PSDB e DEM submetem-se ao Centrão, e o MBL é a nova UDN: Lacerda vai voltar

Depois de: Ciro Gomes é o novo Getulio Vargas, Alexandre Kalil é o novo Juscelino Kubitschek, Rodrigo Maia é o novo Tancredo Neves, Gilberto Kassab é o novo Adhemar de Barros, Guilherme Boulos é o novo Luís Carlos Prestes, vem aí: Kim Kataguiri é o novo Carlos Lacerda e o MBL é a nova UDN. Sei que parece um delírio meramente anedótico, mas essas comparações cumprem um papel analítico sobre as recorrências de certas posições políticas históricas no movimento da totalidade das estruturas do Estado nacional e do espírito do tempo das representações partidárias no Brasil moderno.

Escrevo esse texto motivado pelo estupendo discurso de Kim Kataguiri, deputado federal por São Paulo e líder do MBL, no contexto da eleição da Câmara dos Deputados. O discurso é uma peça retórica de enorme envergadura para um jovem deputado de primeiro mandato de apenas 25 anos! Mas não apenas a habilidade oratória, o conteúdo é impressionante. A agressividade é compatível com as acusações políticas, morais e criminais que Kim faz ao Presidente da República e ao candidato do governo à presidência da Câmara dos Deputados.

Pode parecer exagero, mas eu apostaria que o MBL liderado por esse tão jovem brilhante orador é um partido que veio para ficar na política brasileira no longo prazo, ocupando papel de destaque nesse local específico do liberalismo econômico e moralismo político de direita que foi construído no passado pela UDN de Carlos Lacerda.

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É importante apontar que Kim não é um deputado eleito aleatoriamente na avassaladora onda da anti-política da última eleição nacional, como diversos bolsonaristas/lavajatistas que beiram a incapacidade mental do tipo Carla Zambelli. O MBL é estruturado com muito dinheiro do mercado financeiro através de uma poderosa estrutura de redes sociais e obteve uma quantidade de votos cada vez mais espalhados pelo Brasil, tanto em 2016 nas eleições municipais, como em 2018 nas eleições estaduais e federais, e novamente em 2020 a exemplo do candidato a prefeito de São Paulo, Arthur do Val ‘Mamãe Falei’ que ficou na frente de Jilmar Tatto do PT.  Nesse contexto também surgiu o Partido Novo, que curiosamente, ao contrário do MBL, já conseguiu uma legenda própria e até governar o segundo maior colégio eleitoral do país, mas tem menos influência ideológica que o movimento liderado pelos jovens liberais. Assim me parece que o Novo tem um futuro mais incerto devido à incapacidade de consolidar lideranças relevantes socialmente na longa duração. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, é apenas um completo incompetente que foi obrigado a governar com a máquina tucano-petista consolidada por Aécio Neves e Fernando Pimentel, além de apoiar a desastrosa gestão de Bolsonaro em relação à crise sanitária da pandemia de covid-19 em troca de ajuda financeiro da governo federal.

Pois bem, como já argumentei em “O populismo de Boulos e a reconstrução da Hipótese Comunista: Prestes vai voltar“, o PCB fazia oposição de esquerda, com seu populismo “prestista” sob a liderança do Cavaleiro da Esperança ao regime populista liderado por Getulio Vargas. Por outro lado, após a consolidação da democracia de massas inaugurada pelo trabalhismo, surge também a União Democrática Nacional (UDN), a perna direita de oposição à poderosa aliança entre PTB e PSD.

O maior líder da UDN era o jornalista Carlos Lacerda, ex-comunista convertido em raivoso anti-comunista, mas principalmente, anti-varguista. Além do típico liberalismo econômico histórico da direita brasileira, a principal questão ideológica do conservadorismo da UDN e de Lacerda era o moralismo anti-corrupção. Seus inflamados discursos como parlamentar nas tribunas da Câmara dos Deputados, na rádio e na televisão, deram a ele protagonismo no suicídio de Vargas em 1954, na tentativa de golpe contra a posse de JK em 1955, e, obviamente no golpe de 1964 contra João Goulart, então já como governador do Estado da Guanabara, ente federativo criado após a transferência da capital do Rio de Janeiro para Brasília. Lacerda faria oposição até ao presidente Jânio Quadros, eleito em aliança com seu próprio partido como representante do populismo moralista de direita que iria “varrer a corrupção”.

O udenismo, portanto, representava a corrente política do liberalismo econômico radical e do golpismo falso-moralismo. Enquanto o PTB representava a centro-esquerda hegemônica entre os trabalhadores urbanos, o PSD era o partido da centro-direita ligada aos interesses do interior do país, e o PCB a esquerda radical.

