A naturalização do horror no Brasil

1) Alvim é inculto, desonesto, incapaz, maldoso e carrega no espírito toneladas de inveja dos artistas realmente talentosos. Mas não é tão burro quanto parece, tampouco se pode considerar completo néscio o parasita miliciano que o demitiu.

2) Ao reconstituir um discurso nazista, da lavra de Goebbels, o intuito do homem da cultura (e sua gangue de ghostwriters) era naturalizar o horror, estratégia utilizada pelo hitlerismo entre as décadas de 1920 e 1930.

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3) O Ur-Fascismo, conforme definia Eco, tem essa característica constitutiva: apresenta o absurdo pelo conta-gotas, inocula o veneno do horror em pequenas doses.

4) Em geral, há um recuo. Depois, no entanto, o pensamento bizarro é retomado. E já não choca tanto. Pode haver novo recuo. E uma terceira provocação. Então, a ideia nefasta já está integrada à normalidade.

5) Engenharias de eugenia a partir de pares infanto-juvenis selecionados, testes supostamente científicos (e brutais) em humanos, “soluções finais” por aniquilamento dos “desviantes” (judeus, ciganos, homossexuais, deficientes, comunistas, anarquistas, entre outros). Tudo isso foi introjetado no povo alemão pela estratégia da paciência contaminante, que antes normaliza para, depois, normatizar.

6) Nesta década, o Brasil tem sido exposto todos os dias, um tantinho por vez, à radioatividade mortal do absurdo. É a sacralização do assassino estuprador e torturador Ustra. É a construção de um ethos inventado que qualifica o quilombola e o índio como vagabundos aproveitadores. É a santificação dos elementos que praticam o lawfare com o pretexto de combater a corrupção.

7) Um rapazola associado ao Partido Novo e articulista da Folha de São Paulo retoma agora a tese da construção de um lucrativo mercado de órgãos humanos. Opa, e ele fala de humanos vivos. Fará fortuna especialmente aos corretores. Na onda, seus seguidores distorcem a história, afirmando que a proposta vem de um prêmio Nobel (na verdade, o sujeito recebeu a honraria por uma pesquisa sobre marketing design).

8) No início, tudo parece um absurdo. Mas, neste mundo, tudo se naturaliza. Dona Elisa não tem mais como pagar a faculdade da filha. De noite, cabeça no travesseiro, cogita enfim da possibilidade de vender um rim para custear a educação da jovem.

9) O presidente fascista já propôs que os idosos recebam, enquanto viverem, um complemento de aposentadoria pago por bancos privados. Em contrapartida, a instituição se torna proprietária do imóvel do beneficiário assim que ele morra. É um negócio imobiliário espetacular, para os banqueiros. Diante do estarrecimento geral, os propositores de calaram.

10) Ora, mas com a Previdência suprimida, em poucos anos, os idosos famintos, os sem-remédio, os sans-culottes da melhor idade certamente vão considerar, sim, a hipótese de assinar esse acordo injusto e aviltante. A suprema necessidade é mãe da vergonhosa rendição.

11) A rigor, já vivemos a insanidade naturalizada. Se vivo, Martin Esslin se entregaria à decepção. O Teatro do Absurdo já não se limita aos palcos. É encenado todos os dias, nas ruas, nas praças, nos bares, nos palácios, nas camas, nos teclados. E já são poucos os surpresos, enquanto os indignados estão condenados à extinção.

Por Walter F. Jr., jornalista e conselheiro do Coletivo Democracia Corinthiana (CDC)

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