O caso Marcelo Freixo e as diferentes visões de unidade de PT e PDT

A sexta-feira do dia 15 de maio foi marcada por dois acontecimentos políticos de repercussão ampla. Um deles foi a demissão do Ministro da Saúde Nelson Teich, devido à sua recusa em endossar o uso indiscriminado da cloroquina e o relaxamento do isolamento social defendidos por Bolsonaro. Esse evento em si agrava a crise política do país e merece a consideração devida, mas este texto diz respeito ao outro evento político de relevo daquela sexta-feira: a desistência do deputado Marcelo Freixo (PSOL) de concorrer à prefeitura carioca.

O deputado justificou o seu gesto alegando a recusa de parcela de seu próprio partido em endossar uma aliança com o PT no Rio, e a falta de disposição de outros partidos de esquerda de endossarem a sua candidatura, prejudicando assim a “unidade da esquerda” e consequentemente inviabilizando sua candidatura. Muitas considerações de analistas de esquerda da cena política adotaram uma postura condescendente com o gesto de Freixo, criticando o que seria uma postura sectária da base do PSOL ao recusar se aliarem ao PT. Parte dessas críticas também escondia indiretas ao PDT e a Ciro Gomes por terem, ao contrário do PT recusado a “unidade” em torno de Freixo e em vez disso lançado a candidatura da deputada estadual Delegada Martha Rocha.

Em se tratando de política, um mesmo conceito pode ter diferentes significados para diferentes atores. A situação específica da disputa do Executivo carioca é ilustrativa das diferentes visões que o PT e o PDT têm a respeito do que significa “unidade”. Para o PT, a defesa da unidade está condicionada a dois fatores: a defesa incondicional do legado lulista, e a condução do processo pelo PT. A defesa do lulismo implica reduzir quaisquer críticas aos 13 anos de governo petista como “antipetismo”. E qualquer eventual apoio do PT a outra força política se dá pelo reconhecimento tácito dessas duas premissas, e ainda assim esse apoio está sujeito à reavaliação de acordo com a conveniência da cúpula petista[1]. Se um eventual apoio da cúpula petista a outro candidato levar à cooptação de lideranças que sempre se puderam na oposição à esquerda dos governos petistas, melhor ainda. Isso tudo em meio ao cenário de forte prevalência do antipetismo em amplas camadas da população, mensurável tanto pelo desempenho eleitoral de 2018 quanto por pesquisas de opinião mais recentes. O resultado disso é um crescente distanciamento das forças políticas a fazer aliança com o PT, culminando com o crescente isolamento político da legenda.

Por outro lado, para o PDT a construção da unidade passa necessariamente por escapar da armadilha do antipetismo e da polarização fácil PT x Bolsonaro, que somente beneficia aos próprios. Dada a prevalência do antipetismo e sua instrumentalização por Bolsonaro para segurar o que lhe resta de apoio, qualquer frente ampla com a presença do PT na prática acaba se transformando numa frente estreita. O resultado prático é que o PDT vem sendo bem-sucedido em articular uma frente de oposição com partidos de centro-esquerda como PSB, PV e REDE, e em ampliar o diálogo com outras forças de centro como o DEM (que cada vez mais assume o papel de fiador da governabilidade que era do PMDB), levando a vários acordos de aliança mútuos com esses partidos nas principais cidades do país para 2020. Soma-se a isso a postura proativa do PDT na oposição ao governo Bolsonaro, manifesta por meio de várias ações encaminhadas ao STF pelo partido para denunciar e barrar inciativas do governo Bolsonaro[2][3][4][5], inclusive assinando pedidos de impeachment[6], em contraponto à aparente inoperância do PT em iniciativas de oposição efetiva. Em resumo, para o PDT a presença do PT em uma frente não é imprescindível na oposição a Bolsonaro, uma vez que essa legenda acaba por alienar setores sociais que se opõem a Bolsonaro mas não necessariamente são de esquerda.

