O que faltou para Leonel Brizola?

A Revolução Brasileira é a continuidade e a ruptura com a Revolução de 1930. De todos os herdeiros de Getúlio Vargas, talvez quem tenha chegado mais longe foi Leonel Brizola, no icônico episódio da Campanha da Legalidade. Contudo, a Revolução Prometida nos foi roubada por traidores fardados que entregaram o país para o império estadunidense. Por isso, todo militante trabalhista tem de se perguntar a cada instante – e essa pergunta, cuja resposta só pode emergir da prática, tem de ser uma obsessão de todos nós – uma questão fundamental: o que faltou para Brizola?

Certa vez, Brizola nos contou que a história é como uma corda de sisal. Esse tipo de corda é constituída por vários fios curtos, muito menores do que o comprimento da corda. No entanto, entrelaçados, os fios formam um contínuo. Esses fios são nossas vidas. A história não é descontínua: o que somos hoje, em grande medida é o que fomos no passado e o que seremos no futuro.

Brizola é sem dúvida alguma um dos maiores patrimônios do Trabalhismo e, portanto, do Brasil. Mas, como sabemos desde os tempos de Lenin, a organização da classe trabalhadora não pode prescindir de um método central para sua contínua aprimoração: a autocrítica.  O esquerdismo e o radicalismo retórico foram objetos de crítica do próprio caudilho. Realizar o balanço do passado e desenhar a tarefa dos Trabalhadores do Brasil para o futuro passa por absorver as devidas lições de nossa experiência coletiva. Do contrário, estamos profanando a memória presente e viva de nossos heróis do passado.

A autocrítica não possui a função expiatória de uma confissão de pecado, culpa ou qualquer outra categoria moralista. Tampouco cumpre papel de difamar as figuras criticadas ou destruir seu legado político. Muito pelo contrário. Como afirmamos a respeito dos erros de Prestes nos anos 30, a verdadeira maneira de se manter acesa a chama da memória de uma figura política não é pela ossificação de uma imagem abstrata. É pela manutenção do sentido do seu movimento, o que não se faz sem a autocrítica. Atuar na prática implica uma constante correção de rumos a partir de resultados das ações. O conhecimento dos Trabalhadores do Brasil por si mesmos e sua ação coletiva dependem desse aprendizado.

Claro, a autocrítica é uma tarefa coletiva de toda a classe por meio do seu órgão de autoconhecimento, o Partido. Esse pequeno texto é somente uma  modesta contribuição. O episódio da traição das Forças Armadas contra o Brasil em 1964 é muito complexo e não faremos jus a ele aqui. Especificamente a respeito da atuação naquele período do segundo maior representante do Trabalhismo (depois de Vargas), temos a contribuição de dois quadros do trabalhismo: Alberto Guerreiro Ramos e Moniz Bandeira.

Em busca da particularidade brasileira

No “Mito e Verdade da Revolução Brasileira”, Guerreiro expôs como o fetiche das barricadas havia se convertido num empecilho para a Revolução Brasileira ainda nos anos 60. Ele denunciava como “rinocentirização” a hegemonia esquerdista que havia tomado conta do movimento popular, principalmente nos estratos urbanos. Essa rinocentirização não se separava da importação de ideologias estrangeiras, sem adaptação para a realidade nacional. Ou seja, ao não reconhecer a particularidade da questão nacional brasileira, a atuação de parte da esquerda do país se mostrava completamente equivocada naquele episódio. Estranhamento colonial em sentido estrito. 

E qual é essa particularidade? O historiador argentino Tulio Halperin Donghi, ao comentar sobre o processo de emancipação política do Brasil no século XIX, já havia notado que a nossa elite, ainda nos tempos da Colônia, possuía uma maior independência em relação à metrópole se comparada a suas contrapartes dos demais países latino-americanos. Sabiam nossas elites – e isso aparece nos fundadores da Nação, como em José Bonifácio – que essa sua força relativa derivava do tamanho do país, da riqueza e magnitude de seu território, além da população relativamente grande. De modo similar, Ignácio Rangel ressaltava que o primeiro pacto de poder nacional entre o capital comercial recentemente internalizado pela Independência e os senhores de escravos tinha como esteio justamente esse poder do Brasil oriundo de seu peso.  Nossos irmãos latino-americanos sempre olharam com certa inveja a manutenção da integridade territorial do Brasil no processo da Independência – e até mesmo sua expansão, com o anexação do Acre, por exemplo.

