A pandemia como sintoma do salve-se quem puder de uma doença maior

Pode parecer uma obviedade dizer isso, mas, contraditoriamente, o caráter errático de nossas vidas é visto ao contrário – ou seja, como se nós e tudo ao nosso redor tivesse algum sentido definido previamente com alguma finalidade para o futuro. Nossa pretensão de racionalidade holística fica de quatro no chão e completamente desorientada diante de eventos que parecem fatalidades casuais, como mais uma pandemia provocada por um novo vírus.

Entretanto, nada disso que estamos vivendo é fruto do acaso, do erro humano ou de alguma intenção obscura e maligna. Outras pandemias virão pelo andar da diligência capitalista. Aqueles que acreditam em algum tipo de deus ou de forças cósmicas do além talvez fiquem mais apaziguados, resignando-se com explicações sobre forças inelutáveis. Para estes, tudo faria parte de uma conspiração inexorável de elementos transcendentes, inefáveis e inextrincáveis para o destino humano.

Diferente e nevrálgica é a visão crítica segundo a qual nós é que fazemos nossa própria vida, ainda que não como desejamos e podemos, mas sim a partir de determinadas circunstâncias históricas. E estas, por sua vez, não ocorrem de forma matematicamente mensuráveis como se os eventos sociais pudessem ser separados em lados diferentes de equações de segundo grau ou em fórmulas trigonométricas.

Quando o infante capitalismo nascido na Inglaterra expulsou os camponeses para cercar as terras a fim de produzir lã para o comércio, essa escolha resultou de uma deliberação de determinados atores em meio a circunstâncias específicas. A alternativa gerou resultados não pensados e nem dimensionados ou desejados pelos autores das escolhas.

A aglomeração dos camponeses expulsos em locais tidos como “cidades” era o prenúncio das futuras contradições e conflitos do novo modo de produção, começando a deixar de ser feudal. E que gerou problemas agravados depois com o chamado “progresso” a partir da industrialização. Sobrou para o Rei dar conta desse povo nas ruas.

Note-se que, no capitalismo, o bebê comércio nasceu primeiro que o bebê indústria. E comércio tem a ver com expansão territorial, invasões e guerras. Embora um tenha nascido primeiro que o outro, quando deram-se as mãos, nunca mais puderam se largar, pois um não conseguiu mais viver sem o outro, muitas vezes de forma neurótica, tensa e esquizofrênica.

Nascimento e desenvolvimento do modo de produção não são planejados e conduzidos em pranchetas de técnicos, artesãos de guildas ou gabinetes de monarcas, presidentes ou insurretos, mas sim processados de forma conflituosa por grupos e classes sociais na divisão social do trabalho. A arena desses conflitos é o chão da economia.

É uma trajetória que inclui busca de regiões e recursos por sobrevivência e reprodução da vida humana. Esse processo acontece dentro de circunstâncias específicas e com os germes da mudança já postos pelo desenrolar anterior da história de cada formação social em interação com outras formações dentro de complexos contraditórios locais e internacionais.

Tudo isso, claro, fazendo parte do metabolismo do ser humano com a natureza. O termo pré-história é uma arbitrariedade da arrogância científica. Assim também os limites convencionais que separam feudalismo e idade moderna. Antes da escrita, os seres humanos já viviam em metabolismo com a natureza e, portanto, construíam uma história.

Quando nascemos, nós, aqui, “evoluídos”, no tempo contemporâneo, as instituições já existem, mas não como fatalidade, e sim como algo que podemos e devemos mudar. Temos o poder de fazer escolhas de futuros, diferentemente das outras espécies de animais. Mesmo que não consigamos alcançar esses futuros. E um requisito para mudar as coisas é compreender como elas nasceram e se desenvolveram e como funcionam hoje.

Não se trata só de teoria ou abstração, mas sim uma forma esquemática e simplificada de jogar luz a certas opacidades para arrostarmos nossa vida como algo concreto. Vale dizer, algo de natureza materialista, e não esotérica, ou seja, nossa vida que têm explicações possíveis e plausíveis se usarmos a história como método. Grosseiramente resumindo, significa dizer, se procurarmos entender a gênese de nossas formações, isto é, como chegamos até aqui.

E um dos fenômenos mais opacos para o entendimento esotérico é a trama de vínculos entre comércio e guerras (seja as convencionais ou as híbridas da atualidade). Seres humanos não fazem guerras apenas por uma suposta propensão e sede genética por derramamento de sangue. Se o comércio transformou-se no cúmplice-contraditório-amigo-da-onça da indústria, pode-se dizer que as guerras bailam no teatro subconsciente de todo comércio, às vezes de maneira mesmo explícita na vida acordada e descarada.

Não existe economia pura, simplesmente – mas sim economia política, essa é a percepção genial de Marx e Engels. Comércio, industrialização, desenvolvimento de novas tecnologias e pandemias provocadas pelo manejo e cultivo em larga escala e massiva de espécies animais fazem parte de um conjunto de complexos contraditórios (relacionados à política, direito, economia, cultura), envolvendo a expansão territorial através da ocupação, colonização e guerras entre forças mais poderosas e outras mais fracas em diferentes dimensões e fatores.

Através de um olhar pendular, digamos assim, da dedução abstrata para a indução empírica, e vice-versa, pode-se compreender por que a atual pandemia parece ter pego de surpresa governos e populações do mundo inteiro, assim como outras pandemias do passado, tão graves como essa, também surpreenderam governantes e sociedades despreparadas.

Todas as sociedades estavam despreparadas nos séculos passados – e as atuais continuam despreparadas – porque o caráter errático do sistema capitalista é induzido pela espírito privatista e concorrencial, como se isso fizesse parte da “natureza humana”, imbricada na lógica da produtividade dos processos industriais diversos. Estes ocorrem nas relações entre público e privado através de uma suposta e mentirosa racionalidade econômica baseada no mantra da não interferência dos estados.

Contraditoriamente, não querem estado (a política pública) mas querem benesses garantidas por ele (a sua própria política pública privatista) para estimular proteção, concorrência, produtividade, afastamento da barreira natural, destruição da natureza, produção de doenças, genocídios de populações indígenas e outros escombros.

Enfim, o capitalismo é o salve-se quem puder institucionalizado – essa é a verdade. Sua expressão jurídica na forma do estado que conhecemos – e que muitos reduzem à “administração pública” – legitima-o através da chamada democracia com seu binômio ocidental hipócrita da liberdade-igualdade – qual seja, a liberdade de contrato para exploração do trabalho humano entre partes desiguais através de leis formais que tornam iguais, de forma fictícia, exploradores e explorados.

O salve-se quem puder necessita, constantemente, de uma mãozinha nada invisível (aliás, mão fortíssima) do estado (outras vezes bem visível e na maior caradura) para impor sempre o estado de exceção (privatista) como normalidade porque o errático nunca pode – e não tem como – acabar bem.

 

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