A “onda conservadora” e a cultura do povo

Existe uma leitura equivocada sobre as tendências do voto popular. Falo aqui da tal “onda conservadora” que muitos dizem existir no país e que determinou o resultado das eleições presidenciais do ano passado.

O primeiro grande erro dessa leitura é encarar esse voto como uma “onda”, quando na verdade ele é resultado da inserção das massas na política. Quando o povão adentra a política, não o faz apenas exigindo melhorias materiais, legislação social e proteção contra as elites.

Pensar que as questões materiais se sobrepõem a todas as demais é um dos vícios mais cabulosos em que, muitas vezes, os movimentos esquerdistas caem ao longo da História. As populações mais pobres possuem valores, uma mentalidade e uma ótica sobre o mundo e a sociedade, e estão dispostas a se mobilizar por esses eixos de pensamento e percepção. Muitas vezes mais do que por um prato de comida.

O homem não é movido pelo ventre. Não existe esse sujeito “econômico”, que se organiza apenas em prol de interesses materiais racionalizados. Nós lutamos por aquilo que consideramos bom, belo e moral. Por nossas famílias, nossos filhos. Por algum mito “nacional”. É assim que tem de ser explicada a Revolta da Vacina, ou Canudos e o Contestado, ou ainda a rebelião após o suicídio de Getúlio.

Uma consequência do erro acima é imaginar que os pobres e a classes populares brasileiras vão abandonar a pauta “conservadora”, e que na verdade deve ser chamada de “pauta popular” porque nada mais expressa do que valores entranhados na maioria esmagadora dos nossos compatriotas, por causa de uma suposta crise econômica arrebatadora que se divisa no horizonte.

O raciocínio distorcido funciona da seguinte maneira: na hora ‘h’, os pobres e as classes populares vão relativizar os seus princípios de matriz religiosa e conservadora em prol de uma unidade em torno dos direitos sociais, trabalhistas, do emprego etc. Mas não funciona assim.

Há de se entender que os pobres e as classes populares estão acostumados a viver em crise econômica. Em geral, eles não tem empregos formais, vivem de bicos, vendem o almoço pra comprar a janta, estão acostumados uma existência social periclitante e que conta com pouca ajuda do Estado. Os serviços públicos estão em crise para os pobres desde sempre.

Aliás, quem quer ver a religião apenas por meio de explicações de ordem sociológica, que entenda que os pobres e as classes populares dependem muito mais da rede de proteção que lhes fornece o associativismo religioso do que da rede de proteção de um Estado ausente dos bairros suburbanos e das favelas.

Mas além dessas considerações de ordem materialista, os pobres e as classes populares possuem uma cultura, a partir da qual vêem a realidade. Eles não vão abandonar sua identidade, aquilo que há de mais sagrado para um homem, só porque os dias estão difíceis. Eles vão explicar esses dias difíceis a partir dessa cultura e identidade que lhes é própria.

Não adianta chamar as classes populares de “nova classe média”. É necessário dialogar com eles a partir dos valores que eles possuem. É necessário parar de pregar para eles, de abordá-los como “missionários do progressismo dos últimos dias” e ouvi-los.

Eis aí a maior dificuldade para a mentalidade iluminista e liberal. Para a mentalidade da esquerda cosmopolita. Eles foram doutrinados para acreditar que o mundo todo “evoluiria” para a percepção e modo de vida de Nova Iorque e Londres, que a religião e as identidades populares perderiam relevância e seriam abandonadas.

Enquanto não se convencerem que o mundo é mais do que pensam e que suas previsões sobre os conflitos geopolíticos e sociais está equivocada, não vão se adaptar de modo coerente à luta de nossos tempos. No caso brasileiro, não vão conseguir dirimir o abismo que os separa dos mais pobres. Tornar-se-ão veículos das pautas de uma classe média minúscula e que olha pra fora do país para entender sua situação existencial. Vão falar em nome do “progressismo” mas sempre contra o próprio povo.

E vão perder. Uma, duas, três, quantas vezes enfrentarem o imaginário popular. É irônico que as forças que se dizem populares se fragmentem, sejam acuadas, justamente porque as massas adentraram a política. Quem elas representam, então? Quem elas de fato pretendem libertar?

Por: André Luiz Dos Reis.

1 Comentário

  • Essa posição pedante do texto ja recebeu críticas a seus principais equívocos há bastante tempo. Na metade do XIX, o idealismo pretensioso ja foi devidamente desnudado. No começo do XX, essa ilusão de “a verdade emana do povo” foi acertadamente desacreditada. E nas dé cadas seguintes os trbalhos sobre ideologia se encarregaram de desmontar de vez essa ilusão paternalista de validação automática do que venha de origem popular.

    Mas é claro que nada disso vale pra tradição caudilhesca que tem a pretensão de falar em nome do povo, para o povo, o que o povo quer.

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