Lenin chamou a atenção para o poder de ditadura de classe que o Estado possui. Apesar do caudilho russo não morrer de amores pelo Estado, ele havia compreendido que a tomada deste órgão – por excelência capitalista –  é essencial  para mudar os fundamentos da reprodução capitalista. Essa mudança não é um ponto no tempo e sim um salto qualitativo que se desenvolve como um processo no tempo. Salto este que requer as próprias formas capitalistas, como o caudilho argumenta no “Esquerdismo…”.

No Brasil, além do Estado, temos outro ativo que a história nos legou, de fundamental importância para a luta da classe trabalhadora: a integridade territorial de nosso gigantesco país. É impensável um projeto anti-imperialista sério no Brasil que não leve em consideração o caráter absolutamente estratégico da unidade territorial brasileira.

A pedra angular desse gigantesco território era capacidade única de composições políticas da elite brasileira. Guerreiro Ramos chamou de “diretório político” esse complexo condomínio de poder que congregava os interesses contraditórios, produzindo uma direção para o país em meio a e por meio de seus conflitos. Se compararmos a história brasileira com a de qualquer outro grande império terceiro mundista, fica ainda mais clara essa singularidade. Basta ver o colapso do Império Turco-Otomano para termos uma contraprova ou como o imperialismo britânico conseguiu usar com sucesso os conflitos regionais entre os vários Estados indianos para conquistar todo o subcontinente. Mesmo a história de nossos irmãos argentinos é bem distinta nesse aspecto,  atravessada por guerras contra Buenos Aires. É claro que essa integridade territorial não correu sem rebuliços. Podemos citar como exemplos os episódios da Revolução Farroupilha, da traição paulista de 1932 ou da Guerra do Contestado. A questão regional sempre foi central para história brasileira – e o protagonismo dos governadores agora na COVID-19 aponta para sua continuidade. No entanto, isso apenas reforça a centralidade do diretório político, principalmente em sua capacidade de realizar a composição de interesses e antecipar-se às possíveis rupturas, mantendo a integridade nacional.

Ignácio Rangel observou que todas as internalizações de modos de produção ou regulação mais avançados tiveram como expressão uma reconfiguração no Pacto de Poder fundamental entre frações da burguesia. No último capítulo de “Mito e Verdade…”, o pensador baiano cita outro grande brasileiro, Oliveira Viana, para destacar a importância da monarquia para a conformação desse centro de poder, necessário para a manutenção da integridade territorial. Sua capacidade de equilibrar os conflitos pela alternância de gabinetes foi essencial para esse fim. Como Ignácio Rangel argumenta, esse pacto encontrou seu limite no ciclo longo inaugurado com o crash da bolsa de Viena em 1873. O país respondeu ativamente a essa crise no centro do capitalismo, com a composição de um novo pacto de poder entre o capital comercial e os  latifundiários de caráter “feudal”, cuja expressão mais evidente é o movimento de 15 de novembro de 1889. Ou seja: o diretório político ou pacto fundamental possui como característica sua incrível adaptabilidade.

Essa adaptabilidade implica continuidade nas rupturas. Guerreiro Ramos salienta o papel relevante do carisma presidencial, já na transição de Floriano Peixoto para Prudente de Moraes, capaz de pacificar o país em um momento de intenso conflito regional. Há uma linha de continuidade do Imperador até Goulart. E até hoje. Sobre a crise dos anos 60, nos diz oEm seu livro escrito em 1963, no olho do furacão da crise dos anos 1960, o pensador trabalhista comenta:

