Onde está a América Latina progressista?

Outubro de 2017.

Caminho pelas ruas do centro velho de São Paulo. Nada, absolutamente nada sugere que a esquerda contestadora ainda exista. A sensação é de um completo marasmo, num dia cinza. Apenas o barulho da metrópole, o som ensurdecedor das ruas agitadas. Buzina, fumaça, gente andando desordenadamente (…) a vida capitalista parece prosseguir inabalável.

Estamos diante da ruína dos chamados governos progressistas na América Latina. Dezoito anos após a ascensão de Hugo Chavez na Venezuela, e quinze anos após a eleição de Lula da Silva no Brasil, pouco ou nada restou dos chamados “governos pós-neoliberais”.

A velha Venezuela encontra-se hoje no ápice de uma gravíssima crise de abastecimento e à beira de uma guerra civil com forte repressão militar aos milhares de manifestantes, ao passo que o Brasil está atolado numa interminável crise econômica com mais de 13 milhões de desempregados.

Em meio à crise, sem carne disponível no mercado, Nicolás Maduro anunciou a criação e distribuição de coelhos para matar a fome do povo venezuelano já que os “coelhos se reproduzem como coelhos”, enquanto no Brasil, segundo o Ministério Público Federal (MPF) somos governados por um “chefe de organização criminosa”com apenas 3% de popularidade.

É claro que nenhum edifício entra em repentina ruína sem antes emitir os sinais de queda.

Já em 2012 no Paraguai, o governo de Fernando Lugo foi deposto num processo de impeachment considerado ilegal pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. Em 2015, para espanto geral, o kirchnerismo na Argentina lançou um menemista candidato a presidente e não deu outra: o fantoche foi terrivelmente derrotado, dando lugar ao governo Macri, de agenda violentamente neoliberal.

Ainda em 2015 na Bolívia, Soledad Chapetón, opositora de Evo Morales vencia as eleições para a prefeitura de El Alto, segunda maior cidade do país, de maioria ameríndia, coração da guerra do gás de 2003, um dos movimentos que alçaram Evo ao poder. Como se não bastasse, em 2016 Morales perdeu um referendo constitucional que buscava autorizar sua reeleição, e agora recusa-se a respeitar o resultado… com o apoio de um Judiciário tão politizado quanto no Brasil.1

No mesmo ano, o governo de Michele Bachelet no Chile sofreu uma terrível derrota nas eleições municipais e mais uma vez não conseguiu eleger um sucessor de centro-esquerda. No Equador, a situação não é nada melhor, visto que desde 2013 o governo de Rafael Correa já emitia sinais de que todas as inovações constitucionais de caráter progressista aos poucos começavam a desmoronar por ação do próprio governo, especialmente após  a decisão de romper o Acordo Yasuní-ITT e explorar a camada de petróleo do Parque Yasuní.

No Uruguai, o pequeno “oásis” que prometia ser o modelo ideal das esquerdas, pela primeira vez a popularidade de Pepe Mujica começa a cair, enquanto o governo Tabaré Vásquez, acuado, inicia um processo de desmonte dos programas sociais implementados por seu antecessor. Em El Salvador, Mauricio Funes presidente aliado do lulismo entre 2009 e 2014 terminou como exilado político na Nicarágua, fugindo da justiça, acusado de corrupção.

Aqui no Brasil, Dilma Rousseff assistiu quase inerte ao trágico desmoronamento do modelo petista. Como um castelinho de areia, o governo começou a cair desde os levantes de junho de 2013. Um processo lento e gradual, que culminou num impeachment juridicamente questionável em 31 de agosto de 2016.

A esquerda latino-americana que em tese comemoraria os 100 anos da Revolução Russa num ciclo ascendente, encontra-se num surpreendente processo de desânimo político e desorientação epistemológica.

Que houve? Não éramos uma América Latina progressista? Uma América em franco desenvolvimento, anunciando com grande alarido o novo ciclo pós-neoliberal?

Da Venezuela chavista ao Brasil petista, todas as experiências da chamada “nova esquerda” entraram em colapso. O que ocorreu? Como um ciclo tão produtivo do ponto de vista das políticas sociais ruiu tão rapidamente?

No auge das vitórias eleitorais, Emir Sader e uma série de intelectuais petistas anunciavam a chegada da “Era Pós-Neoliberal”2

Agora, eles tentam explicar o colapso do ponto de vista de um retorno inesperado do neoliberalismo. Em outras palavras, de alguma maneira o defunto se levantou e continuou assombrando o mundo dos vivos. Pelo visto, mataram o peru de véspera… ou velaram o defunto errado.

