O que está por trás da saída de Moro?

A demissão de Sérgio Moro reconfigura a correlação de forças no Brasil e consolida um passo que pode levar ao colapso do governo Bolsonaro, desde que as peças sejam corretamente movimentadas.

O divisão de poderes no governo Bolsonaro, inicialmente, foi sustentada por 6 forças: 1) família de milicianos; 2) olavistas terraplanistas; 3) empresários de extrema-direita; 4) lavajatistas; 5) Chicago Boys; 6) militares. Ocorre que algumas peças se mexeram.

Ironicamente, Mandetta, que representava os empresários da saúde e havia sido nomeado para desmontar o SUS, viu-se diante de uma pandemia e foi obrigado a defender o sistema público. Isso gerou uma fissura no núcleo empresarial, que se dividiu entre os favoráveis e os contrários à quarentena. Bolsonaro apostou nestes e Mandetta caiu. Assim, ele enfraqueceu a imagem do governo.

Ocorre que a política depende de outros dois poderes: o legislativo e o judiciário, nos quais Bolsonaro vem acumulando sucessivas derrotas. Para tanto, Bolsonaro convocou ninguém menos do que o mafioso Roberto Jefferson para criar defecções no centrão e forjar uma base mínima no Congresso.

Isso acabou respingando no núcleo lavajatista como uma gota d’água num balde cheio. Primeiro que as investigações da Polícia Federal estavam cada mais cercando os milicianos da família Bolsonaro. Segundo, que a imagem construída pela CIA/Rede Globo do herói de papelão Sérgio Moro, viraria cinzas com ele acobertando crimes de bandidinhos cariocas e ainda dividindo o governo com “mensaleiros”. Terceiro, que Bolsonaro estava incomodado com o fato de, assim como Mandetta, Moro ter uma avaliação melhor que a dele. Nada mais restava a Moro, senão a demissão.

Outra peça foi mexida sem grande alarde. Quando general Braga Neto assumiu a chefia da Casa Civil, duas forças foram enquadradas: os olavistas do Itamaraty e do MEC e os Chicago Boys na equipe econômica. Ambos são entraves ao avanço dos militares e não tardou para que os generais mirassem os canhões no primeiro inimigo: Paulo Guedes, que sequer foi convidado pro lançamento do plano de recuperação econômica de Braga Neto.

Em resumo, o que resta do governo e quais seus planos? No governo, ele perdeu apoio dos lavajatistas e de boa parte do empresariado que se alinha com os governadores. Os militares seguem jogando xadres contra os Chicago Boys e olavistas. Ironicamente, olavistas são sustentados pela militância de bolsonaristas fanáticos que organizam as caravanas da morte para pedir “intervenção militar”, algo que os militares consideram insano, pois eles estão cumprindo seus objetivos fazendo o próprio jogo institucional.

Bolsonaro só pensa em três coisas: proteger sua família, destruir a esquerda e se reeleger. Para defender a família, ele usa toda a máquina para parar as investigações dos evidentes crimes cometidos por seus filhos. Para combater a esquerda (e agora a direita dissidente), ele mantém a fantástica fábrica de fakenews a pleno vapor. Para disputar a liderança do país, tira do caminho possíveis ministros concorrentes como Mandetta e Moro e combate duramente governadores como Dória e Witzel.

Entretanto, há alguém que corre por fora: o vice-presidente Mourão. O ex-general tem feito um jogo inteligente. Se por um lado ele faz notinhas defendendo o regime de 1964 para angariar apoio no generalato, por outro ele procura construir uma imagem conciliador com desafetos de Bolsonaro. Reúne-se com figuras que vão desde a Rede Globo ao comunista Flávio Dino e recebe até mesmo representantes da China e de Cuba, fazendo uma diplomacia paralela.

Mas a única chance de Mourão tornar-se presidente é com a caída de Bolsonaro antes das eleições de 2022. Para isso, é preciso considerar o “fator Maia”. Rodrigo, o “Botafogo”, tem 18 processos de impeachment na mão, mas até agora seguiu relutante. Maia teme que possa receber algum tipo de retaliação como ocorreu com Cunha. Entretanto, isso pode mudar com um novo elemento.

As duras denúncias de Moro contra Bolsonaro colocam lenha na fogueira das inúmeras acusações de crime de responsabilidade contra Bolsonaro. Mas para um processo de impeachment prosperar, é preciso 2/3 dos votos na Câmara. Por isso, Bolsonaro corre para obter uma base no centrão e está pouco preocupado se Roberto Jefferson é bandido, desde que lhe entregue o 1/3 que precisa pra se livrar do impeachment.

A esquerda tem coisas a fazer. Com cerca de 1/5 no Congresso, ela não tem forças para sustentar um impeachment. Tampouco pode mobilizar o povo nas ruas devido à quarentena. Entretanto, os governadores do Nordeste têm feito um excelente trabalho no combate ao coronavirus. O que resta à militância é se organizar pelas redes e entrar, finalmente, no século XXI como a direita já fez desde 2013.

Por fim, a situação política está se reconfigurando. É preciso continuar isolando Bolsonaro. Das forças que compõem seu governo, as mais coerentes são as oriundas das Forças Armadas. Gostemos ou não, eles estão de volta. Mas saída, qualquer que seja, tem que ser pelas vias institucionais e democráticas.

Aguardemos os próximos movimentos e sigamos debatendo…

Por Thomas de Toledo

O que está por trás da saída de Moro

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