A Previdência é a última trincheira antes da fronteira da barbárie

Tenho argumentado que o projeto de reforma da Previdência de Paulo Guedes é a última trincheira de luta das forças progressistas brasileiras em prol de um projeto civilizatório do país. Até aqui tudo que se construiu em 80 anos de uma agenda de bem-estar social foi destruído em três anos em nome do anti-petismo.  É o que aconteceu com a infame reforma trabalhista.  A Previdência, contudo, mexe com mais gente. Na verdade, com a quase totalidade da população. Será uma monstruosidade política se o projeto passar.

E pode passar. Não digo isso por causa da aprovação do projeto na Comissão de Constituição e Justiça ontem. Eram favas contadas. Nesses conselhos numericamente limitados é muito fácil comprar consciências. Além do mais, já se sabia que líderes partidários da situação articulavam para tirar do projeto os bodes que ali estavam justamente para que dessem a impressão de que defendiam o povo. Tira-se o bode, mas o jacaré passa. Talvez daqui a anos saberemos quanto custou o jacaré. Agora é uma simples dedução.

Acredito que só uma forte mobilização popular impedirá a aprovação do projeto quando chegar à fase da votação final no Senado. Há tempo para isso. A chave da vitória é que as forças progressistas furem a bolha em que se encontram e atinjam realmente o povo. Na reforma trabalhista não se conseguiu isso. E não foi surpresa, porque o projeto trabalhista atingia principalmente só uma parte institucionalizada da população, sobretudo entidades de trabalhadores formalizados.  Não é o caso da Previdência, de alcance muito mais amplo.

O desafio, portanto, é mobilizar os formais para atingir os informais. É preciso chegar às periferias e às favelas. Esse tem sido um território crescentemente de evangélicos, que em regra são indiferentes a temas políticos, e facilmente manipulados pela grande mídia e por  políticos oportunistas em questões morais. É também o território da informalidade e da pobreza absoluta, o território dos “serviços” de droga para as classes médias, e o território das milícias, dos desempregados, das mães solteiras, dos jovens sem perspectiva de vida.

Diante disso, a iniciativa da Igreja Católica de colocar no centro da Campanha da Providência deste ano o tema das “políticas públicas” é animador. Diferentemente de religiosos politicamente indiferentes, os católicos estão acostumados a se engajar em causas sociais. E não existe outra causa social, no momento, mais importante do que a questão previdenciária.  Foi justamente por isso que, junto com o senador Roberto Requião, lançamos a ideia de Vigílias contra a destruição da Previdência.

Combinei com o senador de escrever diariamente, durante no mínimo os 30 dias da Vigília, um artigo esclarecendo as entranhas do projeto de Guedes, enquanto ele tem feito um vídeo expondo as falácias da proposta. Os vídeos podem ser encontrados  no facebook e no youtube. É importante que outras pessoas estejam fazendo coisas semelhantes, pois a grande mídia está totalmente empenhada em contribuir para o processo de escravização do povo combinando apoio à anterior reforma trabalhista  com o a reforma previdenciária de agora.

Temos que defender a última trincheira em favor de uma política de bem-estar social para o Brasil. Se falharmos na rejeição do projeto Bolsonaro, vão-se abrir as portas do inferno para o povo. O regime de capitalização proposto por Guedes e por Rodrigo Maia, o presidente da Câmara cujo apoio ao projeto beira o cinismo absoluto, resultará na imediata destruição da Previdência pública. Esta pode não ser a ideal, mas para milhões de brasileiros pobres da atual e das próximas gerações é o único  recurso de sobrevivência na velhice ou na inatividade.

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