Mas aí que está o ponto. A meu ver, é um equívoco apelar para uma grande causa exógena. Um grande “Outro” exterior que se manifesta no curso da história solapando as esperanças sempre puras da esquerda.  E olha que já não faltam explicações nesse sentido. Antes de colocar a culpa no “imperialismo norte-americano” e lançar mão de um enredo de cinema beirando o fantasioso, minha leitura é de que esses governos sucumbiram em seus próprios termos, ou seja, em que pese as influências internacionais, a principal causa mortis não é exógena, mas endógena, pelas suas próprias condições materiais e escolhas políticas.

Explico:

Talvez a maior potência desse experimentalismo latino-americano tenha sido a dimensão do conflito. Sim, em todos os casos, os chamados governos progressistas foram atravessados por conflitos entre os limites do contemporâneo e a vontade de criação de novas formas de (com)viver. No interior desses processos experimentalistas, ao contrário do que alguns sugerem, a contradição não é o problema, mas uma expressão desse andar-na-corda-bamba que caracterizou o período, especialmente no campo das políticas sociais.

Em outras palavras, foi desse processo criativo que  surgiram experiências extremamente ricas mesmo com todas as suas contradições (e limitações): o Bolsa-Família, o PROUNI, os Pontos de Cultura, o Mais Médicos e as cotas raciais no Brasil; os processos constituintes de Bolívia e Equador; o surgimento dos conceitos de Bem-Viver, autonomia e plurinacionalidade principalmente nos Andes; as tentativas de  política pós-extrativistas no Equador; a retomada da PDVSA no Governo Hugo Chavez; a política social pró-piqueteros,  a política de direitos humanos e resgate da memória na Argentina; e de modo geral e por toda a América Latina, o bloqueio das políticas privatistas.

No entanto, a coisa começa a complicar quando esses conflitos passam a ser aniquilados. À direita e à esquerda surgem críticos procurando “solucionar” as contradições inerentes ao experimentalismo. Parte da esquerda (ou seria ex-querda?) enxerga o conflito como um obstáculo a ser superado, e em nome de um consenso cada vez mais autoritário começa a reprimir os dissidentes do seu projeto de poder.

E não foi exatamente isso que ocorreu quando os governos petistas convocaram o Exército para reprimir os movimentos sociais anti-Copa do Mundo?

Assim, e estranhamente, no Brasil, direita e “esquerda” convergem em torno de um projeto que nunca fica claro, e nunca admite a diferença. Seria preciso, então, para esses ideólogos, um projeto sempre consensual, retilíneo, uniforme, invariável, duro, forte, inescapável para onde convergiriam todas as forças e do qual já não seria possível sair. À direita enquanto os militares falam em um projeto para exploração de recursos da Amazônia, os liberais falam em um amplo projeto de privatizações.  Já à esquerda fala-se em grandes projetos esportivos e energéticos. Em todos esses casos, projetos com grandes e vultuosas somas de dinheiro, desprezo pela democracia (relegada ao segundo plano), pesadas intervenções militares, decisões “técnicas” consideradas inalteráveis, remoção da população pobre, dentre outras barbáries.

Enquanto o Rio de Janeiro escondia seus mendigos e São Paulo começava a varrer comunidades inteiras para debaixo do tapete, a fim de impor a infraestrutura exigida pelos barões da FIFA, o intelectual socialista Emir Sader chamava o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) de vira-latas, instigando a torcida organizada do Sport Club Corinthians Paulista a “enxotá-los” das imediações do estádio.

Os conflitos no interior do experimentalismo são fechados em nome de um futuro supostamente promissor. Ninguém declara, mas a crença na terra prometida (que nunca chega, diga-se de passagem) legitima o esmagamento de índios, pobres, pretos e favelados. Em nome do céu, produz-se o inferno.

O caso brasileiro é paradigmático porque é interessante notar em seu interior as tentativas de bloqueio dos conflitos, tanto à esquerda, quanto à direita. O experimentalismo lulista, por exemplo, fechou-se de vez sob Dilma Rousseff. A primeira mostra disso foi a briga interna entre Dilma e Marina Silva ainda no Governo Lula, quando o desenvolvimentismo vulgar e germinal da desastrosa Nova Matriz Econômica (NME) venceu de vez a política ambientalista e impôs as alianças com a Odebrecht, Camargo Correa, BNDES, Sérgio Cabral, Eike Batista e companhia em torno do PAC, da Copa, das Olimpíadas,  sempre regadas com os propinodutos, petrolões e Caixa 2, desvendados pela Operação Lava-Jato.

Curiosamente, alguns anos depois o petismo-governista acusou Marina Silva de fazer o jogo do setor privado, esquecendo-se de que Lula havia abraçado a turma do Cabral (…) Sim, a mesma turma que roubou tudo o que podia roubar e hoje está na cadeia.

