Nas disputas de título de boxe profissional, a luta tem duração de 12 rounds

Esse texto é para quem acha que o Partido dos Trabalhadores já apanhou o suficiente e que está na hora de “trocar o chip”. Um pouco por complacência aos derrotados, algo muito comum na essência dos brasileiros; um pouco por estratégia política, já que tem gente que acredita que os progressistas devem se unir para suportar o momento e outro tanto por acreditar na máxima popular de que a melhor resposta é o desprezo.

Não importa a tese, mas a cada novo golpeada lançada por primos ideológicos do partido, se desenha o grupo dos juízes dispostos a interromper o ringue ainda no aquecimento. Mágoa, recalque, desespero, oportunismo são os adjetivos de contragolpe lançados por quem entra no ringue, mas não espera receber pancada. Para encerrar a “trocação” de golpes antes do fim da luta, aqueles que estão encurralados na corda apelam para o achismo de que o melhor no momento é a unidade.

Porém, cada: “eu acho” dito, sempre tem um conhecimento científico provocador. Nesse caso, se os apelos de paz dos militantes da união conveniente vêm repletos de achismo, a ciência política surge como alerta para embasar a tese de que unidade é o cacete.

Os cientistas políticos se apropriaram de um estudo da economia, realizado por Kenneth Arrow (Nobel da economia em 1972) e seu aluno Anthony Downs. Ambos se dedicaram a estudar o processo de escolha política. Ou seja, o que está detrás de um eleitor no momento de escolher em quem votar. Grosso modo, concluíram que o voto advém de uma escolha racional, onde os eleitores elencam sua lista de prioridade e estabelecem comparações dentre as opções disponíveis. Tal afirmação soa bastante óbvia se for levado em conta que qualquer escolha de qualquer coisa é derivativa do crivo comparativo entre suas preferências e suas opções.

Todavia, esses economistas citam que processo de escolha é um pouco mais complexo, pois ao mesmo tempo que um candidato pode ser escolhido por contemplar as exigências do eleitor, as escolhas podem obedecer a um critério eliminatório. Trocando em miúdos, gosto menos de B do que de A, logo voto em A por me parecer menos ruim. Com isso, podemos concluir que um candidato eleito pode não ter sido o preferido da maioria por corresponder com seus critérios de escolha, mas ser escolhido por livrar a maioria de uma outra opção que se apresentou mais repulsiva. Soma-se a isso, a análise de Anthony Downs sobre o que ele chamou de ignorância racional. Para ele, a maioria dos eleitores acredita que seu voto pessoal é apenas um voto que não interfere no todo do processo eleitoral. Por isso, abrem mão de procurar uma opção válida por entender que o custo de se estudar as propostas de um candidato é maior que a importância de seu voto. Logo, racionalmente entendem que na indisposição em estudar e escolher seu candidato, os eleitores preferem comparar as opções disponíveis embasados na escolha de seu grupo de afinidade. Torna-se preferível votar no candidato A porque a bandeira que ele levanta é a mesma bandeira do grupo composto por pessoas com personalidade próxima a do eleitor. Não importando se existir incoerência entre a política feita e a bandeira levantada, já que a ignorância racional camufla o estudo da política feita

Desse modo, ao aplicar esse conhecimento ao cenário político brasileiro, temos a apropriação de rótulos e bandeiras como movimento eleitoreiro de cooptar votantes. Durante o largo período no poder, o PT estabeleceu alianças políticas das mais distintas possíveis. Se apropriou do rótulo de progressista, defensor de causas identitárias e do popular discurso de combate à desigualdade para se consolidar como o protagonista da bandeira. No entanto, sua política econômica nada progressista manteve intocável os privilégios de grandes empresários, as disparidades na distribuição de renda e a consequente desindustrialização do país. Beneficiou-se de uma conjuntura internacional positiva que favoreceu a entrada de altos lucros no país. Porém, perdeu a chance de transformar isso em uma verdadeira revolução da vida econômica brasileira para manter suas alianças políticas dando a parte maior desse lucro para os bancos. Em suma, fez um governo para agradar liberais no aspecto econômico e enganar progressistas no campo da retórica.

Mas quando a crise chega, os brasileiros se deparam com a realidade. O desemprego, o endividamento, as restrições ao crédito e o baixo poder de compra atestam que algo está errado. A qualidade de vida das pessoas se degradou.

Um outro grupo político que sempre se beneficiou da política econômica do PT, viu como estratégia associar o desastre econômico a outra crítica popular de muito sucesso, a corrupção. Assim, o brasileiro comum pouco disposto a estudar e descobrir que a corrupção, ainda que real, é apenas a fagulha dos problemas do país, compra a bandeira desse grupo que vira a sensação das eleições. A corrupção cria o antipetismo e na teoria política de Arrow e Downs a ignorância racional direciona a maioria para votar no grupo oposto, pois ele se apresenta menos danoso.

Esse contexto gera duas consequências muito prejudiciais para o Brasil. A primeira delas é a política econômica liberal escapar pela tangente de sua culpa pela situação crítica real e ainda se apresentar como a solução para um problema que é ela mesma. A segunda é o antipetismo focado na corrupção esconder a política econômica liberal promovida pelo PT e manter com ele uma esperança política centrada na sua fictícia retórica progressista. O que no final das contas, dá aos banqueiros, rentistas e megaempresários a hegemonia no poder seja com a oposição, seja com a situação.

Contudo, os golpes ao PT têm que continuar até ficar bem claro para esse enorme contingente de eleitores que se enquadram na ignorância racional que existe alternativa progressista além do Partido dos Trabalhadores, que os liberais estão se aproveitando de toda situação e que a política econômica petista não corresponde com o discurso levantado pelo partido. Sendo assim, que a luta prossiga seus 12 rounds e que seja interrompida apenas se o adversário beijar a lona antes do término, o que nesse caso seria a tão conclamada mea-culpa do PT e reconhecimento de seus erros.

Por Borges Wellington

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