“A crise se declara aguda no próprio centro do poder. Queremos dizer: não existe, hoje , no Brasil, como discreto corpo político, informalmente organizado, sem prejuízo da sólida consciência de seu papel, um centro de poder. Carecemos de diretório político, como conjunto de homens dotados da compreensão instrumental do poder, nos quais esteja representado o projeto da empresa nacional, como tarefa transcendente às episódicas lutas sociais. Esse diretório sempre existiu no passado, tanto na monarquia como na república, com períodos curtos de desagregação , semelhante ao que presenciamos nos dias correntes [isto é, em 1963]. Esse diretório pode ser reconstituído, faltando para tanto que as personalidades diretoriais, já existentes isoladamente, se encontrem e coordenem na execução de um esforço compositivo do novo centro de poder”. (Mito e Verdade…, Editora Insular, 2016; p. 260-1)

O diretório possui suas regras. Em um trecho de um texto apócrifo recentemente traduzido pela Insight Inteligência chamado “o colapso do nacionalismo no Brasil”, Guerreiro enumera duas leis inquebrantáveis desse diretório. Primeiro, que a admissão nele é problemática, pois ameaça a posição dos demais. A segunda regra é extremamente correlacionada a primeira. O caráter eminentemente conciliatório do diretório de poder implica que nenhum  de seus participantes pode ameaçar significativamente a posição dos demais. Foi essa fraqueza que os inimigos do Brasil exploraram no golpe de 1964.

A implosão do diretório político 

Moniz Bandeira era quadro do PSB à época dos eventos que antecederam o golpe de 1964, mas trabalhava no gabinete do deputado federal Sérgio Magalhães do PTB, liderança da Frente Parlamentar Nacionalista. Em duas de suas obras, “João Goulart e as Lutas Sociais no Brasil 1961-1964” e “Brizola e o Trabalhismo”, o cientista político destaca com pioneirismo a participação estadunidense nos preparativos e no próprio golpe militar, antes mesmo da divulgação dos documentos da operação Brother Sam.

João Goulart ganhara fama de radical durante sua passagem pelo Ministério Revolucionário, o Ministério do Trabalho, durante o governo de Getúlio Vargas nos anos 50. Por meio da classe trabalhadora organizada pela figura carismática do caudilho gaúcho, da estrutura sindical-estatal e do PTB (em colaboração e disputa com os pecebistas e com o Pacto da Unidade Intersindical), Goulart dobrou a resistência parlamentar e conseguiu propor um reajuste de 100% do salário mínimo na Greve dos 300 mil. Foi uma estratégia de pinça, com forte atuação parlamentar e mobilização popular de ruas (como comentamos aqui). A campanha foi uma vitória, mas custara-lhe o cargo.

O país atravessava na segunda metade dos anos 1950 uma escalada inflacionária combinada com estagnação econômica que se traduzia em crise política. Já a sucessão de Juscelino Kubitschek foi muito atravancada, em grande medida pelo cálculo eleitoral do ex-presidente, que o levou a se manter neutro no pleito de 1960, rompendo com a tradição do chefe de Estado apontar seu candidato. Guerreiro Ramos defendeu a candidatura de Oswaldo Aranha – figura mais moderada, que contava com grande trânsito em todo o espectro político e com a burguesia. Nas convenções do PTB, ganhou a posição majoritária de indicar o Marechal Lott que, apesar de suas posições pessoais relativamente moderadas, era visto como mais radical por causa do papel que desempenhara no golpe preventivo para garantir a posse de JK.

Guerreiro Ramos argumenta que a renúncia de Jânio Quadros em 1961, supostamente motivada por “forças ocultas”, na verdade foi uma estratégia do político sul-mato-grossense para contornar a barreira que o legislativo oferecia para seu errático governo. Jânio apostava que sua renúncia seria recusada pelo Congresso em virtude da rejeição de boa parte da burguesia a Goulart, o que não ocorreu. Muito pelo contrário: aquele evento convertera-se numa oportunidade para que algumas frações buscassem vetar o trabalhismo no diretório político. Como havia sido seu desejo desde a revolução de 1930.

