O negacionismo estrutural

Christian Lynch – O negacionismo estrutural, que vai além da saúde, será a herança mais nefasta de Bolsonaro. Entronizou-se a mentira como técnica de governo para, por meio de uma realidade paralela, encobrir para os acólitos a sua incompetência, também estrutural. Vejam, por exemplo, como o governo prefere sempre “remediar” a “prevenir” tudo o que ocorre de mal. Prevenir” significa reconhecer a importância do fator humano no mal social. É sintomática dessa gestão reacionária voltar à noção de apenas “remediar” os males, típica do período anterior à democracia, quando eles eram primariamente atribuídos à natureza e/ou à vontade de Deus. Então, o negacionismo é geral, porque nega a própria racionalidade moderna.

É esse negacionismo estrutural tipicamente reacionário, que nega a vontade humana como fator produtor dos males humanos, não pode sobreviver sem tentar desmoralizar e atacar como suas inimigas a imprensa, a ciência e a academia. Todas elas são instâncias responsáveis, na modernidade, pela geração de consensos sociais sobre o que seja a verdade. O propósito reacionário dos atuais donos do poder não pode conviver com as instâncias produtoras de consensos sobre a verdade que produzem progresso, e por isso se encarregam de criar pela produção de mentiras uma realidade paralela onde possa viver com seus apoiadores.

As técnicas de propaganda empregadas pelos radicais reacionários e neofascistas contra as instâncias modernas, produtoras de consenso largo sobre a verdade, são antigas. Do púlpito dos padres ultramontanos, o reacionarismo clássico prometia aos seus adversários o mármore do inferno. O fascismo soube com mestria usar o cinema e o rádio de forma pioneira para difundir seu próprio negacionismo e, tempos de crise democrática de massas. Da mesma forma como o atual fascismo e seus simpatizantes difundem suas mentiras, sempre pela mesma violência, por meio das redes sociais.

A base da democracia é a ideia de progresso baseado no equilíbrio instável entre autoridade, liberdade e igualdade. Esse equilíbrio decorre de um consenso amplo sobre o que seja a verdade, dentro do qual seja possível divergir. A mentira afirmada de forma violenta contra as instâncias geradoras de consenso visa a destruir a busca racional da verdade como fundamento da vida coletiva, tornando impossível o diálogo entre os diferentes.

O negacionismo estrutural reacionário se baseia em uma concepção distinta de público. Na modernidade liberal, ela é orientada pela noção se uma sociedade civil mais ou menos homogênea, com objetivos comuns, que divergem quanto aos meios e se manifesta na forma de uma opinião pública. O negacionismo reacionário nega essa homogeneidade e polariza, orientado por uma concepção de espaço público baseada na oposição entre amigo e inimigo. Suas táticas políticas não são aquelas do argumento entre adversários em paz, mas táticas de guerra entre inimigos, que pressupõe suspensão da normalidade e recurso ao segredo e à guerrilha até o extermínio.

A mentira negacionista que está na base do reacionarismo radical e do neofascismo são o veneno corrosivo da vida democrática. Uma vez mantidas as condições básicas de funcionamento do sistema democrático, o fascismo bolsonarista cairá. Mas ele continuará por aí, bem como as suas técnicas reacionárias. A democracia, baseada na ideia de progresso, precisa também se reciclar para adquirir anticorpos contra o vírus da mentira sistêmica.

Por Christian Edward Cyril Lynch

O negacionismo estrutural. bolsonaro

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