Não deu outra! Ao fechar o espaço conflituoso do experimentalismo, os governos petistas começaram a ruir.

Dilma venceu a eleição presidencial de outubro de 2014 com uma margem muito estreita de votos (cerca de 3%) numa campanha baseada primeiro na garantia de que o país não estava à beira de uma grave crise e segundo, no compromisso de que não adotaria as políticas neoliberais de “ajuste fiscal” no contexto da crise econômica mundial.  Entretanto, depois de eleita e já nas primeiras semanas de 2015, ambos compromissos foram descaradamente rasgados e o governo deu início a um terrível ajuste fiscal, inclusive com cortes de direitos sociais.

Sobrepondo política econômica à política social, os governos petistas perderam uma grande oportunidade de quem sabe propor um “Ajuste Fiscal Cidadão” mais ou menos nos termos sugeridos por Célio Turino.

O agravante é que a narrativa do PT em 2014 foi a mesma de 2006 e 2010, isto é, a oposição entre o “nós” vs. “eles”, pela qual, o “nós” é sempre o povo que precisa ser defendido/tutelado da ameaça privatista representada por “eles”. No discurso eleitoral, não faltaram peças publicitárias para dizer que o voto nos tucanos era um retorno à onda de privatizações, ao arrocho salarial, à época em que pobre não comia carne, nem andava de avião, justamente porque no “momento da crise” os governos tucanos “cortavam dos pobres e privilegiavam os ricos”. Passada a eleição, a população descobriu que o mesmo PT que disse isso na TV, com a maior cara de pau do mundo, escondeu uma crise econômica catastrófica e convocou os figurões ligados aos bancos (como Joaquim Levy) para capitanear o corte de “gastos” sociais.

Tudo isso, convém lembrar, após montar uma pesada máquina de marketing eleitoral alimentada por dinheiro sujo que simplesmente triturou Marina Silva, numa das maiores campanhas difamatórias da história, nos moldes do que Collor fez com Lula em 1989. Tudo devidamente calculado pelo casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura (Sim! o casal que está preso!)  para replicar a estratégia de 2006 e 2010, já que seria mais difícil explicar para a população as razões de uma dissidência no interior de seu próprio processo.

A exemplo disso, todo o projeto político das novas esquerdas latinas girou em torno da ideia de “governar para os pobres”, quando na verdade deveria ter deixado os pobres realizarem seus próprios governos. Noutras palavras, continuaram abafando as milhares de mensagens abafadas da periferia, sucumbindo à tentação de falar em nome dos outros. Nunca é demais lembrar, como já salientou Maurizio Lazzarato, que o governo para os pobres não deixa de ser um governo sobre os pobres.

Para sustentar essa ilusão do governo para os pobres, esse discurso fala muito de desigualdade, mas muito pouco de exploração. Um dos pontos fundamentais da crise epistemológica das esquerdas é que por dogmatizar seu pensamento, esse campo já não consegue mais compreender o capital como uma relação social, como uma trama que organiza a própria sociedade e o Estado. Em vez disso, o capital surge como um princípio organizador de fora, desde o alto, contra o qual o Estado pode supostamente se levantar. Esquece-se com isso que essa relação se caracteriza sempre com o antagonismo que lhe é inerente. As grandes mudanças da composição social, especialmente da proletarização nas condições do Sul implicam necessariamente na proletarização de condições decorrentes do regime pós-fordista.

O resultado desse equívoco teórico se manifesta na luta política prática de forma muito desastrosa. Os governos ditos progressistas passam a oscilar entre a exacerbação nacionalista violentamente estatal (as vezes até com viés militarista) e a aliança supostamente conciliatória entre os oligopólios econômicos e os movimentos sociais.

Aí nesse ponto, é preciso ter calma para não jogar fora o bebê juntamente com a água do banho.

É evidente que reconheço a potência questionadora do nacionalismo. Como bem salientaram Negri e Hardt há elementos “potencialmente progressistas” no nacionalismo, “particularmente durante as lutas de libertação nacional, os nacionalismos têm funcionado como bancada de trabalho para a experimentação de numerosas práticas políticas”3. No entanto, a exacerbação do nacionalismo frequentemente têm empurrado experiências interessantes para o abismo da história. Essa advertência aparece de maneira magistral na obra de Frantz Fanon4. O autor, ao trabalhar como psiquiatra na Revolução Argelina explica que como num sistema termodinâmico, a violência que entra tem que sair por algum lugar, se manifestando nos distúrbios mentais dos colonizados (a violência autoinfligida), assim, na luta de libertação nacional, os corpos antes torturados e em sofrimento tendem a redirecionar essa violência para fora, contra o colonizador. Porém, uma vez alcançada a independência, a nação e o nacionalismo voltam a ser obstáculos para a construção de formas inovadoras de convivência, já que retomam relações sociais e formas de organização que já não dialogam com o novo mundo que precisa ser construído (muito menos com um mundo culturalmente globalizado).

