas, mas mostrar que essa postura combativa caracteriza a atuação política de Sanders há mais de 50 anos, desde os tempos em que ela era apenas um estudante branco cerrando fileiras com Martin Luther King na luta pelos direitos civis e contra a segregação racial.

lançamento da pré-campanha de Bernie Sanders nos EUA
Foto: Allan Hillani

Antes de falar, Bernie Sanders foi introduzido por diversas falas de abertura: sua esposa, Jane Sanders; um líder sindical, um reverendo da Carolina do Sul, Nina Turner, ex-senadora estadual de Ohio, e Shaun King, jornalista e ativista pela reforma do sistema criminal americano. Era interessante perceber nessas falas a clara influência retórica que a união entre política e religião no movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos exerceu e ainda exerce. Frases curtas e calmas intermediadas por gritos de aprovação individuais em uma mistura de sermão e jogral, tão diferentes do estilo assertivo e até raivoso da tradição sindicalista da América Latina, conseguiam cumprir o objetivo e mobilizar, arrepiar e conscientizar ao mesmo tempo.

lançamento da pré-campanha de Bernie Sanders nos EUA
Foto: Allan Hillani

A retórica, aliás, é algo que salta aos olhos na forma de Bernie Sanders de se comunicar, o que torna tão intrigante sua popularidade. Comparada com as falas que lhe precederam, a de Sanders beira a apatia. O que torna seu discurso poderoso, contudo, é a franqueza. Bernie Sanders exibe aquela coragem de dizer a verdade que fascinava Foucault. Durante a meia hora em que discursou, seu propósito parecia o de enumerar todos os problemas da sociedade americana: da desigualdade sexual e racial à necessidade de instituir um salário mínimo nacional de 15 dólares a hora; de um sistema de saúde universal a um fim às guerras drogas; reformas tributárias e redução de gastos militares para financiar estudantes universitários; uma mudança radical na matriz energética gerando empregos no processo; combater todas as formas de lobby que permeiam a política americana, da indústria farmacêutica às prisões privadas. A lista poderia se estender. Mas o que pode parecer mera demagogia soava como uma pauta universal concreta capaz de unir todos os setores insatisfeitos do país com o atual sistema, inclusive (se não principalmente) alguns daqueles que elegeram Donald Trump em 2016.

lançamento da pré-campanha de Bernie Sanders nos EUA
Foto: Allan Hillani

É completamente justificado, portanto, que os olhos da esquerda mundial se voltem para a campanha de Sanders. Ele é de longe o político atualmente mais popular a disputar as prévias do Partido Democrata, e sua campanha nas primeiras 24 horas acumulou 6 milhões de dólares com 600 mil apoiadores inscritos em um sistema de doações mensais. Mas a campanha de Sanders importa ainda por duas outras razões além de sua viabilidade. A primeira tem a ver com a forma. Após o ciclo de 2011 a 2014 de protestos multitudinários ao redor do mundo, poucas foram as experiências que de algum modo conseguiram se firmar, menos ainda as que ainda conseguem mobilizar e se apresentar como alternativa – muito diferente das alternativas de direita que começaram a surgir após esse mesmo ciclo. Os apoiadores que se reúnem ao redor de Bernie Sanders, algo que vai além dos Socialistas Democráticas da América (DSA), é um desses casos, e a recente mobilização que sua campanha está despertando demonstra que essa capacidade organizacional não diminuiu nos últimos quatro anos, muito pelo contrário. Refletir sobre como isso foi possível e quais são os elementos universalizáveis desse processo é tarefa de qualquer organização preocupada em transformar sua realidade.

lançamento da pré-campanha de Bernie Sanders nos EUA
Foto: Allan Hillani

A segunda razão pela qual a campanha de Sanders é central são os possíveis efeitos que sua presidência poderia causar no curso do mundo. Se podemos tirar alguma lição da presidência de Donald Trump é que não é indiferente para o resto do mundo quem ocupa a Casa Branca. Para além de todo o chauvinismo, o governo Trump, especialmente quando Steve Bannon fazia parte dele, não só mudou as relações entre os poderes nos EUA, mas está alterando o próprio arranjo geopolítico mundial. Poderíamos por um momento nos dar ao luxo de pensar o que um autodeclarado socialista poderia produzir no comando da maior força política e militar do planeta.

Uma vitória de Sanders não seria apenas relevante para os Estados Unidos, mas para todo o mundo. Quando a esquerda brasileira discute os impactos genocidas da guerra às drogas ou a repressão que o combate ao terrorismo permite, o desrespeito sistemático a todos os direitos humanos imagináveis por parte do Estado brasileiro, ou ainda o interesse pelo petróleo venezuelano, ela parece não levar em consideração que isso tudo depende em grande parte da pressão exercida pelos EUA sob o Brasil e a América Latina. Algumas das recentes discussões sobre imperialismo parecem tratar o fenômeno como uma realidade imutável e não como um arranjo político razoavelmente (ainda que não plenamente) contingente que pode ser alterado drasticamente – mesmo que não abolido – por uma nova gestão.

