PSB e PDT se afastam cada vez mais do PT

O presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, deu nova declaração nesta quarta (13/05) sobre o afastamento entre a sigla socialista e o PT. O PDT presidido por Carlos Lupi do presidenciável Ciro Gomes continua suas animosidades com o partido de Lula desde a disputa eleitoral de 2018. Na época, o PSB manteve-se “neutro” na eleição nacional sob chantagem do PT de atuar contra a reeleição do governador de Pernambuco, Paulo Câmara, principal mantado executivo dos socialistas.

Para as eleições de 2020 e 2022, o PSB não está disposto a se submeter às exigências petistas. Em ato em São Paulo, o PDT declarou apoio a Márcio França na disputa pela capital paulista com a presença da direção nacional do PSB, e os dois partidos anunciaram uma aliança nacional nas eleições municipais de 2020 visando a consolidação de um acordo também para 2022 em torno do trabalhista Ciro Gomes.

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Enquanto isso o PT encontra-se cada vez mais isolado na esquerda mesmo tendo prometido apoio a Manuela Dávila do PCdoB em Porto Alegre e Marcelo Freixo do PSOL no Rio de Janeiro, porém nenhuma das duas alianças é tratada como fechada tendo em vista a desconfiança das legendas. Dirigentes dos dois partidos são céticos sobre a possibilidade do PT realmente apoiar outros partidos em eleições estratégicas para suas bancadas parlamentares, inclusive porque a ordem de Lula é justamente lançar candidatos no máximo de cidades possíveis e em todas as capitais. Além disso, o PT exige apoio dos dois partidos em São Paulo, o que já foi rejeitado pelo deputado Orlando Silva, candidato do PCdoB, e pelo PSOL, que quer lançar Guilherme Boulos, além da postulação da deputada Sâmia Bonfim que também quer ser candidata.

A atuação na oposição ao governo Bolsonaro também suscita divergências profundas entre petistas e o restante da esquerda. PSB e PDT formaram um bloco com Rede e PV tanto para negociar apoios eleitorais mútuos mas também para atuação conjunta na oposição. Lula e o PT hesitam em apoiar um pedido de impeachment de Bolsonaro, enquanto os outros 4 partidos já apresentaram pedidos de impedimento e declararam apoiar qualquer ação que for aceita pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que, por enquanto, considera não haver correlação política para seguir com um processo para derrubar o Presidente da República.

Questionado sobre essas divergências diante de acusações dos petistas de que os pedidos de impeachment foram precipitados, Carlos Siqueira disse: “É a opinião deles. A nossa é que não houve e não há precipitação. Agora, é um direito do PT pensar diferente.”. O presidente do PSB ainda criticou nominalmente o ex-presidente Lula: “O problema do PT é que, quando o Lula saiu da prisão, em vez de ele fazer um discurso de unidade, ele fez o que fez: disse que o partido teria candidato em todas as capitais [nas eleições municipais deste ano]. Então, não querem unidade coisa alguma.”. E foi enfático sobre o afastamento entre as siglas de esquerda: “Nós vamos cuidar da nossa vida e o PT vai cuidar da dele. Nós não dependemos do PT, nem eles de nós.”.

Carlos Siqueira já havia demonstrado vários vezes sua insatisfação com o hegemonismo do PT que busca submeter os partidos aliados aos seus interesses partidários em detrimento do que seja melhor não só para o campo da esquerda, mas para o Brasil. Logo após as eleições, o presidente do PSB disse que “o PT não tem o monopólio da esquerda” sobre a acusação dos petistas de que uma frente sem o PT não seria de esquerda. Carlos Lupi do PDT também já expressou insatisfação parecida, além de compartilhar o ceticismo de outros dirigentes de esquerda sobre a possibilidade do PT apoiar algum outro partido: “Esse projeto do PT, que é hegemônico, nunca na história teve um momento de apoiar quem quer que seja. Eles só querem apoio.”