Como se vê, no campo progressista nem a exacerbação nacionalista, nem a sanha conciliatória são formas de atuação política que dão conta dos fenômenos relacionados a essa nova proletarização nas condições do Sul, e o que é pior, refletem na postura “reativa” (e as vezes reacionária) com relação aos levantes dos indignados. Foi assim em 2013, quando os intelectuais petistas trataram de sair da caverna para denunciar as Jornadas de Junho, sem minimamente compreendê-las. Foi assim na Venezuela de Maduro, terrivelmente reprimida, nas sublevações de junho de 2015 no Equador, e na Marcha dos indígenas contra Evo Morales na Bolívia.

Na hipótese da exacerbação nacionalista, pode-se inclusive acionar os “militares” contra os discordantes do projeto hegemônico sem nenhum constrangimento, ao passo que na hipótese conciliatória, os conchavos de gabinete juntamente com as festinhas regadas a propina esmagam as forças verdadeiramente progressistas. Em suma, tudo termina em “pizza”.  Em todos esses casos, as insurreições são criticadas, condenadas e até reprimidas pela esquerda, que não entende o que está acontecendo e tenta (re)encontrar desesperadamente um elemento externo que explique a derrocada de sua popularidade.

Às vezes a culpa é depositada num imperialismo abstrato, as vezes na elite, e às vezes na crise econômica, mas sempre num inimigo externo. Em que pese a importância desses fatores (que realmente atuam no submundo da política) é realmente difícil de acreditar que absolutamente tudo seja culpa da mídia,  do capital internacional, ou dos ianques. Não podemos esquecer que a Venezuela continua vendendo petróleo para os norte-americanos em troca de seus dólares, a Petrobras brasileira continua financiando propagandas nas revistas do Grupo Abril,  e no meio disso tudo, Lula posa com Sarney e com Renan Calheiros perdoando os “golpistas”.

Se almejamos re-pensar e re-criar um projeto alternativo de desenvolvimento, precisamos atacar esses pontos, da mesma forma como precisamos rever o mecanismo econômico de resposta às crises políticas da economia que é sempre economia política.

Tanto para os nacionalistas entorpecidos, quanto para os conciliadores, no momento da crise, o pressuposto é o mesmo, a grosso modo, uma aplicação soft de Keynes, contrabalanceada por opções conservadoras para garantir o equilíbrio fiscal (…) períodos de intervencionismo estatal intercalados com ajustes fiscais duros.

Assim, do ponto de vista econômico, a leitura por um lado, é de que o investimento determina a demanda efetiva (visto que não se produz para distribuir, mas se distribui para produzir); e por outro, que nas condições periféricas é preciso também comandar o avanço industrial e tecnológico. Decorre desse raciocínio um imperativo: acumular capitais para se investir na industrialização acelerada.

Qual seria a estratégia?

Esses capitais, em tese ampliam a capacidade produtiva, alteram a composição das importações e diversificam a economia. Entretanto, como a relação entre centro e periferia do capitalismo é estruturante, não resta aos governos do sul senão fazer uso dos excedentes acumulados em função de seu posicionamento inicial, surgindo o “Consenso das Commodities”, ou seja, suas exportações se tornam elemento estratégico de acumulação de capital, ponto de partida para a modernização do parquet produtivo.

Em tese, essa estratégia deveria fortalecer o mercado nacional em relação às flutuações da procura externa, promovendo uma transformação profunda da economia nacional e, finalmente, rompendo o círculo vicioso da dependência estrutural. Desse modo, a industrialização seria a via de superação da pobreza e o Estado deveria planejá-la e controlá-la na medida do possível, quer seja por meio de um grande e ilusório pacto nacional de conciliação, quer seja por meio de um governo dos trabalhadores com viés militar.5

No meio desse duro debate em busca de um projeto alternativo de desenvolvimento, surgiram críticas consideradas “mais à esquerda” dos governos ditos progressistas. No caso brasileiro, que tenho utilizado aqui como caso paradigmático, essa crítica “mais à esquerda” partiu de setores ligados ao PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). A maioria dessas críticas insistiram na tese de que de alguma maneira esses governos não foram desenvolvimentistas o suficiente, que não foram capazes de romper com os entraves neoliberais, que foram cúmplices do capital financeiro, não se fizeram acompanhar por reformas estruturais e um projeto efetivo de emancipação. Surge dessa vertente, os gritos contra o governo venezuelano por não forçar, mesmo que militarmente, a diversificação de sua economia, dependente da petroindústria e, os gritos contra os governos petistas no Brasil por causa de uma suposta “reprimarização” da economia, sem considerar que o agronegócio, por exemplo, seja ele próprio uma indústria de grande escala e mecanizada, totalmente emaranhada às cadeias terciárias da bioengenharia, arquitetura financeira,  e comercialização.

