Lava-Jato como expressão da antipolítica

Em um período que vicejam muitos discursos prontos, muita tentativa de conduzir os acontecimentos com narrativas, muitas pessoas — algumas de forma esperta, pra tentar também vender seu discurso — tomam os fatos pelas narrativas. Há quem hoje já diga que a Lava-Jato não tem alvos preferenciais porque, vejam só, Aécio foi indiciado. E porque parte do PT sustentou a falsa retórica, mas que satisfazia sua base, de que era o único alvo da operação. Dá pra discordar desse discurso petista e, olhando os fatos, enxergar enviesamento na operação. E não é difícil.
Como disse o sociólogo Celso de Barros, a Lava-Jato ajudou a tirar a Dilma do poder e o entregou ao Temer — e com ele a agenda mais agressiva do mercado. Divulgou áudios insuflando multidões a marcharem contra o governo da petista. Cunha com trocentos processos (e aqui falamos do Judiciário como um todo, principalmente do STF) só foi afastado depois de todo o trâmite do impeachment ter sido finalizado — e era justamente esse papel para o qual foi designado. Se saísse ali, no meio, talvez o processo não tivesse se concretizado. E nada foi feito. Pelo contrário: bradava-se que as instituições seguiam os devidos ritos, que a democracia estava sendo fortalecida.
Vocês acreditam nisso?
Poucos se lembram, mas nas duas últimas semanas da campanha de 2014 a Dilma começava a abrir nas pesquisas e parecia se encaminhar para uma vitória relativamente fácil. Eis que do nada áudios vazaram de Curitiba na então incipiente operação Lava-Jato que começara a ganhar páginas de jornais com a descoberta do Petrolão, o escândalo da Petrobrás. Um desses áudios, na verdade uma transcrição, inclusive, virou capa da Veja: Lula e Dilma sabiam, dizia.
Aí agora tem a prisão do Lula, que independentemente das pesquisas de intenção de voto, desde o começo da coisa toda foi colocado como objetivo número 1, o chefe, o centro de tudo — e o PowerPoint do Dallagnol é tão tosco quanto elucidativo. O Lula era a cabeça da cobra que precisava ser esmagada, bradou Janaína Paschoal em um evento que reuniu algumas das principais vozes a favor do impeachment em 5 de abril de 2016. Foi num mesmo 5 de abril, exatamente dois anos depois, que Moro expediu o mandado de prisão de Lula.
Tão tosco quanto elucidativo.
O PT é um alvo fácil da Lava-Jato e é seu alvo principal, mas não é o único, porém. As denúncias contra o Aécio ajudaram a minar seu capital político, mas que já não eram lá nenhuma maravilha. Saiu da campanha de 2014 derrotado em votos e campeão em rejeição, vaiado até nas manifestações que ousou discursar. Mas caiu na vala comum através da Lava-Jato. É inegável. E eu não acredito que a galera da força-tarefa é #TeamPSDB. Isso é tolice, teoria da conspiração ruim. Se assim o fosse bastaria um não-tucano e, pimba, toda a farsa estaria desbaratada. Não dá pra crer numa lógica pueril dessa. Eles, juízes e quejandos, são sim forjados num sentimento moralista de classe média para quem a política muito toma e pouco dá — e na consequente idéia de que cabe ao Judiciário moralizá-la, tomar as rédeas de poder moderador. Não é um sentimento que nasceu agora e justamente por isso que ele se conectou tão bem ao antipetismo.
Voltemos no tempo: o PT foi eleito o maior símbolo dessa política suja porque, lembremos, o PT era o grande fiador popular da Nova República. Era a força política nova que conferia legitimidade às velharias que lá estavam e continuavam, com seu velho modo de ser e agir. Não é à toa, por exemplo, que entre os manifestantes #TeamMoro tenham franjas desejosas do retorno da ditadura militar. Eles enxergam na toga o mesmo poder da farda que foi derrotada pela política. Moro derrotando Lula é como a reencarnação de Figueiredo voltando pra aplacar aquilo que lhe derrotou, tomar as rédeas e impedir o espaço político democrático de resplandecer e mesmo que minimamente representar o interesse do andar de baixo, tido por essa gente como incapaz de votar e decidir o futuro do País naquele típico apelo antidemocrático que tão bem nos descreve — e melhor ainda nossos setores médios e burgueses.