No complexo episódio da campanha da legalidade em 1961, as linhas de comunicação entre Brizola e Goulart ficaram seriamente comprometidas. Como é narrado por Moniz Bandeira, o então vice-presidente estava em visita oficial à China quando Quadros renunciou e iniciou seu retorno ao Brasil para tomar posse, mas optou por um caminho mais longo em virtude da confusão que se instalara por aqui, a fim de dar tempo para que os eventos se desenrolassem. O esforço heroico de Brizola havia rendido frutos e fora capaz de debelar integralmente o golpismo. No entanto, Goulart não foi comunicado do êxito completo do movimento de seu correlegionário e cunhado.  Tancredo Neves conseguiu em negociação com Goulart arrancar-lhe o parlamentarismo ad hoc. Brizola se indignara com essa concessão, porque ela era objetivamente desnecessária. Antecipando-se à concessão, Brizola até tentou reter Tancredo Neves no aeroporto gaúcho quando passou por lá antes de encontrar Goulart em Montevidéu, mas não teve sucesso.

O que faltou para Leonel Brizola Revolução Brasileira Getúlio Vargas Trabalhismo

A relação de Brizola com seu cunhado e presidente ficou bastante estremecida após aqueles eventos. Nos menos de três anos que separam a Campanha da Legalidade do Golpe Militar de 1964, Brizola assume uma postura de crescendo dete antagonização política, enquanto Goulart, num primeiro momento, procurou conciliar com os conservadores que tinham a maioria do Congresso. 

Para tentar contornar a escalada inflacionária, Celso Furtado, Ministro do Planejamento de Goulart propusera o Plano Trienal logo depois do restabelecimento do presidencialismo. Ignácio Rangel comenta que o Plano era um arremedo de medidas mais ou menos contraditórias, em grande parte devido ao curto prazo que teve para ser elaborado – tudo foi feito em menos de três meses. A parte monetária. Um segmento do Plano foi entregue para Otávio Bulhões, na época diretor da SUMOC, o equivalente do Banco Central, que defendeu uma posição extremamente restritiva para a parte monetária do Plano. O mesmo Otávio Bulhões seria Ministro da Fazenda do governo ilegítimo de Castello Branco pouco tempo depois. 

No “Inflação Brasileira”, Ignácio Rangel desenvolve um argumento brilhante de como a inflação era a resposta propriamente brasileira para evitar a recessão econômica. Não reproduziremos aqui, mas convém ressaltar que o pensador maranhense defendia que uma medida razoavelmente simples – a correção monetária, que se tornaria corriqueira depois – seria capaz de criar as condições para restaurar a demanda por compras de bens duráveis ou investimentos produtivos, se combinada com outras políticas importantes, principalmente de expansão fiscal e de relaxamento monetário. Para isso, seria necessária a revogação da Lei da Usura de Getúlio Vargas que limitava os juros sob empréstimos. Apesar de funcional para o momento em que foi promulgada, a lei convertera-se em disfuncional no início dos anos 60.

Brizola mostrou-se extremamente descontente com as posições conciliatórias de Goulart. No “Colapso do Nacionalismo…”, Guerreiro Ramos argumenta que os dois cunhados trabalhistas passaram a disputar o papel de “líderes das massas”. Brizola adotou uma postura de cada vez mais “radicalismo retórico”, que lhe rendeu frutos eleitorais – uma eleição com recorde de votos no Rio de Janeiro para deputado federal (então estado da Guanabara) em fevereiro de 1963. Já Goulart, pressionado pela repercussão dos discursos inflamados de seu correligionário, competia com propostas de cunho popular no Congresso, como  um decreto congelando aluguéis ou um projeto radical de reforma agrária. Ao mesmo tempo, o presidente realizava medidas conciliatórias, como a negociação com Kennedy para a compra da AMFORP ou o plano econômico conservador. Saltava aos olhos o caráter contraditório de seu governo.

O ápice da contradição foi no final de 1963. Carlos Lacerda, na época governador da Guanabara, em sua contumaz virulência anti-trabalhista, publicou um artigo no jornal estadunidense LA Times defendendo um golpe no Brasil para depor Goulart. Aquilo foi visto como um ultraje pelos próprios militares, que exigiram uma resposta enérgica contra Lacerda.  O Brasil encontrava-se num estado de profunda crise política, que já se arrastava desde o final do mandato de JK, com intensos movimentos grevistas e no campo. Do lado da direita, os desafios à autoridade do governo federal por parte de governadores e empresários tornara-se uma constante. O país praticamente já não possuía mais um diretório político e suas partes giravam em descompasso.

