O foco da oposição não deve ser a liberdade de Lula

A eleição de 2018 acabou e parece que ainda não compreendemos muito bem o que aconteceu, especialmente se olharmos para a cúpula petista. A recusa em entender os dados da realidade fizeram o partido cometer o maior erro de estratégia da história política recente brasileira (há quem diga que não foi erro e sim um movimento estratégico prevendo a derrota, mas não seguirei por este caminho). Lula perdeu a eleição no dia em que sua condenação, no caso do triplex, foi confirmada pelo TRF-4. Ali ficava claro que não havia a menor possibilidade dele ser candidato por conta da Lei da Ficha Limpa. A partir de então, se fazia necessário um jogo estratégico de inteligência para reverter todo o quadro negativo que se aproximava, inclusive para manter a liberdade de Lula, mas isso jamais aconteceu.

A popularidade de Lula nas pesquisas parece ter cegado o PT durante todo o processo pré-eleitoral e eleitoral, levando o partido a achar que seria possível obter uma vitória política robusta contra as forças que derrubaram Dilma em 2016. Entretanto, a realidade era um pouco mais complexa, já que as pesquisas que colocavam Lula na liderança também o apontavam com o maior índice de rejeição entre todos os candidatos. Ou seja, a estratégia eleitoral do PT se baseava em uma leitura pela metade das pesquisas. É muito difícil conjecturar como seria a eleição com Lula no páreo e só podemos tentar esboçar uma reflexão olhando atentamente para o cenário que realmente tivemos no segundo turno. É daí que temos que tirar reflexões importantes para o futuro.

O segundo turno das eleições, em nosso sistema presidencialista, sempre foi dominado por uma disputa baseada na rejeição, onde quem tem a menor rejeição sai vitorioso. No primeiro turno, o voto é dado (quase sempre) ao candidato preferido, enquanto que no segundo turno se opta por aquele candidato que consideramos menos pior dentre as duas opções restantes. O PT sempre explorou isso muito bem para ganhar eleições. Pelo menos até 2018. Em 2018, o PT acabou transformando todo o processo eleitoral – especialmente o segundo turno – em um grande referendo nacional sobre o próprio partido e sobre Lula, fato que ficou visível com sua estratégia de transferência de votos para Haddad. O adversário no segundo turno foi escolhido a dedo justamente porque era aquele contra quem Haddad teria mais chances de vencer. Por isso não se via nenhum sinal de enfrentamento do PT contra Bolsonaro na TV ou nas participações de Haddad nos debates. Se no primeiro turno havia um leque amplo de opções, o cenário político do segundo turno se transformou em uma disputa de rejeições entre Bolsonaro e PT. O resultado todos nós sabemos. Olhando para esse quadro, podemos obter pistas para um melhor entendimento do jogo político da condenação de Lula e para entender por que atrelar a oposição à pauta “Lula livre” se constitui como um grande erro.

É correto dizer que as duas condenações de Lula foram políticas? Se analisarmos a situação deixando de lado as paixões podemos concluir que sim. Isso não é negado aqui. Parto do pressuposto de que a acusação falhou em mostrar o nexo causal entre o triplex e as obras no sítio em Atibaia com os desvios da Petrobras. Aí reside a fragilidade nos dois processos que condenaram Lula. Entretanto, temos que aprofundar um pouco mais o caráter político envolvendo as duas condenações e sua prisão para melhorar a nossa compreensão da situação política atual, assim como para entendermos as razões de existirem prioridades maiores que a liberdade de Lula no momento atual. Esse aprofundamento exige mencionar falhas cruciais na estratégia política do petismo, especialmente nos últimos anos.

