GILBERTO MARINGONI: Nazismos de um “país normal”

O episódio do burocrata bolsonarista que cita Goebbels aconteceu na mesma semana em que um filhinho de papai fascista, com coluna na Folha de S. Paulo, propagou ser viável liberar a venda de órgãos humanos. Em seu raciocínio, se o sujeito está sem emprego e com fome, não haveria mal algum em passar nos cobres um rim ou um olho, uma vez que é possível viver apenas com o outro.

Do ponto de vista do mercado, ele está corretíssimo. A monetização de tudo, dos corpos e das vontades, é decorrência lógica do valor de troca acima de tudo. A escravidão também se torna aceitável nesse raciocínio. Se minha família está na pior, qual o problema de eu assumir minha condição de bem transacionável em busca do melhor preço? Não a minha força de trabalho, mas eu coração e mente. Nada de novo no front.

A novidade é o nazismo e o tráfico de órgãos se tornarem tema de debate ou de escolhas cotidianas numa sociedade em que temos “apesar dos alarmistas, um país normal”. A frase é de um dos professores do Insper – ateneu ultraliberal da capital paulista – que escrevem na mesma Folha citada acima.

Sim, no país normal tudo é permitido. Não existe pecado e a democracia está aí para garantir o direito de matar por parte de cidadãos de bem.

Bolsonaro não inventou o nazismo e nem deve ter grandes formulações sobre suas relações com o nacionalismo, a percepção teórica de quem seriam seus sujeitos etc. É um nazista intuitivo. Sua grande tarefa tem sido a de liberar na sociedade o vale tudo para quem tem força, poder, dinheiro, pele clara e virilidade garantida no grito.

As tendências bárbaras já existiam na sociedade muito antes do ex-capitão chegar ao poder com o beneplácito do mercado, da grande mídia e da lassidão da centroesquerda que ocupou o governo por pouco mais de uma década.

Bolsonaro será derrotado em não muito tempo. Mas tapar o esgoto por ele aberto dará trabalho adicional. Talvez seja um enfrentamento penoso e decisivo a ser feito para nos constituirmos como Nação, algo muito diverso de “um país normal”.

Por: Gilberto Maringoni.

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