A ascensão do populismo militarista neoliberal de Jair Bolsonaro

O ano que começou com a prisão de Lula terminará com eleição de Bolsonaro. 2018: ano 5 do apocalipse brasileiro. De 2013 a 2018, uma frenética produção discursiva foi lentamente operando uma troca de hegemonia política e social no Brasil, que culminou na ascensão eleitoral de um populismo militarista neoliberal. O poder não aceita vácuo. No parlamento, agora contamos com uma tropa de xerifes, com sólida deformação intelectual e moral, dispostos a caçarem comunistas no primeiro apito do comandante. E agora, Brasil? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. E agora, Brasil?

O discurso anticorrupção, já presente nas manifestações de 2013, foi uma semente regada pela imprensa e pela operação Lava Jato, que se consolida já em 2014, a partir de uma série de leis editadas pelo governo Dilma, como a Lei da delação premiada e a Lei anticorrupção, como resposta às jornadas de junho. Enquanto o governo respondia às manifestações editando leis, a Lava Jato prestava contas à classe média por meio de operações espetaculares e interferências diretas no processo eleitoral, o que, contra a vontade dos membros da operação, da mídia e do baronato, contudo, não impediu a reeleição de Dilma ainda em 2014.

Da semente do discurso anticorrupção, brotaram finas flores discursivas. Primeiro, o neoliberalismo: o diagnóstico mais apontado como causa da roubalheira petista foi o do “excesso de Estado”. A partir de então, privatização e desregulamentação viraram panaceia na boca de patos e papagaios. A incompetência da gestão fiscal de Dilma também reforçou o discurso neoliberal e foi a senha para associar a esquerda ao perdularismo e à corrupção, empurrando a futura base social do bolsonarismo para a rua, para meter o golpe.

Outras flores discursivas desabrochadas do discurso anticorrupção foram o moralismo e o elitismo. A corrupção do petismo legitimou o reacionarismo das classes dominantes, que saíram do closet, principalmente a partir do momento em que o cobertor do orçamento público ficou curto para a continuidade de uma política de conciliação de classes. Da avenida paulista, portanto, o moralismo se transformou em antipetismo de classe, estilo Caco Antibes: “tenho horror a pobre”. A versão menos civilizada dos sinhozinhos já delatava, principalmente nos esgotos das redes sociais, o excesso de direitos de “pretos e viados” em relação aos cidadãos de bem. A histeria da visão do inferno foi amplamente compartilhada: a Venezuela não pode ser aqui. Ordem e progresso, já! Em 2015, o andar de cima encorajou assaltantes a tomarem a democracia. A ação de Moro sobe, e Dilma cai. O Jaburu vira um Big Brother. Justiceiros diretos do porão flagram traficâncias entre o vampiro e pessoas jurídicas do crime. Bonner narra a série ao vivo. E o que era antipetismo regado a champanhe se transforma em discurso antipolítico e antissistema, já que a economia continuava travada enquanto a roubalheira corria solta.

E como qualquer coisa que se mova é um alvo, ninguém tá salvo. Agora foi a vez do consórcio Moro-mídia dar paulada na cabeça da jararaca. Lula foi preso em 07 de abril de 2018. Em 28 de outubro de 2018, foi eleito Bolsonaro, que não tinha entrado na história. Leitor compulsivo de Brilhante Ustra, Jair ascendeu nacionalmente a partir de 2011, quando denunciou bravamente um quimérico kit-gay, supostamente proposto pelo ministro da Educação à época, Fernando Haddad, que curiosamente viria a ser derrotado pelo capitão no mesmo 28 de outubro de 2018, após o PT empreender uma estratégia movida por anseios políticos hegemônicos que culminou no colapso de sua própria hegemonia política.

O capitão, espertamente, aproveitou cada lance da crise, articulando ao redor de seu nome todas as demandas, sobretudo, do andar de cima. Para os moralistas, ofereceu a marca “Bolsonaro” como sinônimo de um outsider (kkk) incorruptível, um refúgio moral para uma sociedade espedaçada nesses tempos de crise. Os gestos de arma com as mãos aglutinaram diversas classes que enxergaram no capitão um justiceiro durão. Aos ricaços, doou o posto Ipiranga, indicando o ultraliberal Paulo Guedes para vender o Brasil na bacia das almas para o mercado financeiro. Aos reacionários, o capitão alienou sua formação militar, se colocando como um moderno democrata que ainda caça comunistas e que crê a “questão ideológica” é tão ou mais grave que a corrupção. Já os batalhadores, Jair conquistou tanto pelo seu slogan: “Deus acima de Tudo”, quanto pela fabricação e distribuição de bombas semióticas, por meio da grande distração popular do século XXI: burilar smatphone.

2019. Ano 6 do apocalipse. Começa o governo populista militarista e neoliberal de Jair Bolsonaro. É hora de união e resistência. Sozinho no escuro, qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! Para onde? Continuamos na luta por um Projeto Nacional.

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