A condenação de Lula foi sendo construída aos poucos, pelo menos desde 2013, com o judiciário dando um passo de cada vez, sempre aliado à mídia. Esse processo fez um trabalho meticuloso de desconstrução da imagem de Lula, tentando fixar no senso comum da população a imagem de que a culpa pela estagnação econômica, que já era sentida na época, era da “roubalheira do PT”. A queda de Dilma foi uma vitória desse trabalho e o seu ponto mais alto foi a prisão de Lula, o símbolo máximo do petismo no país. Dentro desse quadro, podemos notar duas falhas estratégicas centrais no petismo. A primeira se deu no momento em o PT decide abraçar, de forma integral e sem muitos constrangimentos, a agenda econômica dos bancos e das elites no segundo mandato de Dilma. O PT nunca teve grandes preocupações em governar junto com os banqueiros e as elites desde que assumiu a presidência, mas no momento em que a delimitação política era essencial para se preservar politicamente, para deixar clara a agenda regressiva e impopular do discurso antipetista da época, Dilma se antecipou e aplicou uma parte considerável dessa agenda, jogando fora qualquer possibilidade de diferenciação, ao mesmo tempo que sustentava um radicalismo puramente retórico. Essa foi a gota d’água para que o povo abandonasse de vez Dilma, o que fez com que os movimentos da direita ganhassem a dianteira nas ruas no início de seu segundo mandato. A segunda falha foi em 2018, quando Lula e o PT não compreenderam que precisavam se esforçar para virar o jogo no quadro político e na discussão econômica para preservarem o capital político que conquistaram e tentar recuperar o que tinha sido perdido. Era necessário um exaustivo trabalho de politização da sociedade para que o quadro, que era favorável à direita, fosse revertido. Ao invés de apostar na politização, Lula e o PT seguiram pelo caminho oposto. Confiando na generosidade e na memória do povo, se usaram de uma tática profundamente despolitizadora, apostando em um messianismo vazio, fugindo da tarefa de aprofundar uma discussão de agendas para o país. A polarização, que deveria ser de projetos, se transformou em uma polarização em torno de figuras. A partir desse momento, o jogo foi facilitado para as forças do atraso, que só precisavam se contrapor ao PT e a Lula para saírem vitoriosos no jogo político.

O que venceu o debate político no Brasil não foi um projeto, mas um aglomerado de interesses particulares unidos somente por uma repulsa ao PT. Esse é o elemento central para entender a necessidade de uma mudança de estratégia. Para o PT, significa entender que há uma série de elementos a serem considerados e atitudes a serem tomadas antes de tentar alçar o “Lula livre” como elemento unificador da oposição, como parece ser a intenção do partido. A agenda econômica de Bolsonaro veio escondida por trás de todo o circo montado na campanha de 2018. A agenda ultraliberal, capitaneada Paulo Guedes, só passou pelo crivo eleitoral porque não foi obrigada a ser esclarecida para o eleitorado brasileiro. O foco excessivo em Lula impediu que fosse feita uma discussão séria de projetos, exigindo que Bolsonaro tivesse que se explicar sobre o que defende enquanto agenda econômica. E é isso que é necessário entender hoje sobre existirem pautas imediatas que são mais importantes que a liberdade de Lula. É necessário um trabalho, por parte da oposição, pedagógico, insistente e amplo com o intuito de tentar derrubar o mito criado e sustentado por Bolsonaro em sua contraposição ao PT, que force o deslocamento do debate para a agenda econômica, obrigando que o governo defenda as suas pautas impopulares com clareza. É fazer o que não foi feito no segundo turno de 2018. Unificar o “Lula livre” como pauta central da oposição é facilitar a vida do governo e insistir em uma tática que só o fortalece. Afinal, é muito mais fácil convencer o povo a abrir mão dos seus direitos de usando da retórica segura do antipetismo.

A virada política necessária para que o consórcio reacionário que tomou o Brasil perca força é justamente trabalhar para que sua popularidade se esvazie rápido e sua agenda seja compreendida pela parcela da população não fanatizada que votou em Bolsonaro. Isso exige um esforço muito grande para trazer para o lado progressista uma grande massa do eleitorado que não concorda com essa agenda. Só depois disso que a liberdade de Lula vira uma possibilidade real e uma pauta agregadora. Primeiro devemos nos ocupar das pautas do debate econômico atual para tentar ampliar o alcance da oposição dentro do povo. Colocar Lula na frente do debate econômico impede que uma grande parcela da população, a que não se sente representada por Lula, simplesmente tampe os ouvidos para o que temos a dizer.

A compreensão apresentada aqui parece ser cada vez mais evidente dentro da oposição, que já se mostra dividida justamente por entender que há prioridades mais urgentes no cenário político atual e também por entender que há razões que vão além das notícias falsas para que Bolsonaro tenha sido eleito. O desafio necessário hoje é justamente virar o jogo político dentro do debate econômico, provocando rupturas na relação do governo com o povo. Manter uma posição de enfrentamento vazio, sem politizar o cenário atual, é trabalhar a favor do governo. Vendo os primeiros passos do governo percebemos que ele, por si só, tem capacidade de se implodir, mas temos que fazer o nosso trabalho. O principal trabalho que temos é impedir, a todo custo, que o governo passe batido por essas crises e se constitua como um movimento político coeso e ideológico para o futuro, se constituindo organicamente em um partido ou algo do tipo. Por isso é necessário compreender quais as nossas prioridades no momento atual para que a oposição não se feche em um gueto que fica cada vez menor, afundando o Brasil em uma permanente crise e polarização política vazia, que se sustenta mais em ódios e personalismo do que em projetos distintos.

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