Moniz Bandeira narra que Goulart chamou Brizola durante a madrugada para que conversassem a respeito da propositura de um estado de sítio, a fim de resolver o impasse no qual se encontrava o país, sobretudo para intervir na Guanabara. Brizola não respondeu naquele momento e foi reunir-se com seus companheiros da Frente de Mobilização Popular para decidir o que fazer. Já durante a manhã e antes de responder, foi surpreendido com o pedido de estado de sítio enviado ao Congresso por Goulart. O presidente e o ex-governador gaúcho falaram então mais uma vez. Segundo Moniz, Brizola disse que estaria solidário com o governo, mas que não apoiaria o estado de sítio, pois tal medida geraria desconfiança entre seus companheiros.

No “Colapso…”, Guerreiro Ramos diz que:

“Houve um momento em que Goulart parecia ter decidido pôr fim à extrema inquietação política do país. Com o apoio do ministro da Guerra, tentou declarar estado de sítio. O signatário recebeu informação que, com esta medida, o governo indicava estar convencido da necessidade de enfrentar agitadores tanto da esquerda quanto da direita para tentar anular a real ameaça de anarquia. Este autor, então um membro do Congresso, defendeu a proposta na Comissão de Justiça, provocando sua desgraça pessoal entre seus muito seguidores do Partido Trabalhista Brasileiro ao qual pertencia. Mas, sob ataque constante de setores da esquerda e da direita, Goulart rescindiu seu pedido de estado de sítio, 48 horas após tê-lo solicitado.”

Embora a tese “psicanalítica” de Guerreiro Ramos a respeito dos eventos que antecederam o golpe de 1964 seja bastante problemática (parte do seu conceito ainda mais problemático de “homem parentético” que pretedemos criticar oportunamente), é inegável que a relação conflituosa de Brizola e Goulart foi a expressão na superfície do ponto fraco do anti-imperialismo brasileiro, explorado habilmente pelos inimigos do Brasil para nos submeter no regime colonial implantado pelos militares. O governo funcionava em demasiado descompasso em relação ao próprio partido, que se isolava cada vez mais no espectro político, num ciclo vicioso de radicalismo retórico que retroalimentava a crise, que por sua vez se traduzia em mais radicalismo puramente retórico e assim por diante.

O diretório político é a expressão da questão regional do país. Com sua implosão, as elites regionais passaram a minar a autoridade do governo central. Além de Lacerda – que literalmente pediu intervenção num jornal estadunidense – Ademar de Barros, então governador de São Paulo, mantinha negociações diretas com o “simpático” Kennedy, financiando obras do governo paulista. Magalhães Pinto nomeara Afonso Arinos como secretário extraordinário do governo de Minas Gerais, mas, como narra Darcy Ribeiro em uma fantástica entrevista ao Roda Viva nos anos 1990, na prática Arinos era o chanceler de Minas e o governo estadunidense já havia lhe assegurado que reconheceria o estado sudestino como Estado beligerante no caso de conflito. Moniz Bandeira traz uma série de relatos que vão desde a presença de militares estadunidenses em estados do Nordeste até armas estocadas para serem utilizadas para submeter o país. Caso o imperialismo tivesse recorrido a ainda mais violência, o conflito se processaria explorando nossas contradições regionais.

Revolução metafísica ou revolução possível? Considerações sobre o programa revolucionário brasileiro.

É claro que no programa de qualquer governo popular deve constar medidas como reforma agrária, a expropriação de empresas transnacionais ou a regulação dos aluguéis. A estatização das refinarias foi esteio para o monopólio por parte da Petrobras e as Reformas de Base são o mais radical projeto de país já proposto em nossa história. O problema não são as medidas efetivamente radicais conduzidas tanto por Brizola, em seu governo estadual ou como parlamentar, como por Goulart na presidência.