Enquanto PSB e PDT se afastam cada vez mais do PT, os petistas buscam desesperadamente retomar diálogos para sair do isolamento. Lula tentou acenar uma bandeira branca tanto para Ciro Gomes como para o reacionário João Doria, governador de São Paulo pelo PSDB. José Dirceu, que continua sendo uma eminência parda do PT apesar da perda de prestígio causada pelas condenações criminais, disse também nesta quarta (13/05) em entrevista à TV Afiada que é preciso que “lulistas” e “ciristas” conversem. Mas não parece haver disposição de diálogo nem dos “ciristas”, nem de outros partidos da centro-esquerda, devido à estratégia hegemonista do PT de impor seus candidatos em todas as eleições majoritárias, o que ninguém acredita que irá mudar. Por outro lado, ampliam-se os diálogos da esquerda sem o PT, inclusive com os pragmáticos Comunistas do Brasil, aliados antigos e fiéis do PT.

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O isolamento do PT se dá também em relação ao centro do espectro político. Após a vitória de 2002, o PT se acostumou a fazer alianças cada vez mais amplas ao centro e à centro-direita, o que paradoxalmente consolidou a hegemonia do partido na esquerda pela imposição da força das máquinas regionais perante aliados históricos como PCdoB e mesmo PSB e PDT, deixando ao PSOL o papel de partido esquerdista sectário. Curiosamente, esse quadro se inverteu. Diante do antipetismo, dos ressentimentos gerados pelo impeachment de Dilma e da rejeição causada pela crise econômica iniciada no governo da petista, o PT encontra cada vez mais resistências de antigos aliados e mais abertura com o PSOL que busca crescer no nicho dos eleitores de esquerda descontentes com o petismo. Isso se manifestou inclusive em episódios violentos de disputa parlamentar, por exemplo quando o PSOL com apoio do PT acionou a cláusula de barreira para impedir o PCdoB de ocupar cargos na Câmara.

Já o PDT de Ciro Gomes encontra cada vez mais receptividade em setores mais amplos da política. Não apenas entre a centro-esquerda, como no bloco PSB-PDT-REDE-PV, mas também entre lideranças de centro ou centro-direita, como o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil do PSD, ou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia do DEM. Aliás, o PDT já encaminhou importantes alianças municipais mútuas com o DEM. Em capitais como Fortaleza, São Luís e Salvador, os dois partidos devem caminhar juntos indicando vices um ao outro.  Já em João Pessoa, Aracaju e Natal as conversas tem mais variáveis, mas a tendência é terem o mesmo destino, e possivelmente até em Curitiba, PDT e DEM devem caminhar juntos tanto contra candidatos bolsonaristas e lavajatistas, como contra lulistas.

Desse modo, há um deslocamento do PT como partido dominante do campo da esquerda e de sua capacidade de impor hegemonia ao restante do espectro político nacional através da popularidade de Lula no nordeste. Sua capilaridade eleitoral continua forte, mas decadente diante da derrota para Bolsonaro e das sucessivas derrotas judiciais, enfraquecendo sua capacidade de imposição e negociação.

A crise econômica e política que o país vive há anos foi agravada profundamente pela pandemia do coronavírus. A extrema-direita chegou ao poder com a aliança das duas facções da antipolítica, o bolsonarismo e o lavajatismo, que agora estão rompidos e vão lutar até 2022 para ver quem hegemoniza o campo da direita. O centro, fluído como é, negocia com todos os setores. O baixíssimo clero do fisiologismo está vendendo votos contra o impeachment para Bolsonaro, enquanto o alto clero liberal liderado por Rodrigo Maia tenta articular com os governadores o enfrentamento à crise econômica e à pandemia. Sem poder botar o povo na rua devido ao isolamento, a esquerda fica a reboque e tenta negociar pequenas influências e a contenção de danos no Congresso enquanto grita “Fora Bolsonaro” nas janelas, e ao mesmo tempo vai tocando suas disputas internas.

As eleições municipais devem ser adiadas devido à pandemia. Por enquanto, a esmagadora maioria das forças políticas é contra uma inconstitucional ampliação dos mandatos municipais vigentes para realização de eleições conjuntas em 2022, mas o descontrole da pandemia pode gerar efeitos imprevisíveis. De qualquer forma, as eleições devem ser adiadas pelo menos para dezembro, estendendo os prazos de negociações partidárias. Após a definição da correlação de forças pós-eleições, que serão sem coligações proporcionais, o sistema político deve passar por nova reorganização importante, assim como em 2018 com a chegada ao poder da antipolítica. Uma transformação certa é na relação entre os partidos de esquerda diante da gradual e inegável decadência do PT, ainda que o lulismo continue sendo importante força eleitoral, mas com cada vez menos capacidade de impor sua hegemonia.

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