O Junho de 2013 de Jair Bolsonaro

Por que o brasileiro não se revolta como ocorre no Chile, Equador e Barcelona? Ora, o Brasil se revoltou em junho de 2013, no confronto entre golpe x resistência em 2016 e no bolsonarismo x democracia em 2018. Para entender como tudo chegou onde está, voltemos ao mal compreendido 2013…

Sem dúvidas que aquele movimento teve manipulação, mas havia muito espaço para disputar a agenda e a narrativa. Naquela época, o governo dito de esquerda preferiu agir na contramão das ruas. A juventude pedia melhores serviços públicos, hospitais e escolas padrão FIFA e passe livre estudantil. Em vezes de abraçar essa agenda e atender à pauta progressista que havia no meio daquele caldo, Dilma agiu na contramão: desmobilizou as ruas e beneficiou os banqueiros, voltando a subir os juros e adotando pacotes de arrocho neoliberal por acreditar que contentar a elite financeira seria o suficiente para apaziguar o país. Isso fortaleceu ideologicamente o reacionarismo que vinha se gestando no país e enfraqueceu as forças progressistas.

Pois bem, a decisão errada do governo Dilma foi fatal. A mídia começou a pautar os rescaldos de 2013 e apareceram os patos amarelos, que nada mais eram do que as pessoas que perderam a esperança no governo petista. Muitos dos que haviam votado em Lula e Dilma tornaram-se ferozes antipetistas. Em vezes de o governo construir sua própria pauta e narrativa, deixou a mídia pautar o discurso de que a esquerda era corrupta sem questionar a farsa do lavajatismo.

Aí vieram as eleições de 2014 e para vencer, Dilma prometeu uma guinada à esquerda. Ganhou mas fez o contrário: aprofundou ainda mais a agenda neoliberal e os cortes nos investimentos públicos. O povo sentiu no bolso, deixou definitivamente apoiar o governo e veio a escalada golpista.

No começo, as marchas golpistas e as contra o golpe eram do mesmo tamanho, mas a mídia só dava visibilidade a um dos lados. A base progressista foi murchando e o golpismo foi crescendo com a ajuda da incompetência do governo, que não conseguia formular uma estratégia de resistência. Aquela maioria que elegeu Lula em 2002 e 2006 e Dilma em 2010 e 2014 começava a virar minoria. O resultado foi o golpe de Temer, que reuniu o velho PMDB e o PSDB, sedentos por nichos de poder, mas que se desgastaram rapidamente com o governo mais impopular da História.

O cidadão comum encontrava-se insatisfeito com os golpistas e com o PT por não terem cumprido o prometido e ainda por ambos terem abraçado a pecha de corruptos. Aí, as esperanças só poderiam ser depositadas em uma alternativa fora da suposta “velha política”. Huck ainda não tinha musculatura e desistiu. Barbosa calculou que não era daria conta e saiu. Marina, que só aparecia nas eleições, murchou. Ciro ficou isolado, pois o PT priorizou manter seu hegemonismo em vez de ganhar a eleição.

A única novidade que sobrou foi Bolsonaro, que jamais decolaria se não houvesse uma empurrãozinho, que ocorreu na forma do #EleNão. Esse marketing foi tão genial que hoje dá até pra especular se foi realmente um slogan espontâneo ou se fez parte da estratégia de Steve Bannon. Ora, negar alguma coisa é dar publicidade a ela, ainda mais quando transformaram o nome Bolsonaro no impronunciável Lord Valdemort.

Aí, o último cartucho da resistência foi queimado, novamente com uma pauta negativa. Começou com #NãoÉPorVinteCentavos, depois virou #NãoVaiTerGolpe e terminou com #EleNão. Três pautas negativas que foram derrotadas por quem quis reduzir o movimento aos 20 centavos, a dar um golpe parlamentar e a eleger o homem que não poderia ser mencionado. A gordura foi queimada, a base social foi diluída e as ruas foram trocadas pela hashtags.

Há hoje um clima de ressaca na população, que está perdendo direitos mas não reage porque ainda não sentiu os efeitos no curto prazo. Mas há também uma crise de representatividade. Parte da oposição não está preocupada com o desemprego, o avanço da pobreza, os desastres ambientais e tudo o que está acontecendo com os desmandos de Bolsonaro, mas pensa apenas em libertar Lula. Ora, sem derrotar Bolsonaro e sem mudar a correlação de forças na sociedade, Lula não será libertado. Sem perceber isso, corre-se o risco de se repetir junho de 2013: ter pessoas nas ruas contra Bolsonaro mas não haver um direcionamento progressista para as pautas.

Assim, se ocorrer uma explosão de revoltas como há no Chile, logo teremos um Huck ou um Doria surgindo como porta-voz da insatisfação e tudo mudará para ficar como está: cai Bolsonaro mas o neoliberalismo fica. Cura-se o sintoma mas a doença permanece.

A saída para a crise só tem um jeito: deixar de lado a agenda neoliberal praticada por Collor, FHC, Lula nos tempos de Palocci, Dilma com Levi, Temer com Meirelles e Bolsonaro com Guedes. A saída é deixar pra trás o neoliberalismo e adotar um Projeto Nacional de Desenvolvimento.

Por Thomas de Toledo

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