A linguagem do populismo militarista neoliberal

Os trechos a seguir foram retirados do discurso de lançamento da candidatura de Bolsonaro à presidência pelo PSL em 22/07/2018.

Em pleno 2018, o capitão diz em seu discurso que “nós não aceitamos o comunismo”. Bolsonaro é populista porque seu discurso é de divisão social. O cavalão inventa um inimigo interno e o interpreta como um óbice à união nacional. Quando diz que “vamos abafar esses pequenos movimentos separatistas que vemos pelo Brasil”, o capitão parece reatualizar a caça aos comunistas típica do período ditatorial, revivendo sua primeira experiência cívica: “eu conheci o exército brasileiro numa de suas operações no Vale do Ribeira… caçando integrantes da VPR- Vanguarda Popular Revolucionária”. Portanto, a fronteira que Bolsonaro estabelece, além de política, é moral e o inimigo não é um adversário político legítimo, mas uma identidade que deve ser exterminada, como os comunistas no período ditatorial. Essa é a fronteira social que o discurso de Bolsonaro estabelece. Nós, os cidadãos de bem, cristãos, que respeitam os valores da “família brasileira”, que praticam suas intimidades em “ambiente propício para tal”, que não contestam a ordem estabelecida de um lado e eles, os “comunistas”, “dos pequenos movimentos separatistas que vemos pelo Brasil”, de outro. O capitão parece desconsiderar valores essencialmente democráticos como o pluralismo social, moral e o pluralismo político, representado por ativistas, movimentos sociais, intelectuais e políticos de esquerda, que, em sua visão, ameaçam a ordem pela “radicalização ideológica”. Para o capitão, a diferença do período da ditadura para hoje, é que “hoje até está mais grave”.

Mudde (2017), interpreta o populismo como uma ideologia hospedeira. Por isso, líderes populistas tendem a apresentar diferentes compreensões sobre a realidade do mundo social. O populismo de Bolsonaro é de direita porque tanto o militarismo quanto o neoliberalismo compõem o arsenal de ideologias que dá conteúdo político a seu discurso: “Há uma diferença enorme de um quartel para o meio político. No quartel, você tem companheirismo, patriotismo, disciplina e hierarquia, amor à pátria. Na política, não”. Aqui o capitão parece lamentar que os valores do mundo da política democrática sejam tão diferentes dos valores dos quartéis. A disputa entre adversários legítimos, a tolerância e a busca por direitos iguais destoam do “companheirismo”, da “disciplina”, da “hierarquia” e do combate ao inimigo.

O veterano parlamentar se mostra tão inconformado para com os valores e os impasses típicos da política democrática que chega a confessar: “há 20 anos eu disse que gostaria de fechar o Congresso. Momento de indignação, de revolta, que todos nós passamos. E eu sou um ser humano que é exatamente igual a todos vocês: têm uma alma, tem um coração”.  O militarismo inscrito no discurso do capitão busca mobilizar dois discursos específicos: o discurso anticorrupção e o discurso da segurança pública. Assim, exalta os valores de hierarquia, obediência e, ao mesmo tempo, diz que: “o entrave é o parlamento. Eu ouso dizer que grande parte dos parlamentares querem agir de maneira diferente do que age os líderes partidários que, na verdade, são líderes sindicais. Vamos tirar o sindicato de dentro do Congresso Nacional”. Ao longo de todo o discurso, o capitão associa a política parlamentar à corrupção e os valores do exército à honestidade e retidão. Portanto, a demanda anticorrupção não é atendida por meio de propostas práticas, mas por meio de uma imposição de valores corretos retirados das forças armadas ao mundo a política, repleta de valores inadequados.

O militarismo de Jair não é nacionalista, porque neoliberal. Bolsonaro foi incorporando o discurso liberal na economia paralelamente ao espraiamento desse discurso nas redes e na mídia a partir do discurso anticorrupção, que se hegemonizou com a crise econômica e com os escândalos de corrupção. Quando oficialmente se lançou candidato, o cavalão já era objeto de elevada admiração pelo mercado financeiro e pelos setores mais ricos e escolarizados da população. Isso porque: “Queremos, prezado economista Paulo Guedes, buscar realmente a liberação da nossa economia. Buscar o liberalismo. Queremos sim mais que privatizar, quem sabe até extinguir a maioria das estatais”. Paulo Guedes foi o primeiro ministro a ser anunciado por Bolsonaro, que o alçou à categoria de seu guru para assuntos econômicos. Banqueiro ultraliberal, Ph.D em economia pela Universidade de Chicago, Guedes possui como principal plataforma a venda do máximo de ativos estatais possíveis para amortizar a dívida pública, e assim diminuir os gastos do Estado. O mercado, além de gostar da ideia de comprar estatais na bacia das almas, é muito afeito ao dogma do “estado mínimo”. O militarismo do presidente, portanto, é neoliberal, apresentando profundas divergências com a política econômica do período da ditadura militar, que passou a ser nacionalista e desenvolvimentista, após o reformismo de Castelo Branco.

Assim, o sucesso eleitoral conquistado por Bolsonaro em 2018 se deu pela competência do capitão em tornar seu próprio nome um significante vazio (LACLAU, 2005). O nome “Bolsonaro” passou representar os elos de diferentes demandas sociais insatisfeitas, da segurança pública, ao fim da corrupção, passando pelo conservadorismo moral e pelo liberalismo econômico. O símbolo mais popular da campanha do capitão, o gesto de arma com as mãos, também pode ser um elemento unificador positivo, indicando a priorização da segurança, em um contexto de explosão da violência. Bolsonaro, portanto, está formando um “povo” e estabelecendo uma fronteira social antagônica contra o sistema corrupto e contra “as ideologias”. Desse modo, o carismático capitão se coloca como um antissistema, um refúgio moral para o “povo”, a parcialidade social que aspira ser a totalidade, fazendo emergir um populismo militarista e neoliberal no Brasil, de corte claramente classista. O “povo” de Bolsonaro é a elite do dinheiro e a classe média buscando tomar o poder político de um establishment em colapso.

 

Referências

LACLAU, Ernesto. On populist reason. Verso, 2005.

MUDDE, Cas; KALTWASSER, Cristóbal Rovira. Populism: A very short introduction. Oxford University Press, 2017.

Deixe uma resposta