Esse diagnóstico também tem eco dentro de setores do PSOL que disputam com Freixo a linha política do partido acerca da relação com o PT. Freixo disputava internamente a candidatura à prefeito com o deputado federal David Miranda e o vereador Renato Cinco. O primeiro questionou “a quem interessa o apoio do Lula no Rio? Acabar com o PSOL”, porque “Lula tem alta rejeição aqui”[7], mas também disse que “queremos uma aliança ampla, que inclua o PT, mas que isso não signifique uma adesão. Defendemos o PSOL com perfil próprio e independente”[8]. Já o vereador criticou as tentativas de alianças de Freixo sob a ótica que “PT e PCdoB são partidos que estiveram comprometidos com as piores gestões da história do Rio de Janeiro, no estado e no município” e que “a população não vai esquecer disso na hora de votar”, e ainda que em virtude desse histórico a insistência da esquerda em se aliar com o PT “pode levar a mais uma decepção da população e ao surgimento de uma direita ainda mais forte que a atual”[9].

Fora do Rio de Janeiro, o professor de Economia da UFSC Nildo Ouriques, que disputou a candidatura do partido à presidência em 2018 contra Guilherme Boulos, também tece críticas à estratégia do PSOL em se aproximar a qualquer custo do PT. Para o professor, a incapacidade do PSOL de adotar uma linha política coerente e um diagnóstico correto das origens da crise brasileira faz que com que parte de sua cúpula adote uma concepção parlamentar de política, que acaba por reduzir a política à disputa eleitoral. Assim, o objetivo do PSOL não mais seria denunciar o sistema petucano e buscar superar o petismo pela esquerda, mas sim conquistar efêmeras e incertas vitórias eleitorais a partir da disputa da base petista[10]. O fracasso dessa estratégia pode ser medido pelo pífio desempenho eleitoral de Boulos em 2018 (0,58% dos votos) – o pior desempenho eleitoral da história do PSOL pelo candidato que encarnaria, nas palavras do próprio Nildo, um “prolongamento do petismo”[11].

A estratégia de Freixo de acreditar que teria a ganhar eleitoralmente com uma aliança com o PT em uma cidade que deu 58,3% de votos para Bolsonaro em 2018 apenas no 1º turno, e na qual o próprio candidato do PT perdeu para Ciro Gomes, não guarda coerência com o fato de que o próprio Freixo não precisou do PT para ir ao 2º turno na eleição de 2016. Aliás, como é bom recordar, naquela eleição Freixo disputou cabeça a cabeça a vaga da esquerda com Jandira Feghali – candidata da aliança PCdoB/PT – durante quase todo o 1º turno, conforme as pesquisas da época[12][13]. Jandira chegou a receber apoio em palanque dos ex-presidentes Lula e Dilma, porém o peso do antipetismo fez que acabasse a eleição com apenas 3,34% dos votos, e seu partido não elegesse nenhum vereador na Câmara, enquanto Freixo foi ao 2º turno e fez seis vereadores para seu partido.

Se o objetivo de Freixo era tentar constituir uma frente unitária de esquerda no Rio, deveria em primeiro lugar ter proposto um diálogo com outros partidos de esquerda sem qualquer nome pré-colocado, em vez de ter colocado sua candidatura desde o início como “supostamente natural” e simplesmente exigir que os outros partidos a endossassem[14]. Por que será que partidos como o PDT e PSB – que formaram uma frente de apoio mútuo nas eleições[15] e vêm se afastando cada vez mais do PT[16] – não enxergaram a candidatura Freixo como “natural” para “derrotar o fascismo”? E se esses partidos legitimamente enxergarem Martha Rocha, e não Freixo, como a candidata da esquerda que realmente poderia fazer frente a Crivella e Paes, uma vez que ela chegou a aparecer em pesquisa de outubro de 2019 em 2º lugar para a prefeitura e com 20% menos de rejeição que o nome de Freixo?[17] Ou será também que esses partidos também não poderiam enxergar que uma candidatura Freixo, associada aos aspectos mais deletérios do identitarismo de seu partido, estaria fadada a se tornar escada para a vitória da direita, como bem apontou Ricardo Capelli?[18]

O fato é que para a esquerda ter condições de disputar o poder político e lutar contra o fascismo, é necessário não apenas construir um novo projeto nacional que busque superar moral e politicamente as deficiências e limitações do petucanismo, mas também busque um diálogo político amplo com a sociedade brasileira – e não apenas com a própria esquerda. A esquerda precisa ter um projeto mais ambicioso para apresentar à sociedade brasileira do que uma simples volta ao passado de um “Brasil feliz de novo” que se sustentava em um superciclo das commodities não irá se repetir mais.