Outro ponto que torna o PT alvo fácil é a orientação desse sentimento antipolítica, que é também antipetista, de que além da política pouco dar, ela ainda lhes tirava algo e dava para outras pessoas — mas agora não para as de sempre, agora para pessoas indesejadas. Leia-se o processo de transferência de renda que os governos do Lula e da Dilma promoveram. Isso desagradou muitíssimo a classe média, dentre ela também a gente do alto estamento burocrático do judiciário e setores que sempre se viram mais iguais do que outros e que passaram a ter de se confrontar com uma realidade que tendia mesmo que pouco a questionar uma sociedade quase estamental dividida em classes que lembram castas. O bolsa banqueiro ou o auxílio moradia indevido nunca incomodaram. O que incomodava era o bolsa família.
Mas aqui abra-se um parênteses importante: o sentimento de antipolítica, um fenômeno que se condensa e junto com o antipetismo são as maiores forças políticas da atualidade, não se manifesta de maneira linear. Ele perpassa desde os grupos que rejeitam a democracia e o processo de inclusão que ela permitiu por meio de políticas públicas e respinga até em parte da esquerda que sente que ela, Nova República, não entregou tudo que deveria. Não é um fenômeno aleatório e indiferente a esse sentimento os movimentos autonomistas que passaram a ganhar muito protagonismo nos últimos anos e sua relação de negação com a institucionalidade e partidos políticos.
Aliás, cabe aqui alinhavar sobre um divisor de águas nesse quiproquó todo: as Jornadas de Junho de 2013. A partir dali o discurso da antipolítica ganhou um outro patamar e se transformou paradoxalmente em força política potente e atuante. Os fetichistas das Jornadas até mais do que seus detratores (que também erram a mão, mas que notaram coisas importantes como um sentimento destrutivo mais que construtivo que dali brotava) erraram bastante a compreensão a limitá-la às pautas generalistas que se apresentavam em cartazes e gritos, como o pedido por saúde e educação padrão FIFA, transporte gratuito etc, mas sem nenhuma orientação específica (Como bem expressou Zizek, sabemos o que queremos, mas não como. E aí reside um grave problema). Ainda que inegavelmente tenham sido mote importante, o grande elemento que explica o momento do estouro da boiada, o 17 de Junho quando milhões foram às ruas no país inteiro, era a repulsa total a tudo que estava aí, a todas as instituições, da imprensa à política. Sobretudo e principalmente a política. Não por acaso a presidente, num regime presidencialista com ares imperiais e figura que mais simboliza toda classe política, viu seus índices de aprovação despencarem e dali em diante nunca mais se recuperar.
E foi nesse momento que o Gigante acordou com seu senso de urgência, mas nem tanto de orientação e profundidade, que a coisa começou a degringolar. Não que miraculosamente essas idéias e sentimentos passaram a ser expressos do nada. Como dito acima, eles existiam, são antigos, havia panfletários e ideólogos, o que inexistia mesmo era uma massa pra encampá-los. As Jornadas de Junho completaram esse ciclo. Tirou a antipolítica de manifestações de grupelhos formados por meia dúzia gritando “Ave Joaquim Barbosa” (sim, eu vi isso) em 2012 quando do julgamento do Mensalão e a entregou para gigantescas marchas celebrando o herói Moro. Tudo muito à direita, por parte daqueles grupos que viram nos últimos 20 anos, mesmo que paulatinamente e de maneira tímida, a política agir pra amainar as imensas fraturas sociais que temos.
Foi nesse desenrolar que o antipetismo, a antipolítica e a negação da Nova República se encontraram. Não é portanto caso fortuito que a Lava-Jato ao interferir diretamente na política tenha deixado a política, os políticos e o Estado ainda mais reféns dos agentes do mercado e econômicos que aprovaram quase todas as reformas que desejavam. E em muitas delas usando-se de políticos notoriamente corruptos, mas aqui não mais ao alcance da operação e da indignação dos seus defensores porque antes precisavam fazer um serviço mais importante: entregar o Estado aos agentes privados, tirar o Estado do alcance daqueles que o espírito que paira na Lava-Jato acusa de não saber votar e de interferir equivocadamente, porque elegendo projetos que visavam mesmo que de forma mínima reduzir a nossa abissal e obscena desigualdade social.

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