Após os longos 21 anos da Ditadura Militar e da transição lenta, gradual e segura de Golbery do Couto e Silva, essas representações da sociedade brasileira na política tornaram-se difusas e enfraquecidas. O PSDB surge como dissidência de esquerda ao MDB, tido por fisiológico, e o PT surge como inimigo tanto da esquerda radical comunista como da esquerda trabalhista herdeira do varguismo, autoproclamando-se uma “nova esquerda”, e era mesmo, fruto do autonomismo pós-moderno e da hegemonia neoliberal anti-nacional. O liberalismo e o moralismo típicos da UDN contra o trabalhismo e a representação do interior do país é incorporado pelo PSDB e pelo PT contra os partidos do “Centrão” surgidos na Constituinte de 1988 e liderados pelo MDB. Já o DEM, o antigo PFL, surge como representante de oligarquias do interior, herdeiras do PSD e depois difusamente tanto da Arena como do MDB no regime bipartidário da Ditadura. Mas é principalmente na Bahia de Antonio Carlos Magalhães (ACM), avô de ninguém menos que o atual presidente do partido, ACM Neto, que o PFL/DEM se consolida como um dos maiores partidos do Congresso. Posteriormente, ganharia ainda uma forte facção carioca liderada pelo ex-brizolista César Maia, pai do Rodrigo.

Após a chegada ao poder, tanto o PSDB como o PT, têm de abandonar esse moralismo para governar com o Centrão. Nos governos FHC, o PFL (atual DEM) com sua enorme bancada pelo interior do país, junto com o MDB, dava sustentação ao governo. O PT cumpria o papel de “UDN de Macacão” como dizia Brizola, fazendo oposição ferrenha através de CPIs, vazamentos de dossiês à imprensa, intensa judicialização contra qualquer medida do governo e inúmeros pedidos de impeachment. Com a eleição de Lula, o PSDB e o DEM passam à uma oposição udenista mais violenta ainda com apoio da Globo e das corporações judiciais não-eleitas fortalecidas pelo próprio PT, enquanto o MDB e o Centrão, cada vez mais pulverizado em um número maior de partidos, sustentavam o governo dos arautos da moralidade nos tempos de oposição nos anos 1980 e 1990.

PSDB e PT não apenas geriram o neoliberalismo no Brasil com a mesma política macroeconômica, como consolidaram a ‘pós-política’ anti-populista com o fortalecimento do corporativismo e ativismo judicial. Fazer oposição tornou-se sinônimo de chamar não apenas o governo, mas o Estado e a representação democrática eleita, de corruptos o tempo inteiro. Em 2013, com o marasmo econômico de um neoliberalismo de empregos de baixíssima remuneração e direitos sociais cada vez mais privatizados, explode a revolta da anti-política gestada por duas décadas e incensada pelo imperialismo. É nesse caldo explosivo da crise das instituições democráticas que surge o Movimento Brasil Livre (MBL) de Kim Kataguiri.

Em 2014, Aécio Neves do PSDB não aceita a derrota apertada para Dilma Rousseff do PT, e questiona o sistema eleitoral de um lado, enquanto o Partido da Lava-Jato ataca o governo judicialmente de outro. Em 2015, a incrivelmente incompetente Dilma trai sua base eleitoral ao aplicar um brutal ajuste fiscal e perde o apoio do Centrão no Congresso liderado pelo gângster Eduardo Cunha, ex-aliado de destaque dos governos petistas. Em 2016, com protagonismo do MBL nas redes sociais e nas manifestações de rua, Dilma é derrubada. Em seguida Lula é preso abrindo caminho para eleição de Jair Bolsonaro, que protagoniza uma vitória inédita do populismo de extrema-direita no Brasil, com apoio tanto do MBL como do lavajatismo liderado por Sérgio Moro.

Enquanto PSDB e Aécio Neves foram destruídos pelo lavajatismo, o PT e Lula mantém-se vivos mas respirando por aparelhos. Bolsonaro, ao contrário do que suas ameaças e a histeria da esquerda anunciavam, não representa o golpismo militar. Na verdade, o bolsonarismo é um movimento populista de extrema-direita, articulado internacionalmente através dos novos meios de comunicação. Os militares atualmente não cumprem papel político protagonista como nas décadas de 20 a 80 no Brasil, mas secundário, enquanto corporação que cede quadros de gestão em troca de altos salários e privilégios corporativistas, sem qualquer tipo de projeto nacional, ainda que conservador, como no passado.