Em síntese: para essa “esquerda” tanto na Venezuela quanto no Brasil faltou mesmo é mais estatização, ainda que por vias autoritárias.

Uma segunda vertente crítica, ainda classificada no campo progressista, brotou no Brasil representada por Marina Silva e sua “Rede”, que se limita a criticar os excessos extrativistas, cotejando o corte desses excessos com mais capitalismo, mais política econômica conservadora sobrepondo-se à política social.6

Ambas as críticas, contudo, perdem radicalidade ao reduzir as experiências dos governos latino-americanos a um conceito de desenvolvimento completamente atrelado às taxas de crescimento do PIB.

Isso tudo é muito preocupante, porque um debate sério em torno de um novo projeto de desenvolvimento, realmente NOVO, precisa descer aos fundamentos epistêmicos do que entendemos por “desenvolvimento”, e no afã de sair do buraco em que se encontra, as esquerdas tem sido seduzidas pelo canto da sereia, isto é, pelas soluções de retoque e não por uma ampla e trabalhosa revisão do seu aparato teórico.

Vale lembrar que os governos progressistas emergiram de mobilizações democráticas altamente questionadoras em todos os casos, e isso, estranhamente sequer tem sido mencionado nas novas propostas para saída da crise atual. A Revolução Bolivariana de Chávez surgiu das sublevações populares na esteira do Caracazo (1989); a Revolução Cidadã do Equador a partir das revoltas urbanas de 1997, 2000 e 2001, até a rebelión de los forajidos em 2005; a Revolução Democrática e Cultural da Bolívia, resultado do ciclo insurgente de 2000-2005, com destaque às guerras da água (2000) e do gás (2003). Nos casos de Brasil e Argentina, a crise asiática de 1997 precipitou o desmoronamento da relativa estabilidade de preços construída pelos governos neoliberais, culminando na ingovernabilidade argentina de 2001-2002, – quando explodiu o tumulto dos piqueteros e cacerolazos, ao que se seguiu o kirchnerismo, – e na ascensão eleitoral de Lula, que havia sido derrotado nos três pleitos anteriores (1989, 1994 e 1998).

Todas essas insurgências e revoltas convergiram com o chamado “ciclo alterglobalização” de Seattle e Gênova, passando por Chiapas e pelos Fóruns Sociais Mundiais. Essa miscigenação das esquerdas mais tradicionais com a geração autonomista da década de 90 e com os ecossocialistas redundou nesse conjunto de vitórias. As mobilizações democráticas, como se vê, transmitiram um impulso criativo especialmente no campo das políticas sociais. O que se vê, no entanto, é que nos períodos de crise financeira, as respostas que emergem desconsideram o vetor radicalmente democrático para impor soluções sempre limitadas ao campo econômico. De alguma maneira, ainda se crê que o “social”, o “democrático”, o “ambiental” são meros acessórios do principal, que é a economia e o imperativo do acúmulo de capitais para a industrialização, quando na verdade e há muito, o capitalismo já se apropriou dessas dimensões, alterando substancialmente a própria noção de trabalho.

Ao cabo, essa perspectiva de que a industrialização é o principal e as políticas sociais são meros acessórios, é além de tudo absurdamente ultrapassada porque desconsidera completamente a grande transformação econômica do presente século que inclui nos cálculos capitalistas a criatividade, o trabalho em equipe, as novas tecnologias da comunicação, a multidisciplinariedade e o Intelecto Geral.

Sei que é difícil para as esquerdas abrir mão de alguns dogmas, mas se de fato pretendemos construir um projeto alternativo de desenvolvimento, isso será necessário. A questão é que se já não é possível sonhar com uma classe trabalhadora nos moldes do fordismo e com um Welfare State no padrão europeu da década de 60, precisaremos reinventar novas formas de organização do Estado e da Economia que não desconsiderem a potência das mobilizações democráticas. Minha hipótese é de que o redirecionamento do orçamento público voltando-o para a radicalização da democracia e da cidadania, poderá, quem sabe, desbloquear a produtividade do trabalho, reinventando a economia “desde baixo” e promovendo um período consistente de combate à exploração.

Para isso, claro, é preciso desfazer a chave conceitual equivocada de que a política econômica é anterior às políticas sociais.

