Manutenção de empregos é hoje uma questão estratégica

Assim como no feudalismo, a concentração da riqueza e do poder produz uma perda cada vez mais evidente do interesse da classe dominante em assegurar a capacidade geral de garantia e acesso às condições básicas de vida. Com os novos senhores feudais sendo proprietários das empresas de alta tecnologia, a impessoalidade quebra o princípio da empatia e é refletida de diversas maneiras, principalmente no aumento da distância entre a riqueza e a pobreza.

A consolidação da Desordem Mundial já é sentida no aumento das taxas de suicídio, aumento da ansiedade e do vício em drogas, a redução das taxas de natalidade, a redução das taxas de expectativa de vida e – com exemplos frequentes em diferentes países – na autodestruição psicótica da sociedade por tiroteios ou assassinatos em massa. O recente negacionismo da pandemia é – de certa forma – um viés de confirmação capaz de confortar a sede por mortes em grande escala.

A substituição da posse pelo inquilinato já se faz sentir no estratégico e perverso plano de destruição da política e das estruturas dos estados. Por isso, para que os novos senhores feudais possam manter por muitos anos a capacidade de controlar as sociedades, investem para que as infraestruturas deixem de ser públicas e assim assumam também o controle das estradas, transporte, água, da luz, e – de certo modo – até mesmo do ar que respiramos.

O fechamento de hospitais e escolas e a diminuição dos serviços básicos, são ações pensadas exatamente para tornar a vida do cidadão mais desesperadora e incerta. Este desespero transforma o hoje no único plano possível para a maioria das pessoas. O que dificulta a reflexão sobre quem e como exerce o controle sobre tudo e todos.

Sem o rompimento com os dogmas teóricos, a manutenção do debate “comunismo x capitalismo” nada mais é do que o apego à zona de conforto. Negar ou ignorar a decadência do capitalismo e seguir apostando nos “ensinamentos de Marx” soa ingênuo e, em alguns casos, até arrogante. O neofeudalismo chega para mudar as relações trabalhistas, mas também muda as relações políticas, diplomáticas, comerciais e de consumo.

O encolhimento da classe média tem ocorrido sem resistência. A substituição do homem pelas máquinas é uma realidade. Nesse sentido, a manutenção dos empregos é um assunto estratégico para a sobrevivência das nações. Além disso, o próprio sentido de soberania deixa de existir quando as “regras do usuário” das novas tecnologias são – em grande parte – incompatíveis com as leis e costumes de muitos países.

O neofeudalismo provoca nas pessoas a insegurança e a ansiedade, além de uma sensação avassaladora de catástrofe. Tudo é pensado para que o cidadão se sinta sempre inseguro. Aquilo que o imortal Luiz Alberto Moniz Bandeira chamou de “Desordem Mundial” está vivo nos nossos dias. Quem afirma isso é o nosso convidado, cientista da história constitucional asiática, Egas Moniz Bandeira – filho deste renomado historiador e cientista político que escreveu o livro “A desordem mundial: o espectro da total dominação”.

É fácil concordarmos com a ideia de “Desordem Mundial” quando a preocupação em proteger suas fortunas leva os novos senhores feudais a terem verdadeiro pavor à possibilidade de existirem choques democráticos. Daí a discrepância existente entre as perspectivas de sobrevivência dos miseráveis que lutam para comer e os novos senhores feudais que investem nas estratégias de êxodo e isolamento, entre elas viver no mar, colonizar o espaço ou seja lá o que for preciso para salvar a riqueza e ficar livre dos impostos.

Como veremos neste vídeo, a seguir, o grande embate hoje não reside na dualidade artificialmente forjada da democracia x fascismo (no Brasil, civilização x barbárie).

Embora simpática entre os liberais, essa formulação faz pouco sentido quando vemos que o poder dos oligarcas – financistas, magnatas da mídia e do mercado imobiliário, bilionários do carbono e da tecnologia – é mantido exatamente pela via da desordem e promoção do caos.

O debate que descreve as democracias ameaçadas pelo fascismo crescente desvia a atenção do papel fundamental do capitalismo comunicativo globalmente conectado em exacerbar a raiva e o descontentamento popular. Provocando um distanciamento entre a realidade e aquilo que está em discussão. O que impede, entre outras coisas, que a classe média perceba que trabalha contra ela mesma.

Os temas abordados com o cientista da história constitucional asiática, Egas Moniz Bandeira, são os seguintes:

1 – Chegamos ao ápice da “Desordem Mundial”?

2 – Com as soberanias fragilizadas, podemos dizer que vivemos o neofeudalismo?

3 – A transição da condição do cidadão proprietário para o cidadão inquilino de serviços é uma reinvenção do capitalismo ou o fim dele?

4 – O investimento na produção deu lugar à especulação. Como as sociedades irão conviver com tantos desempregados?

O nosso próximo entrevistado é o líder político Roberto Requião. Ele considera precipitada a ideia de que já estamos no neofeudalismo e irá defender o contraditório, tão importante para o debate político.

Assista ao vídeo da entrevista de Wellington Calasans ao cientista Egas Moniz Bandeira:

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