O tigre de papel verde e amarelo

Não é preciso ser historiador militar para saber que todos os generais bem sucedidos sempre deram muita importância em escolher o campo onde seu exército iria travar a batalha e procuravam por todos os meios retirar essa opção aos inimigos. A informação é tão corriqueira que dispensa a enumeração de exemplos. Pois bem, Bolsonaro escolheu muito mal onde colocar suas forças: as ruas definitivamente não são um espaço onde suas hostes podem levar vantagem.

Desde o momento em que o comandante levantou a bandeira dando ordens de batalha, alguns de seus principais capitães abandonaram o campo antevendo o insucesso. Ele próprio montou sua tenda e manteve-se com o alto comando bem longe da linha de frente, percebendo tardiamente o erro na estratégia. O resultado não poderia ser outro: uma derrota acachapante, mesmo com recursos de logística abundantes, trios elétricos gigantescos enfileirados e farto material para impacto visual, inclusive os bonecos infláveis de gosto duvidosos, com a convocação das tropas feita à exaustão pelas redes sociais e meios de comunicação, que deram uma cobertura mais que camarada ao evento.

O Rei não conseguiu colocar em campo um exército para fazer frente sequer à vanguarda do inimigo: os estudantes, que já saíram na frente e tem uma nova ofensiva marcada para o próximo dia 30, que fará quando enfrentar a força principal do exército oponente dia 14 de junho?

As tropas de verde e amarelo saíram para o combate sem objetivos estratégicos definidos. Não sabiam ao certo o que estavam fazendo nas ruas, afinal era contra o Centrão, para fechar o STF, apoiar a reforma da previdência, o pacote do Moro? O exército de vermelho sabia exatamente pelo que estava lutando: todos pela educação, organizações diversas, com pautas próprias, mas todos unidos com um objetivo claro que os unifica, a defesa do futuro do país e da esperança para as novas gerações.

A mesma Avenida Paulista – que dia 15 de maio viu passar centenas de milhares de manifestantes organizados por universidades, escolas, entidades estudantis e sindicais, coesas com suas faixas e palavras de ordem entoadas com garra e coragem por gente que foi a luta com a consciência do que estava fazendo – onze dias depois foi palco de um espetáculo bizarro. Uma gente gorda e brancarana, que passeava de um lado para o outro assistindo ora um grupo de monarquistas querendo cavar um túnel do tempo, ora apreciando uma performance dos seguidores de Plínio Salgado, tocando gaitas escocesas, com direito a ouvir discursos dos seguidores de Olavo de Carvalho.

Bolsonaro vai descobrir que suas milícias digitais, que funcionaram muito bem para garantir o resultado eleitoral, são inúteis para formar uma base política e social efetiva. Uma coisa é concentrar seus recursos políticos, a força de coação das milícias, a máquina das fakenews, a mídia reacionária, o poder econômico, para conseguir o resultado favorável no dia da eleição. Outra coisa é arregimentar pessoas que estejam dispostas a ir, continuadamente, para as ruas defender o empobrecimento econômico e cultural delas próprias.

Conforme vai se clarificando o caráter impopular das propostas do governo, sua base política na sociedade derrete, com a popularidade em baixa, sendo abandonado por seus seguidores, com repercussão direta em sua base de apoio político partidária. Bolsonaro em breve estará repetindo o mesmo apelo patético de Collor para que não o deixem só. O núcleo duro dos ‘bolsominions” vai ter vida dura pela frente. Em breve vão estar sendo ridicularizados e segregados em seus locais de trabalho, na vizinhança, em todos os centros de vivência. Passado o torpor da derrota eleitoral, a sociedade civil, tanto suas organizações importantes como a CNBB, a OAB, a ABI, como os formadores de opinião, artistas, cientistas, intelectuais, vão acuar os protofascistas, até mesmo no ambiente digital, onde se sentem mais confortáveis.

Aqueles que temiam as manifestações pró-governo como as preparações para um golpe contra as instituições podem encostar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilamente, pelo menos por ora, pois o bolsonarismo é um tigre de papel, ainda que colorido de verde e amarelo. O perigo não está nessa malta de bufões que o governo consegue mobilizar, mas como os militares vão agir assistindo a derrocada do capitão. Até onde os generais entreguistas e reacionários que comandam nossas forças aramadas estarão dispostos a ir para apoiar o projeto neoliberal de Paulo Guedes. Penso que um bom termômetro será analisar o comportamento das forças de segurança nas próximas manifestações.

Por Eduardo Papa, jornalista, professor e artista plástico.

1 Comentário

  • Você tem relativa razão. Ele se sentir só, no caso dele, aumenta a possibilidade de um fechamento do regime. Ele pode ser um tigre de papel, mas não pode ser menosprezado. Os militares já empalmaram o governo do Bolo. E, estão cozinhando a carne do galo, pois, constitucionalmente, o Mourão só entra se o Bolo tiver cumprido metade do mandato. O problema é que ele derreteu muito rápido, e se ele cair agora, deverá haver novas eleições.

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