O ponto fraco reside no radicalismo retórico, expressão da incapacidade do exercício do poder. Guerreiro Ramos afirma que “o segredo é a alma do poder e o centro político é constituído pelos que possuem seu segredo” (p. 247).  A questão não é ser radical, o que, além de um imperativo histórico, é condição de sustentabilidade do movimento anti-imperialista ao criar e manter suas bases de apoio popular. O problema é aparentar radicalismo, ainda mais quando o que pode efetivamente ser feito fica muito aquém das expectativas que alimenta, tanto entre seus apoiadores como no resto dos atores políticos. 

No caso brasileiro, cuja estrutura política assume a forma de um diretório conciliador, as consequências são ainda mais nefastas. A lei do diretório é que nenhum de seus membros pode ameaçar significativamente a posição dos demais. Os trabalhadores organizados, num país marcadamente heterogêneo como Brasil, não são mais do que um ator dentro desse diretório. O radicalismo retórico reduz o horizonte estratégico dos demais atores que não possuem outra alternativa a não ser se colocarem contra o movimento popular. 

O isolamento no diretório não é a única consequência. Como o próprio Guerreiro Ramos argumenta – seguindo os passos de Lenin – a Revolução não é somente produto de condições objetivas para sua maturação. É também causa e consequência de suas próprias condições subjetivas, ao que Guerreiro Ramos chama de concepção sincrética de Revolução, da articulação contraditória das circunstâncias para a revolução e do grau de organização dos trabalhadores, grau esse marcado principalmente pelo conhecimento totalizante das condições concretas do país. Por essa razão, Guerreiro Ramos enumera entre os princípios revolucionários, além do princípio da práxis – em que a ação revolucionária não é meramente espontânea, como a teia de uma aranha, mas refletida, mediada por intenção – também o princípio dos limites. Há assim, uma espécie de “competência revolucionária” (p. 65) em discernir num dado momento aquilo que é possível e aquilo que não é. 

Entender o limite do diretório político é tarefa premente de qualquer programa da Revolução Brasileira e se trata de uma linha de pesquisa em aberto. Aqui neste ensaio não foi possível distinguir entre o pacto de poder das frações da elite de Ignácio Rangel do diretório político de Guerreiro Ramos, o que consumiria uma extensa investigação. No entanto,  alguns apontamentos gerais podem ser feitos. O golpe militar não significou uma alteração no pacto de poder, na medida em que preservou a aliança entre a elite rural de caráter feudal com o nascente capital industrial oriundo da Revolução de 1930. O que ocorreu em 1964 não se trata nem mesmo de uma “circulação de elites” no sentido que Guerreiro Ramos coloca em sua tipologia das Revoluções, haja visto a manutenção da hegemonia dessas mesmas elites. Foi uma reconfiguração do diretório político, excluindo de seu seio a fração organizada dos trabalhadores – o trabalhismo. O diretório também não se confunde com a pequena política cotidiana, dos mandatos e indicações – mas estes são sua expressão concreta. Ele caminha no sentido similar a que a categoria de “formação econômico-social” apresenta em Marx: nem a conjuntura, em sua fluidez característica, nem as classes, em geral consideradas em alto grau de abstração, mas a configuração particular que a luta de classes assume num certo espaço no tempo.

De todos os momentos narrados por Moniz Bandeira e Guerreiro Ramos nos intensos três anos entre a Campanha da Legalidade e o Golpe de 1964, o episódio do estado de sítio talvez seja o mais emblemático. Ali afigurou-se possível uma afirmação de autoridade, necessária para a consecução inclusive das próprias Reformas de Base – segundo Moniz, essa foi a justificativa apresentada por Goulart na reunião fechada com Brizola. Provavelmente, a mera necessidade do estado de sítio já demonstrasse sua ineficiência, na medida em que o verdadeiro poder de uma espada se manifesta quando ela está embainhada, e não quando é sacada. De todo modo, a “atitude revolucionária” a que Guerreiro alude (p. 81) não é uma “receita de bolo” pronta de como a revolução deve ser feita. Ela supõe que as lideranças sejam capazes de “tirar partido das circunstâncias particulares” com as quais se defrontam, no intuito de tomar o poder. Se o estado de sítio fosse objetivamente possível naquele momento – e só a investigação histórica é capaz de responder – ele conformaria a “porta estreita pela qual pode entrar o Messias”, como diz Walter Benjamim em suas teses sobre a história, a minúscula fissura capaz de promover a ruptura.