Há propostas extremamente interessantes como a antiga (mas inovadora) proposta de Eduardo Suplicy em torno da Renda Básica e Universal de Cidadania, que sem pesadas mediações do Estado ou mercado, pode transferir renda, elevar o salário real e não apenas ampliar o crédito popular, mas a oferta empreendedora de novas formas de economia popular, com o reconhecimento do que hoje se chama de trabalho informal. O efeito desta transformação poderia talvez se desdobrar em múltiplas escalas e dimensões, determinando uma mudança profunda e duradoura nas sociedades sul-americanas.

Essa abertura para o social, que pretende enxergar as políticas sociais como estratégia fundamental, tão importante quanto as decisões macroeconômicas é sempre uma “abertura inovadora”, um “ineditismo viável”, uma “experiência criativa”, que pode se tornar uma veia de saída não apenas para as esquerdas, mas para o campo progressista latino-americano em geral.

Infelizmente isso parece escapar inteiramente ao campo de análise da esquerda dita tradicional, que prefere “copiar e colar” estratégias formuladas antes do deslocamento do fordismo-keynesianismo nos anos 1970, antes, portanto, da globalização financeirizada e que perderam vitalidade, tornando-se, na verdade, em grande medida neutralizadas pelos deslocamentos do conceito de trabalho.

Essas teorias geradas no contexto dos anos 70,  possuem interessantes apontamentos, mas que hoje se mostram limitados. Elas enxergavam, por exemplo, na industrialização o melhor caminho para a emancipação, seja à esquerda pela formação de um operariado com consciência de classe, ou pela via das “reformas de base”; seja pela direita, por meio da fixação desenvolvimentista autoritária da ditadura brasileira (1964-85), com o 2º Plano Nacional de Desenvolvimento (PND).7

Neste último caso, é curioso notar que o PDN concluiu o ciclo do aço no mesmo instante em que o mundo produtivo já abria a revolução do silício, começando pela Califórnia, isto é, tratou-se de um plano com delay em relação à dinâmica econômica global.

Hoje, três décadas depois, em pleno século XXI, com o avanço das novas tecnologias, o setor produtivo não coincide  completamente com o setor industrial.

Isso precisa ser levado em conta na hipótese de um projeto alternativo, já que a maioria das ideias atualmente debatidas pelo campo progressista  seguem indexadas numa métrica do valor que não funciona mais da mesma forma, além de ser sobredeterminada pela socialização do capital operado pelas finanças. A tentativa de induzir uma sociedade de pleno emprego por meio das inversões se tornou assim uma miragem, causando um paralelo acúmulo de capitais nas mãos dos mesmos grupos oligopolistas e proprietários que, pelo menos no discurso, deveriam ser combatidos.

A questão é que se estamos no meio de uma grande e importante transição nesse início de século XXI, qualquer estratégia inteligente de desenvolvimento precisa considerar em seu interior o conjunto de transformações que se avizinha. A possibilidade de delay pode comprometer a estratégia por conta da velocidade das mudanças. Por isso que não basta pedir mais industrialização, é preciso ousar e quem sabe aproveitar o impulso e redesenhar completamente a economia sem perder de vista a reabertura dos conflitos inerentes ao experimentalismo democrático.

Na experiência latino-americana recentemente abatida em pleno voo, alguns aspectos nos ajudam a pensar a força de um projeto alternativo. Assim, é preciso destacar a importância dos processos constituintes boliviano e equatoriano, que emplacaram tendências de mobilização produtiva por fora, isto é, a construção da sociedade plurinacional baseada no Bem Viver sob Evo Morales, ou o tecnopopulismo voltado à economia do conhecimento sob Rafael Correa, – cujo modelo é muito menos Cuba, e muito mais a Coreia do Sul. A abertura dessas perspectivas rompeu pelo menos em parte com o discurso marxista de linha dogmática, que é exatamente o lugar conte aparece mais claramente o limite interno do projeto da velha esquerda.

Como já mencionado, fala-se muito em desigualdade, mas não em exploração. O capital não é entendido como uma relação social que, desde a sua trama, organiza a própria sociedade e o Estado. Duas entidades quase metafísicas em choque: de um lado o Capital (e, portanto, o capitalismo) e de outro o Estado Social (o socialismo democrático). A guerra de titãs, entretanto, não passa de ilusão.

Não à toa, as mobilizações de grande escala entre 2013 e 2015 foram imediatamente classificadas como uma tentativa de desestabilizar o Estado (e assim o projeto socialista democrático) a serviço da suposta restauração neoliberal e do imperialismo ianque. Isto aconteceu, por exemplo, no levante das Jornadas de Junho no Brasil de 2013 (em ressonância distante com o que se vayan todos! Argentino em 2001), na Venezuela do começo de 2014 e em 2017, nas sublevações de junho de 2015 no Equador, entre outras.

