Pacote anticrime é cortina de fumaça para abafar laranjal

Na berlinda do Congresso, o pacote anticrime elaborado pelo Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, está prestes a sofrer mais um revés. Conforme revela o Estado de São Paulo, a comissão responsável por analisar o projeto pretende rejeitar duas das principais medidas do texto: grande parte da Casa discorda da tal “excludente de ilicitude”, cuja norma isenta punição de policiais em casos de homicídio. O cumprimento de pena após condenação em segunda instância também se mostrou altamente impopular entre o grupo de análise da proposta.

Controverso e polêmico, o pacote anticrime ainda tenta atrair holofotes do Legislativo, que no momento tem como prioridade avançar a Reforma da Previdência. O desgaste das relações de Moro com o Congresso já apresentou seus primeiros sinais em março deste ano, quando o projeto do Ministro foi excluído da agenda da Câmara de Deputados logo após uma série de conflitos com Rodrigo Maia.

Questionado por diversas vezes quando conduzia os trabalhos da Lava Jato, Moro, que dizia não ser “político”, encabeça hoje um Ministério que expõe sérias evidências de crise: um projeto  de segurança pública com normas inconsistentes, picuinha com o Legislativo, instabilidade sobre o comando do Coaf e por último mas não menos importante: o sumiço de Fabrício Queiróz.

A pressão pela aprovação do pacote anticrime seria uma tentativa de abafar o incêndio no laranjal? Investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro mostram indícios de que o senador Flávio Bolsonaro e seu assessor, Queiróz, estiveram envolvidos em peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa entre 2007 e 2018, quando Flávio ainda era deputado estadual do Rio.

Preocupado com a reputação do filho e posteriores desdobramentos do caso, o presidente Jair Bolsonaro declarou estar “preocupado” com a quebra de sigilo bancário e fiscal determinada pelo Tribunal de Justiça.

Ao admitir amizade com o ex-assessor do filho, Bolsonaro não deixou de titubear, mais uma vez, em seu desprezível discurso na tentativa de tapar o sol com a peneira ou – melhor dizendo – na tentativa de apagar o fogaréu levando água em tampa de xarope!

Chama atenção, contudo, o silêncio de Moro sobre tal impasse. Na incansável busca de reverter a todo custo um possível boicote de seu projeto anticrime no Congresso, o Ministro, que sempre se disse ferrenho defensor dos princípios de honestidade e justiça, parece ter se esquecido do paradeiro de Queiróz.

Verdadeiro cabo de guerra no Senado no decorrer da semana, o rumo do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) continua com Ministério da Economia, chefiado por Paulo Guedes, que parece dar de ombros para os problemas econômicos nacionais.

Encarregado de tentar articular a aprovação da Reforma da Previdência, o ministro também parece estar farto das trabalhadas do presidente, chegando a ventilar a possibilidade de sair do país caso a PEC não avance no Congresso.

Deixar o Coaf sob os cuidados da Economia pode aliviar Sérgio Moro de futuras pressões referentes à investigação de Queiróz e Flávio. Todavia, a expectativa é de que o Ministro da Justiça deverá continuar com seus malabarismos para não arranhar ainda mais sua reputação frente a uma das principais pastas do governo e manter o silêncio, neste momento, pode custar caro à defesa da “nova política”

Por Bianca Stella, graduanda em jornalismo pela Faculdade Eduvale de Avaré.

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