Se a prioridade for mesmo derrotar o fascismo

Mal terminou a apuração do primeiro turno e muito se tem ouvido, por parte do PT, que estamos agora diante de uma escolha muito simples entre a civilização e a barbárie, com o enfrentamento ao fascismo.

Surpreendentemente, até agora, Lula e a direção do PT não fizeram um pedido de desculpas público pelo gigantesco risco de jogar o país no colo do fascismo com a legitimação do voto popular.

Lula, mesmo preso, resolveu brincar de Deus com o povo brasileiro e é esse povo que pode ter que pagar muito caro por essa irresponsabilidade.

Dando uma analisada rápida no resultado da eleição no primeiro turno podemos afirmar que o antipetismo é hoje a maior força política do Brasil.

Bolsonaro teve duas vezes e meia mais votos que Haddad na cidade de São Paulo.

O dobro em São Bernardo do Campo, berço político de Lula, do PT, da CUT.

E ganhou por grande diferença em Recife, Natal, João Pessoa, Maceió, Aracaju, Jaboatão dos Guararapes (maior cidade nordestina dentro de uma região metropolitana), Caruaru, Campina Grande e Mossoró.

Esse é um recado duro ao PT que, ao menos aparentemente, finge não ver isso.

A tal fortaleza inexpugnável do PT no nordeste se resumiu ao atrelamento de Haddad às campanhas vitoriosas de governadores bem avaliados que venceram no primeiro turno.

E aos grotões, que agora, sem o exército de candidatos distribuindo santinhos com nome do Lula no interesse de suas próprias campanhas, pode ficar desguarnecido diante de uma ofensiva da extrema direita.

Com esse quadro assustador não é difícil entender que a possibilidade da virada contra o fascismo sob a liderança do PT é impossível.

E, nesse caso, só temos um caminho para tentar, de todas as formas, vencer o fascismo: a desistência do PT em liderar esse enfrentamento, com a passagem do bastão a Ciro Gomes.

Isso abriria a possibilidade da junção de todas as forças democráticas do país, o que, obviamente, é impraticável tendo o PT à frente.

Também tiraria dos fascistas o cenário perfeito para eles: transformar o segundo turno numa espécie de plebiscito sobre a volta do PT, que as urnas do primeiro turno já deram o resultado.

Na eleição de 1989, tantas vezes lembrada agora, Brizola propôs a Lula uma renúncia dupla em favor de Mário Covas, para que este, com apoio de todas as forças democráticas de então, derrotasse Collor no segundo turno, quando a vitória sobre o PT era, então, menos óbvia que hoje.

E, comparado a Bolsonaro, Collor é um democrata na mais alta acepção do termo.

Tal expediente é previsto no artigo 77 da Constituição. Na desistência do segundo colocado vai ao segundo turno o terceiro.

Assim, com um gesto de grandeza e pensando no país, Lula se redimiria perante a história pelo pecado de se achar acima do bem e do mal, arriscando o futuro de milhões de brasileiros, especialmente os mais pobres, que tanto o admiram ainda.

Corrigiria também o erro de ter empenhado toda sua força política – que ficou muito menor após a abertura das urnas do primeiro turno – para isolar Ciro Gomes de todas as formas.

Um lance ousado e surpreendente que levaria pânico ao comando da campanha fascista, que faz do antagonismo ao PT sua estratégia maior.

Claro que um gesto desses implicaria em trazer o PSDB, o Meireles, a Marina e todas as forças democráticas para essa aliança, com adoção de pontos programáticos comuns defendidos por essas correntes políticas.

Isso sim seria um enfrentamento pra valer do fascismo.

Fora disso fica parecendo – diante do claríssimo recado das urnas ao PT no primeiro turno – apenas mais uma “esperteza” petista para se manter como protagonista principal no campo popular, buscando já se colocar como principal força de oposição ao governo que se desenha.

É um erro histórico crasso achar que um eventual insucesso de Bolsonaro no governo (que tende a acontecer) implicará necessariamente numa diluição do antipetismo e na redenção do PT perante o povo brasileiro.

Todo sofrimento que será causado a população durante esse período vai ser cobrado de Lula e do PT lá na frente.

Portanto, se esse enfrentamento ao fascismo é mesmo à vera, fica a dica do caminho mais eficiente.

Mais uma vez a história oferece para Lula a chance de escolher entre o melhor para o PT ou o melhor para o povo brasileiro.

Até aqui só escolheu errado.

Por Allan Nacif

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