É necessário não fetichizar essa ruptura. Não seria a panaceia da dependência brasileira e tampouco a abolição da “exploração do homem pelo homem”. Seria a revolução possível e nem por isso menos importante. A mera instituição da correção monetária conjugada com expansão fiscal e relaxamento monetário talvez fosse suficiente para mitigar a espiral inflacionária. Otávio Bulhões – ministro da Fazenda de Castello Branco – instituiu justamente a correção monetária, em consonância com outras medidas que lançaram as bases para o capital financeiro nacional, logo depois do golpe militar. Mas o diretório político que efetivamente conduziu esse programa foi um regime colonial que intensificou o processo de internacionalização de nossa cadeia produtiva e que, em última instância, levaria como consequência ao desastre da abertura comercial de 1994 e o consequente tripé macroeconômico. Talvez – se o estado de sítio fosse essa ruptura – o diretório político teria conduzido um programa de longo prazo muito distinto – as Reformas de Base.

Ainda partindo da premissa de que o estado de sítio significasse essa ruptura, cabe uma última indagação. Por que Brizola não o endossou imediatamente? Quais eram os receios que seus apoiadores? O problema reside justamente no descolamento da subjetividade dos trabalhadores organizados em relação às condições objetivas da mesma, sobretudo de suas lideranças. O estado de sítio não condiz com a imagem ideal da revolução, seja em sua expressão soviética (que era e é muito mal interpretada) ou chinesa, cubana, argelina etc. Seu programa não pareceria nem um pouco revolucionário com esse olhar: correção monetária, formação de capital financeiro. Para piorar, exigiria a intervenção em movimentos populares, para centralizar o poder no governo federal e configurar um sujeito coletivo necessário aà consecução deste programa. Mas esta era a revolução possível, que efetivamente implicaria uma recolocação soberana do Brasil na economia mundial, pavimentando o caminho para medidas ainda mais radicais. A hipótese psicanalítica de Guerreiro Ramos no “Colapso…” nos parece demasiadamente frágil. No entanto, a alienação colonial em sentido estrito, do apagamento do que é propriamente nacional,  é uma hipótese muito mais promissora para compreender o que ocorreu. Além disso, os débeis canais de comunicação do PTB e suas deficiências intrínsecas impediram esse entendimento – patente no próprio fluxo decisório problemático da questão do estado de sítio.

É preciso ressaltar que os culpados pelo golpe de 1964 não foram os trabalhistas nem o resto da esquerda. Foi o pequeno grupo de militares traidores que se apossou ilegitimamente do país, o imperialismo estadunidense, uma classe média que tem ódio a própria carne morena e, principalmente, uma burguesia que está disposta a vender o país para ganhar no ágio.

O que faltou para Brizola não foi patriotismo, amor aos trabalhadores, coragem, honra e tampouco inteligência ou espírito apaixonado, que tanto faltam para nossas lideranças atuais. Brizola leu a conjuntura como ninguém a sua época e soube extrair o melhor possível das circunstâncias com as quais se defrontou. Faltou a nosso caudilho enxergar que duas medidas reacionárias – o estado de sítio e a correção monetária – podiam ser porta estreita para seu exato oposto. A pequena fissura da grande ruptura.

Amar e cultuar nossos heróis significa continuar seu legado. Nada honraria mais Brizola se conseguíssemos superá-lo. Que nossa geração esteja a altura da tarefa que nos foi legada.

O Brasil depende disso.

“A história é isto. Não se corta com uma tesoura e nem é descontínua. A história é como esses cabos de sisal, constituído de fiozinhos pequenos, uns mais adiantes, outros mais atrás, entrelaçados, que são nossas vidas. E ela é contínua. Nós somos hoje em grande parte o que fomos ontem, vamos ser amanhã em grande parte o que somos hoje. Coletivamente. Povo que não tem passado, não tem presente. E muito menos pode ambicionar ter um futuro”. – Leonel Brizola na UNICAMP em 1987.

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