É isso o que os críticos à esquerda de Sanders, aqui e lá, parecem ignorar. No caminho para o comício vi que alguns militantes tentavam convencer os passantes de que a alternativa não deveria ser construída por dentro do Partido Democrata, que o sistema capitalista precisa ser abolido em vez de reformado, etc. Alguns mais moderados distribuíam panfletos informativos sobre a Venezuela tentando chamar a atenção para uma postura mais enfática contra as intervenções americanas na região, algo pelo qual Bernie Sanders foi duramente criticado. A Venezuela, de fato, não foi mencionada no comício, ainda que o regime similar ao apartheid imposto pelo Estado Israelense tenha sido criticado. A omissão, ainda que criticável, tem suas razões: a direita estadunidense (como a brasileira) é obcecada com a Venezuela e qualquer menção a “socialismo” é rapidamente conectada à situação do nosso vizinho.

Os debates morais em torno da figura de Sanders e as implicações de apoiá-lo podem se estender indefinidamente, e sempre será possível apontar um motivo para opô-lo. Em situações como essas, onde citações de Marx, Lenin e Trotsky funcionam como um super trunfo a serem invocados nos debates sobre onde o farol deveria estar apontado, eu particularmente gosto de citar o velho Manifesto Comunista. No começo da quarta e última seção, intitulada “Posição dos Comunistas em Relação aos vários Partidos de oposição existentes”, Marx e Engels afirmam que “os Comunistas lutam pela obtenção dos objetivos imediatos, pela imposição dos interesses momentâneos da classe trabalhadora; mas no movimento do presente, eles também representam e tomam conta do futuro desse movimento. Na França, os Comunistas se aliam aos Social-Democratas contra os conservadores e a burguesia radical, reservando, contudo, o direito de tomar uma posição crítica em relação às fases e ilusões tradicionalmente herdadas da grande Revolução”. Eu, particularmente, também prefiro apoiar um movimento ao qual, volta e meia, eu precise fazer meu direito a uma posição crítica. 170 anos depois, o futuro do movimento continua em jogo e nós temos um mundo a ganhar.

pré-campanha Bernie Sanders EUA
Foto: Allan Hillani

2 Comentários

  • O Bernie Sanders é apenas uma reprise do Barack Obama. Na primeira vez em que foi eleito, o Obama também adotava um discurso anti-imperialista e sobre ‘mudança’. Quando chegou ao poder, não fez nada de muito diferente. É a história se repetindo, só não vê quem não quer.

    Se o Bernie Sanders realmente fosse contra o sistema, ele concorreria por outro partido, e não pelo Partido Democrata. Além disso, nas eleições passadas ele deu todo o apoio à Hillary Clinton. Uma vez ele chamou o Hugo Chávez de “ditador comunista [felizmente] morto”. O discurso dele sobre a Coreia do Norte é basicamente o mesmo da direita. E, apesar dele se dizer contra os lobbies, já recebeu toneladas de dinheiro de empresas militares.

    Independente de qualquer coisa, a esquerda da América Latina deveria tomar os seus próprios rumos. Não adianta a esquerda brasileira acusar o Bolsonaro de ser subordinado ao Trump, mas ser um puxa-saco da esquerda dos EUA, como o PT que já resolveu ser membro daquela “Internacional Progressista” que começou a ser montada recentemente.

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  • Precisamos entender que o resultado da eleição dos Estados Unidos, queiramos ou não, é decisivo para evolução do.mundo e em particular do Brasil.
    Não se enganem sem Trump o bozonaro perde boa parte de sua força.
    Obama foi um fato de tamanha importância, que não nos demos conta ainda.
    A eleição de um negro, nos estados unidos, mexeu com o status quo de todo o mundo.
    Finalmente alguem que representa o povo que foi explorado ao máximo, tanto nas Américas como na Europa, chega ao poder e dentro de certas limitações, governou com objetivo claro de dar acesso a Saúde, educação e respeito a milhões de negros em todo mundo.
    Não se enganem a eleição de trump é uma reação do que existe de mais preconceituoso, explorador, vingativo e racista no mundo, a eleição do Obama.
    Ver o Obama , esposa e filhas na casa Branca provocou a ira e o ódio que vemos hoje.
    Precisamos reagir a isso pelo bem da humanidade no geral e do Brasil em particular.
    Qualquer um que seja capaz de se opor ao trump deve ter nosso apoio e mais que isso, deve ser efetuado qualqier esforco para que se tire da casa Branca algue m tão nefasto

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