Mas a coisa não para por aí: na sua crise epistemológica, em sua completa incapacidade de compreender o acontecimento, a velha esquerda desqualifica todos os casos de mobilização por fora dos aparelhos que ela considera apropriados.  Tudo o que não está alinhado ao sindicato, aos partidos, aos movimentos que são mera correia de transmissão, e aos sempre-velhos-e-mesmos mecanismos de representação, é prontamente reprimido como vandalismo (Brasil), golpismo (Venezuela) ou terrorismo (Equador).

Rosa Lugano, num belo texto nos ensina que quando Emir Sader e companhia comemoram a derrota da “ultraesquerda”, com esse termo o autor se refere a “todo aquele que, tendo participado da luta contra o neoliberalismo nos anos 90, decidiu diferenciar sua construção política em relação aos governos.” Isto é, nesse conceito “entram desde os piqueteros argentinos que apostavam na autonomia dos movimentos sociais até aqueles que, na Bolívia ou no Equador, se opõem ao modelo extrativista. Quer dizer: todos aqueles que desejam mudar o mundo sem tomar o poder, entre os quais se incluem, desde já, os zapatistas”. Para Sader e sua turma, o neoliberalismo é apenas uma fase de governo. Perdida a eleição pelos neoliberais, logo o neoliberalismo some, quando na verdade sabemos que nada disso ocorre de fato.

O neoliberalismo continuou atuando por dentro e através dos governos petistas. Isto porque, como dizem os zapatistas, a questão é da luta da vida contra o neoliberalismo, já que essa praga resistente é também um modo de vida, ou melhor, um modo de administração da vida. Entender o neoliberalismo como fase de governo ou como marca de um partido é um erro crucial porque mascara a realidade de que o neoliberalismo atravessou a experiência progressista da América Latina. Falar em “pós-neoliberalismo” é uma fantasia eleitoral. Ele é um fenômeno global do capital que se reproduz também a partir da hegemonia das finanças, da generalização de estratégias de racionalidade empresarial e do fortalecimento da ideia de concorrência.

A interrogação de Rosa Lugano deve ressoar também na cabeça daqueles que no meio dessa hecatombe tentam reconstruir a ideia de um projeto alternativo de desenvolvimento que rompa com o neoliberalismo:

“Não seria melhor admitir que o protagonismo dos movimentos e lutas contra o neoliberalismo foi fundamental e que os governos chamados progressistas não nascem de um repolho (ou de um súbito relâmpago) e que, à diferença dos partidos que envelhecem quando viram estado, os movimentos têm outros tempos, outros ciclos, outros modos e outros horizontes, sendo inclusive o desafio maior, para estes últimos, não se converter em estruturas burocráticas ao realizar experiências com o estado? Não seria uma boa notícia que os movimentos sociais extremo-antineoliberais recompusessem a agenda e a capacidade de luta todas as vezes em que estivessem em falta?”

Geralmente rejeitada pelo discurso economicista, essa parte da esquerda que é taxada de “meramente cultural”, “sonhática” ou demasiadamente “utópica”, tem coisas interessantes a dizer. Em outras palavras, muito além da defesa da reindustrialização, não deveríamos também ouvir e quem sabe até mesmo cooperar com essa esquerda geralmente rejeitada e que é capaz de tecer redes de produção de novos sujeitos que resistem ao neoliberalismo e ao racismo? Não deveríamos construir alternativas com aquela potência libertária autônoma que não caiu no feitiço de apenas ocupar o Estado mas que, antes, sonha em transformá-lo? Não deveríamos compreender que as minorias ingovernáveis é que podem refundar o político?

Bem longe disso, a velha esquerda insiste em democratizar por vias autoritárias. Em construir uma narrativa majoritária que se transforma numa espécie de contrato de adesão.

Onde está a esquerda? Onde foi parar a capacidade criativa? A contestação libertária? Cadê a imaginação política?

Esse marasmo em que nos encontramos é bastante estranho porque revela um laço oculto entre os governos de “esquerda” dirigidos por partidos outrora autoproclamados libertários e o Estado, que agora é defendido com unhas e dentes. Para aqueles que não se venderam, é muito incômodo esse laço secreto entre o projeto da esquerda tradicional e o Estado, já que num contexto libertário deve-se caminhar para a supressão e não para o agigantamento do aparelho Estatal. Trata-se de uma esquerda que faz uma salada de marxismo e hegelianismo, onde o Estado aparece como síntese privilegiada de uma dialética que tende a tudo justificar pela “correlação de forças”.