Na quadra atual, após 2 anos de governo Bolsonaro, a adesão da oposição de esquerda ao candidato da centro-direita liberal de um lado, e a traição do PSDB e DEM a estes para apoiar o Centrão governista, concluem a transição para fora da hegemonia da anti-política como apontei mais cedo em “O embate entre Bolsonaro e Rodrigo Maia pela presidência da Câmara marca o fim da anti-política” que foi iniciada na crise política do Presidente contra o Congresso de quase 1 ano atrás explicada em “Bolsonaro e Roberto Jefferson articulam racha no centrão com histeria golpista“, e logo em seguida no rompimento entre o bolsonarismo e lavajatismo com a queda do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, que pode ser relembrada em “O lavajatismo repete contra Bolsonaro a tática usada contra Dilma e Temer“.

Neste cenário, o MBL aparece apenas como exemplo paradigmático, pois evidentemente, diversos outros setores políticos compõe essa corrente herdeira do udenismo, mas não mais o PSDB e o DEM. Ao lado da potência das redes sociais, a Globo ainda é um ator crucial na defesa do liberalismo econômico e do falso-moralismo anti-Estado e anti-política. O candidato dos sonhos tanto do MBL como da Globo contra Lula e o PT nunca foi o tosco Bolsonaro, que apela ao homem médio brasileiro, mas o “refinado” Sergio Moro, que aspira à posição de elite nacional e internacional através de seus privilégios corporativos e treinamentos nos EUA.

Desse modo, Moro e a Lava-Jato; Bolsonaro e suas milícias (digitais e armadas); e Kim e o MBL; cumprem papéis diferentes na ascensão da nova direita brasileira diante da crise da hegemonia neoliberal de PSDB e PT. A crise anterior, pós-Ditadura, favoreceu uma transição hegemônica que deslocou o espectro político para uma disputa entre as diversas facções do liberalismo progressista, colocando o PSDB, que era de esquerda nos anos 1980, como ala direita, e o PT como ala esquerda do neoliberalismo na longa duração. Agora, são as facções da direita em ascensão que disputam suas faixas da nova composição hegemônica.

É nesse contexto, como oposição liberal e moralista, que o MBL passa a ocupar o espaço da UDN e de Lacerda. Assim como seus antecessores apoiaram as tentativas golpistas e o efetivo golpe militar de 1964 contra o trabalhismo, a ilusão da conspiração comunista e os escândalos de corrupção, o MBL também apoiou Bolsonaro contra o “perigo vermelho e corrupto” do PT, para em seguida romper com o bolsonarismo assim como Lacerda rompeu com os militares, quando viu que não seria contemplado no poder por eles. Desse modo, é como espírito do tempo de um neolacerdismo, também traído pelo regime de direita que ajudara a botar no poder, que deve ser assistido esse espetacular discurso de Kim Kataguiri.

3 Comentários

  • Parei de ler quando chamaram Kim Katarrento de brilhante orador. O golpe tá aí cai quem quer… A esquerda sempre me surpreendendo no baixo nível de exigência da esquerda para enxer a bola de alguém… Basta bater em Bolsonaro que a galera fica de olhos brilhando. Pera aí, meu consagrado… Esses rapazes aí são responsáveis pelo debandada da população para o lado neoliberal da força. O brasileiro é péssimo para escolher por quem vai se empolgar.

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  • Como são tolas as análises fundadas nas crônicas do jornalismo político dos jornais da grande mídia, muitas parecem cópias grosseiras de colunas políticas da mídia empresarial, com sua fulanização da política, sua incapacidade (às vezes não se trata de incapacidade, mas de desejo intencional de desviar o foco do leitor para o secundário, omitindo os antagonismos de classe) de fazer uma análise concreta da realidade concreta, sua tendência em fazer uso do conhecimento de fatos históricos para a construção de analogias mecanistas explicativas do presente (o movimento da História é visto como circular, a se repetir de tempos em tempos, mudando apenas as formas de que se reveste). Fico me perguntando: para onde terá ido o entusiasmo dos que ainda ontem nos falavam da aliança PDT/DEM como uma reedição da aliança PTB/PSD? Infelizmente, essa simplicidade da análise política, que se assemelha às previsões dos futuros dos personagens dos que gostam de acompanhar novelas folhetinescas, pouca utilidade tem para as ações necessárias à defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo. A oposição está absolutamente inferiorizada na frente de luta institucional, parlamentar. O governo Bolsonaro prepara-se para aprofundar as reformas neoliberais, supondo contar com a ampla maioria que elegeu o proto fascista Lira presidente da Câmara. À resistência a Bolsonaro terá que priorizar a luta não institucional, a mobilização dos trabalhadores e do povo a partir das ruas. O exemplo histórico a ser tomado é o dos movimentos de massas ocorridos recentemente no Chile, na Bolívia e no Equador, ou o movimento das “Diretas Já” na década de 1980, ocorrido no Brasil.

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