GUSTAVO CASTAÑON: A pandemia do corona e a epidemia dos idiotas

A PANDEMIA DO CORONA E A EPIDEMIA DOS IDIOTAS

Em tempos de redes sociais, todos tem opinião sobre tudo. Não acho isso necessariamente ruim.

Mas como eu não sou epidemologista, não quis ficar dando pitaco desde que isso começou. O momento requer seriedade. Quem me conhece sabe que grande parte da minha vida acadêmica se dedica à defesa da ciência moderna num dos locais mais hostis possíveis, os ICHs infestados de pós modernos. Conheço e dou aulas sobre métodos, suas forças e limitações, e há quatro anos terminei meu pós-doc no primeiro centro dedicado à filosofia de políticas públicas baseadas em evidência no mundo. Sim isso existe.

Ainda assim não vou discutir métodos ou modelos epidemiológicos. Tem gente mais gabaritada do que eu para isso, com acesso a mais dados do que eu pra isso. Como psicólogo e filósofo no entanto, quero dar pitaco sobre outra epidemia que está se espalhando no Brasil: a epidemia dos idiotas. É importante que as pessoas reconheçam os sintomas da idiotice em momentos em que a sabedoria é tão necessária.

O idiota é matéria prima do mundo: ele é inevitável.

Em alguns casos, o idiota somos nós mesmos, que acreditamos, a maior parte do tempo, não ser.

É evidente que um idiota não poderia deixar de fazer idiotice em um cenário de pandemia.

Esmagado pelo senso de sua pequenez e impotência tanto política como para a fragilidade da vida humana, o idiota faz de tudo para acreditar que alguém, em algum lugar, tem controle sobre tudo o que acontece e, é claro: está querendo o fazer de idiota.

O idiota, que luta violentamente contra seu complexo de inferioridade, precisa sempre mostrar que está contra a opinião majoritária para afirmar sua independência em relação à outras mentes reconhecidas socialmente como mais capazes que a dele.

É claro que nadar contra a opinião majoritária algumas vezes é sinal de independência, e até de caráter.

Mas nadar contra a opinião majoritária sempre, nas mais pequenas coisas, e principalmente, nadar contra a opinião majoritária dos cientistas de uma determinada área, que estão tomando suas decisões com base nas melhores evidências e modelos disponíveis, é sinal inequívoco de… idiotice.

A idiotice agora – e canalhice, muita, vamos deixar claro – é dizer que o Corona Vírus é uma gripe como qualquer outra.

E se ele é uma gripe como qualquer outra, então há uma conspiração internacional para criar pânico. Aqui é inevitável lembrar algumas coisas que os especialistas tem concordado:

a) O Corona Vírus não é uma gripe como qualquer outra porque em uma proporção não desprezível dos casos, cerca de 5%, ele provoca uma pneumonia severa e incomum;

b) O Corona Vírus não é uma gripe comum porque as gripes comuns estão circulando por aí e a maioria já está imune a elas, não pegam todos ao mesmo tempo. O Corona Vírus tende a infectar 100% da população em pouco mais de um ano;

c) A maioria ficará completamente assintomática, mas com essa proporção toda de gente pegando pneumonia ao mesmo tempo, e um terço delas precisando de respiradores para sobreviver, a taxa de letalidade aumenta porque não há meios para todos. Isso só começou a acontecer na Espanha e Itália, os números atuais portanto, enganam os idiotas;

d) Do ponto de vista individual, para alguém forte na faixa dos 40 como eu, o Corona vírus de fato não representa um risco maior que a gripe, que ele representa para quem está acima dos 60. MAS DO PONTO DE VISTA COLETIVO, SIM. Fico em casa não por mim, mas para não ser vetor do vírus.

e) A onda de corona vírus não desaparecerá, ela virá em ondas por um ano. Já está voltando na China agora. Distribuir, principalmente nesse primeiro momento, o número de casos ao longo do tempo dará mais tempo para o sistema de saúde se preparar e diminuir a taxa de letalidade, e eventualmente encontrarmos remédios que funcionam contra os efeitos do vírus.

f) Caso o Brasil não opte por confinamento nesses primeiros meses e não invista pesado em respiradores para ontem, a tendência é de um milhão de mortos por causa do Corona Vírus sim, entre pneumonia e todas as outras condições que precisam de UTI e ficarão sem.

Mudar isso é uma função de agir com consciência e com a ciência, e não resultado de qualquer rebeldia contra um governo mundial ou o partido comunista chinês.

Como diz o Mangabeira, a esperança é o resultado da ação, e não sua causa.

Se revertermos esse cenário, os idiotas falarão que os cientistas erraram e eles estavam certos.

Faz parte, espero que eles tenham essa pequena satisfação.

A vida deles é feita dessas pequenas satisfações.

Pois o rebelde quer mudar os fatos.

O idiota, os negar.

GUSTAVO CASTAÑON A pandemia do corona e a epidemia dos idiotas

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