CESAR BENJAMIN: O patriotismo crítico de Xi Jinping

Comecei a ler os dois grandes volumes de “A governança da China”, que reúne pronunciamentos do presidente Xi Jinping sobre todos os temas relevantes: desenvolvimento econômico, combate à pobreza, relações internacionais, meio ambiente, defesa nacional, ciência e tecnologia, democracia etc. São entre cem e duzentos pronunciamentos, não contei.

Sinto-me envergonhado. Se somarmos todos os pronunciamentos dos presidentes brasileiros de trinta anos para cá não conseguiremos reunir um só parágrafo que tenha a densidade, a seriedade, o espírito crítico, o patriotismo e o compromisso com valores de um único pronunciamento do presidente chinês.

Países que têm fortes lideranças intelectuais e morais, com pensamento estratégico bem definido, têm muito mais chances que países governados por débeis mentais.

Abaixo, um trecho de um discurso de 2015, que abre o primeiro volume, como uma espécie de apresentação.

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“Na década de 1960, quando eu era um adolescente, saí de Beijing para trabalhar no campo, em uma pequena aldeia chamada Liangjiahe, na província de Shaanxi, onde permaneci sete anos. Vivi em uma caverna, dormindo em uma cama feita de barro. igual às dos camponeses. A vida era muito difícil. Ficávamos meses sem comer carne. […] O que eu mais desejava, na época, era fazer com que os camponeses tivessem carne nas refeições, mas isso era muito difícil.

“No Festival da Primavera deste ano [2015], voltei à aldeia. Vi estradas asfaltadas, todos vivendo em casas de tijolo com acesso à internet, os idosos com seguridade social e seguro médico, e as crianças recebendo educação nas escolas. Claro, carne já não é mais um problema. Isso me deixa mais consciente de que o sonho chinês é o sonho do povo.

[…]

Ao mesmo tempo, sei que a China ainda é o maior país em desenvolvimento. Nosso produto interno bruto per capita é apenas 2/3 da média global e 1/7 do dos Estados Unidos. Estamos em 80° lugar no ranking mundial. Segundo os padrões da China, ainda temos mais de 70 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza. Se medido pelo padrão do Banco Mundial, esse número supera os 200 milhões. […] Nos últimos dois anos visitei muitas áreas pobres da China. Os olhares das famílias, cheios de desejo de uma vida melhor, estão profundamente gravados na minha mente.”

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Nos últimos muitos anos, não lembro de ter ouvido palavras tão sinceras de um líder brasileiro.

Por Cesar Benjamin

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