De maneira mais imediata, para rebater a ameaça fascista que paira sobre o país será necessário dialogar com o centro democrático, sociais-democratas, setores liberais e, sim, até mesmo com arrependidos do bolsonarismo. De nada adianta parte da esquerda bradar “unidade” e a única coisa que oferecer a esses setores é a denúncia acusatória de terem endossado críticas ao PT no passado[19], como se tivessem que fazer uma expiação de culpa pelas posições do passado antes de subirem no barco da “frente ampla” a ser conduzido pelo PT. Hoje o antipetismo continua sendo obstáculo concreto para uma aglutinação de forças a fim de superar o bolsonarismo, conforme atestam quaisquer pesquisas de opinião[20][21][22]. Didaticamente, é necessário mostrar para o povo que rejeitar o bolsonarismo não é sinônimo de ser petista. Se não tivermos a estratégia de construir uma frente que evite cair na armadilha de defender as contradições do lulismo, podemos acabar mais uma vez servindo de escada para a eleição da extrema-direita (seja Moro, Mourão ou Bolsonaro) em 2022.

 

Por Felipe Augusto Ferreira, graduado em Relações Internacionais pela USP, funcionário público, secretário-geral da Juventude Socialista Municipal de São Paulo, e membro da Executiva Municipal do PDT de São Paulo

[1] https://brpolitico.com.br/noticias/prioridade-de-lula-e-benedita-nao-freixo/

[2] https://blogs.ne10.uol.com.br/jamildo/2020/04/23/deputados-do-pdt-pedem-ao-tcu-suspensao-do-cronograma-do-enem/

[3]https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/04/28/interna_politica,849115/pdt-entra-com-acao-no-stf-contra-posse-de-ramagem-na-pf.shtml

[4] https://brpolitico.com.br/noticias/pdt-entra-com-acao-no-stf-contra-mp-do-e-dai/

[5] https://www.poder360.com.br/justica/pdt-aciona-stf-para-anular-portaria-que-revogou-regras-sobre-o-controle-de-armas/

[6] https://congressoemfoco.uol.com.br/legislativo/pdt-vai-protocolar-pedido-de-impeachment-contra-bolsonaro/

[7] https://cultura.estadao.com.br/blogs/direto-da-fonte/na-sapucai-david-miranda-avisa-que-vai-brigar-pela-prefeitura-do-rio/

[8] https://extra.globo.com/noticias/extra-extra/em-resposta-freixo-david-miranda-diz-que-quer-estimular-debate-no-psol-24299493.html

[9] https://veja.abril.com.br/politica/vereador-do-psol-critica-freixo-e-lanca-pre-candidatura-a-prefeito-do-rio/

[10] http://nildouriques.blogspot.com/2019/06/o-psol-navega-sem-bussola.html

[11] https://www.diariodocentrodomundo.com.br/boulos-nao-e-o-nome-ideal-porque-seu-discurso-e-prolongamento-do-petismo-diz-pre-candidato-do-psol-a-presidencia/?fbclid=IwAR1g_ebAz_7GUwYBCXIBzH0M8XLiI4C0yIGCES_RIFoIyDOKwkAu5ERO54U

[12] https://www1.folha.uol.com.br/poder/eleicoes-2016/2016/10/1818863-freixo-assume-2-lugar-na-vespera-da-eleicao-no-rio-crivella-e-lider.shtml

[13] http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/eleicoes/2016/noticia/2016/10/ibope-votos-validos-crivella-tem-38-freixo-14-e-pedro-paulo-11.html

[14] https://oglobo.globo.com/brasil/a-esquerda-precisa-ter-maturidade-diz-freixo-sobre-desistencia-de-candidatura-no-rio-24430354

[15] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/psb-e-pdt-formam-alianca-para-eleicoes-e-lancam-marcio-franca-em-sao-paulo.shtml

[16] https://portaldisparada.com.br/politica-e-poder/psb-pdt-se-afastam-do-pt/

[17] https://www.ocafezinho.com/2019/10/16/paes-freixo-e-martha-lideram-pesquisa-no-rio/?fbclid=IwAR3AUlZDh0Jjp2kDJSV2PkmAat-VURup6dq9eOovcyxbs_nxwY14wDaDENk

