Petucanismo e Paulistocentrismo: porque NÃO votar em Boulos

Petucanismo é indissociável do conceito de liberalismo de esquerda. O autonomismo fragmentário de Boulos é a continuidade do que há de pior no PT: os anos 90. A tradição que implodiu a unidade de classe e substituiu por um voluntarismo de caráter individualista. Pior: colocou um moralismo udenista anti-política que é o avô da Lava Jato.

É a esquerda paulista elevada ao cubo, com cada um de seus defeitos: incapacidade de pensar na classe como um todo, incapacidade de pensar país, incapacidade de organização que não supere seus estreitos horizontes. Isolacionismo derrotista para manter as aparências.

O que muitos militantes de esquerda não veem é que, tal como em 2013, mais uma vez são massa de manobra. Se naquela fatídica “jornada dos otários”, como dizia Guerreiro Ramos, a “esquerda” foi manobrada pela CIA contra o Brasil, agora os pequenos grupos de estudos e micro organizações são manobrados por uma putrefata ala vermelha do petucanismo desesperada por manter sua hegemonia sobre as migalhas do que chamamos de esquerda. Muita gente pedindo voto pro Boulos pra não ficar feio depois quando encontrar seus amigos nos bares da Santa Cecília.

A questão proposta é bastante interessante: um cara que vem do establishment político paulista é o melhor para derrotar o imperialismo paulista?

Com certeza.

Miguel Costa que o diga. Do coração da Hong Kong brasileira, levantou as tropas em 1924 que se juntariam aos gaúchos de Prestes. Anos depois, seria o comandante militar que levaria a Revolução de 1930 a cabo. Não se pode pensar a Revolução Brasileira sem ser como continuidade e ruptura do Outubro de Vargas. E não sou eu quem diz, é Brizola.

Dividir para conquistar. São Paulo é atravessada por contradições, esmagada por seu próprio imperialismo interno que exerce no resto do país. Setores inteiros do estado vivem sobre a exploração econômica da capital.

O ABC sempre foi polo de resistência. Mas não está sozinho. Na Baixada Santista, porto imperialista como descrito por Eduardo Galeano, abundam um proletariado destroçado pela superexploração. Márcio França não era prefeito de Campos de Jordão: era de São Vicente, cidade empobrecida do litoral paulista, de população majoritariamente negra e caiçara. França soube manobrar por dentro das estruturas de poder paulistas para melhorar a posição de poder de seu município. Lembra muito um govenador nordestino.

O maior ativo da campanha de França é uma completa reestruturação da relação de São Paulo com o resto do Brasil e do estado. Isso passa por um arco de alianças nacional, pela constituição de um heterogêneo e também contraditório (como tudo que é real) movimento emancipatório para o Brasil. Governaria desse modo e contaria com apoio do PSB nacional, do PDT, com forte presença fluminense, gaúcha e cearense. Dória implodiu o PSDB tradicional. A ala “azul” do petucanismo também se desestruturou. São os quadros emergidos desse processo, muitos dos quais reacionários, que comporão o governo paulistano, em consonância com uma estratégia nacional. A crise de hegemonia também se reproduz no interior do coração imperialista da Hong Kong brasileira. Deixar de explorar isso é típico de uma esquerda que só quer saber de derrota, e não de governar.

Ainda que Boulos fosse viável eleitoralmente, restaria o problema de governar. E aí que seu brilho “Vila Madalena” desapareceria. Uma Câmara de Vereadores complexa, um Tribunal de Contas próprio, o 5º maior orçamento da União. Ele teria que compor, como todo e qualquer político, seja na URSS ou no Egito Antigo. E vai compor com quem? Como vocês acham que o “PT anos 90” virou o “PT anos 00”? Curiosamente, o que pavimentou o caminho dessa mutação foi justamente a eleição municipal de Erundina. Agora testemunhamos a farsa dessa tragédia, com muitas figurinhas repetidas.

Boulos é a continuidade dessa lógica liberal de esquerda, fragmentária, apátrida e que não consegue entender o Brasil. Seria obrigado a governar, querendo ou não, junto da Faria Lima. Foi o paulistocentrismo que maculou o PT desde suas origens. O PSOL é ainda pior nesse sentido.

Petucanismo e Paulistocentrismo porque NÃO votar em Boulos

Petucanismo e Paulistocentrismo porque NÃO votar em Boulos

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