Previdência pública e Marielle Franco: a barbárie e seus robôs nas redes sociais

A destruição da previdência pública e o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes sintetizam a barbárie a que chegamos não como metáfora, mas como situação concreta do salve-se quem puder. Ilude-se quem imagina que o Estado capitalista no Brasil vai resolver seus problemas promovendo a grande rapinagem para beneficiar o mercado financeiro, sem crescimento econômico, sem emprego, sem ciência e pesquisa, sem proteger áreas e recursos estratégicos, sem multilateralismo comercial, entre outras políticas públicas normais de qualquer país ocidental.

Já chegamos ao fundo do poço num contexto em que a mediocridade e a boçalidade espalhadas pelos robozinhos das redes sociais se impõe com suas supostas verdades de pés de barro. Impõe-se por que de um modo geral as pessoas se ligam mais nos fatos em si, a maioria não estando treinada para enxergar a floresta a partir de determinadas árvores isoladas. Entretanto, os fatos não falam por si sós, ao contrário do que muita gente acredita. Assim como uma fotografia não vale por mil palavras porque sua imagem pode ser manipulada por luzes e sombras e diversos artifícios.

Ilude-se também quem vê o assassinato da vereadora e seu motorista como fato pretensamente isolado e “politizado” pela esquerda. Se as investigações não chegarem aos mandantes e às demais articulações envolvendo bandidagem e política, esse absurdo ficará nas costas de toda a sociedade, e a pergunta é: aguentaremos isso até quando? Ou isso não é barbárie?

Diante de mecanismos robóticos de disseminação de mentiras, há que se incentivar a reflexão para além da superfície dos fenômenos e estabelecer os vínculos entre fatos supostamente não relacionados. Em outras palavras, buscar os nexos entre situações aparentemente desvinculadas e compreender a totalidade do que está acontecendo hoje no Brasil e assim jogar luz sobre causas e efeitos dos fatos isolados.

Tanto a destruição da previdência como o assassinato são crimes políticos em “última instância”, no sentido da condensação das contradições do sistema capitalista, sistema corrupto por natureza. Um não fica adstrito à economia e outro não se reduz à pistolagem de crime comum. Criminoso o primeiro fato por conta da devastação a que promove na vida das pessoas e pelo seu bombardeio de mentiras espalhadas para a sociedade; e criminoso de alta política o segundo por conta de sua audácia de afrontar a República. Um e outro se ligam pelo incentivo “hobbesiano” do salve-se quem puder, cada um com suas armas e recursos de poder. Obviamente, a maioria não tem as armas de milicianos, políticos, empresários, banqueiros, donos dos meios de comunicação e agentes de altas burocracias jurídicas do Estado.

Os assassinos (não só os pistoleiros) de Marielle Franco e seu motorista estão dando uma grande banana para o Estado e a sociedade toda. Vamos deixar barato isso tudo? Ou determinadas forças que detêm o poder político estão utilizando os aparelhos de estado para compactuar com os bandidos? E esse tipo de barbárie como afronta ao Estado vale também para todas as mortes de agentes públicos, tais como o caso da juíza Patrícia Accioly, o de políticos em diversas situações pelos grotões Brasil afora, o de líderes sindicais urbanos e rurais, sem falar dos policiais assassinados nas grandes metrópoles numa rotina denunciada pela própria Marielle no Rio de Janeiro. Essa é uma parte da barbárie dentro de outra maior que é a destruição da previdência pública que vai matar milhões de pessoas.

Faz parte dessa barbárie geral uma apatia de amplos setores da classe média como se esse esgoto não tivesse nada a ver com tais extratos sociais. Um dos componentes cruciais da barbárie é a disseminação do ódio e do medo justamente pela falta de argumentos e pelo excesso de sangue nos olhos de quem não tem como refutar fatos ou reflexões propostas. Ao sugerirmos a leitura de trabalhos de cientistas políticos, filósofos, geógrafos, historiadores e outros, o ódio espalha que esses trabalhos são meras “opiniões” de gente da esquerda, mas não consegue refutá-las. Da minha parte, eu, que não milito em partido político algum, nem conheço pessoalmente os autores que menciono, fico torcendo para refutarem o que digo a fim de que eu aprenda mais. Porém, claro, desde que seja com argumentos e dados, e não com xingamentos, mentiras e boçalidades. Não porque eu possa ficar de “mimimi”, mas porque a baixaria se denuncia a si própria e nada contribui a não ser para perpetuar mentiras e descalabros.

Pensando nessa barbárie toda, sugiro hoje apenas uma leitura, embora possamos e iremos elencar muitas outras para outros temas. Ler faz bem à saúde geral dos indivíduos. No caso em questão, a leitura, obviamente, não é para boçais, mas também não só para acadêmicos titulados, e sim para todos os cidadãos de bem, formados ou não em curso superior, que vislumbram a política com amor e único sentido possível de convívio social. Trata-se de livro recém-lançado com um título bastante sugestivo: “A crítica do capitalismo em tempos de catástrofe: O giro dos ponteiros do relógio no pulso de um morto”, do professor Marildo Menegat (Rio de Janeiro: Consequência, 2019), do Programa de Pós-Graduação de Políticas Públicas em Direitos Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Ainda não terminei a leitura, mas dá para pincelar algumas reflexões interessantes. O autor lembra que “manter a crítica é um exercício para gente grande. Ainda mais quando esta realidade se apresenta em arranjos novos e surpreendentes por seu caráter regressivo” (p. 83). Em alusão a episódios recentes da nossa sociedade, no capítulo intitulado “Um laboratório avançado da barbárie”, Menegat observa: “Nossas energias não encontraram mais as instituições e espaços sociais em que as expectativas de futuro outrora se produziam. Como sabemos, o tédio é um estado corrosivo da forma passiva do niilismo. Ele talvez possa ser suprimido se substituído pelo exercício da crítica social, que é um bom antídoto contra este mundo cujo prazo de validade findou e nos deixou desavisadamente sem chão”. (p. 82).

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