A questão é polêmica e provocante, mas absolutamente pertinente. Se por um lado, na atual conjuntura (e infelizmente), o Estado ainda é imprescindível, por outro, onde está o ímpeto anticapitalista de construção de outro mundo? Qual dos programas e projetos até o momento debatidos apresentam essa perspectiva, para além do consenso estatista?

Esse progressismo, incapaz de ultrapassar o mero controle do aparelho de Estado é extremamente limitado porque compreende a correlação de forças como um determinante para suas ações, e isso meus caros, simplesmente encerra a imaginação política. O projeto que está no horizonte, quase sempre nunca claro, permanece no horizonte como uma ilusão distante capaz de justificar os desvios de rota e conduta, o sincretismo com a direita e a roubalheira em nome da revolução que nunca vem.

E a dialética, nesse ínterim, aceita tudo: o petismo levantando bandeiras vermelhas sob a solidariedade da oposição socialista, ao mesmo tempo em que governava com as oligarquias e proprietários conservadores. Dilma, a ex-guerrilheira, por exemplo, abraçou Kátia Abreu, ícone do agronegócio (…) montou um governo composto por Miguel Rossetto mas também por Gilberto Kassab e Joaquim Levy (…) um governo que defendeu o Bolsa-Família mas ao mesmo tempo apresentou no Congresso Nacional a proposta de um ajuste fiscal que cortava direitos trabalhistas. Isso sem falar no Lula, tentando desesperadamente emplacar o banqueiro Henrique Meirelles como ministro da Fazenda de Dilma Rousseff, para acalmar os setores rentistas.

Não basta lamentar, nem apenas constatar o fim do ciclo progressista. Tampouco basta entregar todos os movimentos contestadores no colo das “novas direitas”, como se tudo fosse obra e graça de interferências externas. Nada disso! São insuficientes as críticas que reclamam que os governos não foram socialistas, desenvolvimentistas ou voluntaristas o suficiente, que não fizeram as reformas de base nem organizaram a massa, e que, portanto, entregaram o poder às oposições liberais (Macri, Capriles, Rodas, Temer…). É preciso realizar a árdua tarefa da crítica. E isso demanda tempo e esforço. É preciso reconhecer, antes de qualquer coisa, que de alguma maneira, os governos chamados progressistas ocasionaram pequenas fissuras na dinâmica do poder enquanto mantiveram a abertura para os conflitos, e são essas fissuras que precisam ser trabalhadas.

O conflito precisa ser ativado na construção plural de um projeto alternativo de desenvolvimento, que seja capaz de questionar até mesmo o próprio conceito de desenvolvimento que o lastreia. Esse é o relativo sucesso dos governos chamados progressistas, e o motivo pelo qual sofreram ataques à direita e à esquerda. Ao redor desse grau significativo de sucesso, se desdobraram consequências ambivalentes e antagonistas. Reabrir essa dobra potente e experimentalista sem cair nas facilidades do mercado nem no fetiche do Estado é o grande desafio de quem está comprometido com um projeto alternativo de desenvolvimento…

O resto é mais do mesmo (…)

 

Notas de Rodapé

  1. No final de 2017, o Poder Judiciário boliviano, contrariando as urnas, autorizou Morales a disputar a sua quarta eleição seguida. Se por um lado, pelas bandas de cá surgem gritos estridentes contra a judicialização da política, por outro, a velha esquerda não deu um pio sobre a interferência do Judiciário boliviano no resultado legítimo das urnas.
  2. SADER, Emir (Org.) 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma, São Paulo, SP: Boitempo; Rio de Janeiro: FLACSO Brasil, 2013
  3. NEGRI, Antonio; HARDT, Michael. Bem-Estar Comum,  Record, Rio de Janeiro, 2016, p. 53
  4. FANON, Frantz. Wretched of the Earth, Grove, Nova York, 2004
  5. Note claramente que a primeira estratégia foi adotada pelo Lulismo, ao passo que a segunda estratégia guiou o chavismo. Ambas, porém, comungam o mesmo pressuposto
  6. A própria Marina Silva durante as campanhas de 2010 e 2014, em diversas ocasiões defendeu políticas pró-mercado como a autonomia formal do Banco Central, bem como defendeu a união dos “melhores quadros” petistas e tucanos em torno da restauração do tripé macroeconômico, considerado pela maioria dos economistas progressistas como um modelo extremamente conservador e imobilizador.
  7. Nunca é demais relembrar a velha máxima de Delfim Netto: “primeiro é necessário fazer o bolo crescer para depois dividí-lo”. Como se sabe, o bolo nunca crescia, e quando crescia, ao povo restavam as migalhas caídas da mesa dos poderosos.

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