[18] https://portaldisparada.com.br/politica-e-poder/ricardo-cappelli-parabens-freixo/

[19] https://portaldisparada.com.br/politica-e-poder/polemica-pt-contra-felipe-neto/

[20] https://static.poder360.com.br/2020/05/pesquisa-xp-4.mai_.2020.pdf

[21] https://valor.globo.com/politica/noticia/2019/12/17/segmento-evangelico-aprofunda-o-antipetismo.ghtml

[22] https://www.jota.info/paywall?redirect_to=//www.jota.info/dados/aprovacao-dos-presidentes/antipetismo-aumenta-apoio-a-bolsonaro-em-7-vezes-mostra-pesquisa-jota-20112019

Marcelo Freixo

2 Comentários

  • Parabéns aos próceres desse PDT por lhe autoproclamar e auferir liderança junto à outras agremiações de esquerda, como REDE (!!!), PV (!!!) e este atual PSB (!!!), visando à unidade das forças de esquerdas e sendo um, talvez o único, pelo visto, que bem compreende o atual momento político contra o bolssonarismo, o qual se encontra cravado em nossas mentes e gargantas.
    Parabéns ao atual PDT que não conta em seus quadros com um único petebista/pedetista histórico, nem mesmo com alguns dos herdeiros de sangue de Brizola.
    Parebéns ao PDT em insistir em tal divisão das forças progressistas elencando uma série de malfeitos e absurdos ideológicos e de “caráter” a PT e Psol, tornando, assim, qualquer possibilidade de entendimento fadada ao insucesso..
    Parabéns ao PDT que insiste nesta divisão, a qual ajudou a empossar Jair Bolssonaro como presidente, a partir da ridícula fuga de seu atual líder quando daquele nefasto segundo turno.
    Parabéns ao PDT em ter-se tornado apenas um partido hospedeiro desta figura controversa e nada politicamente firme, chamada Ciro Gomes.
    Parabéns a este PDT que de Brizola e Darcy, entre outros, não guarda mais nada, apenas e tão-somente bobagens políticas destes que hoje lhe tentam conferir caráter sério e de grandiosidade política, à começar por seu presidente Carlos Lupi.
    Naturalmente, meus caros, Brizola deve estar se revirando em seu túmulo de São Borja com tanta idiotice política patrocinada por seu ex e cada vez mais longínquo PDT.

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  • Parabéns aos próceres do PT por proclamarem liderança de Lula junto a Haddad (!!!) para a reconstrução (!!!) do Brasil (Plano Lula!!!), visando à unidade das forças de esquerda e sendo um, talvez o único, pelo visto, que bem compreende o atual momento político contra o bolsonarismo.
    Parabéns ao atual PT que não conta em seus quadros com um único petista fiel às origens do partido, nem mesmo aos princípios básicos que o fundaram.
    Parabéns ao PT em insistir na divisão das forças progressistas elencando uma série de argumentos meramente ideológicos (sem base empírica) e de “caráter” contra Ciro Gomes, Marina Silva, Alessandro Molon, Randolfe Rodrigues ente outras lideranças da centro-esquerda, tornando, assim, qualquer possibilidade de entendimento fadada ao insucesso.
    Parabéns ao PT que insiste nesta divisão, a qual ajudou a empossar Bolsonaro como presidente, a partir da ridícula fraude eleitoral de seu líder (Mula) quando daquela nefasta candidatura fake que ficou conhecida como “chapa tríplex”.
    Parabéns ao PT em ter-se tornado apenas um partido hospedeiro de figuras controversas e nada politicamente firmes, como Jilmar Tatto, Antônio Palocci, Gleisi Hoffmann, Paulo Pimenta e tantos outros canalhas.
    Parabéns a este PT que dos trabalhadores do ABC paulista e dos devotados à Teologia da Libertação não guarda mais nada, apenas e tão-somente bobagens políticas destes que hoje lhe tentam conferir caráter sério e de grandiosidade política, a começar por sua eterna eminência parda, Mula da Silva.
    Naturalmente, meus caros, Chico de Oliveira, Antônio Cândido, Plínio de Arruda Sampaio e Apolônio de Carvalho devem se revirar em seus túmulos com tanta idiotice política patrocinada por seu ex e cada vez mais longínquo PT.

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