PT rifa Ciro, repete o erro de Hillary Clinton em 2016, e arrisca entrega do país

Em acordo com o PT, a direção nacional do PSB decidiu pela neutralidade na corrida presidencial que se iniciará em breve. Com o feito, o PSB não apoiará nenhum candidato à presidência, mas seus candidatos a governos estaduais poderão utilizar seus palanques como quiserem.

O combinado envolve abrir mão da candidatura do pessebista Márcio Lacerda ao governo de Minas Gerais, em benefício de Fernando Pimentel, do PT. Já o Partido dos Trabalhadores desfez-se da candidatura de Marília Arraes ao governo pernambucano. Lacerda e Arraes, fortes pré-candidaturas, já demonstraram descontentamento com as direções nacionais de seus partidos e prometem defender suas posições nos dias que virão.

O PT exigiu a neutralidade do PSB na disputa nacional e assim conseguiu barganhar com o poderoso PSB de Pernambuco, que rifou o lado mineiro do partido. O tempo de televisão do PSB, dessa forma, deverá ser dividido e distribuído entre todos os concorrentes ao Planalto.

Segue-se que o PT, em gratuita demonstração de seu hegemonismo, fez engordar o tempo de TV de Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles e Jair Bolsonaro. O essencial, no entanto, foi utilizar a neutralidade do PSB para frustrar uma aproximação dos socialistas com o PDT de Ciro Gomes, que agora resulta isolado.

Evitada a aliança, Ciro Gomes não receberá mais o tempo de TV do PSB, que teria caso se concretizasse a união entre seus partidos, prejudicando-se imensamente seu potencial de campanha. O PT, contudo, também não receberá. Tempo jogado fora, alguns dirão. A direita discorda.

Isso mostra que a luta do PT não é contra o golpe, contra o imperialismo, contra a entrega do petróleo nacional a empresas estrangeiras estatais ou participantes do oligopólio privado internacional, contra o desmonte da educação superior nacional, das atividades de pesquisa e dos investimentos estratégicos em Ciência e Tecnologia, contra o desemprego de 14 milhões de brasileiros etc.

Ao que parece, e ao que tudo aponta, a luta do PT é contra o nacionalismo representado pela ideologia trabalhista que permeia o projeto de Ciro Gomes, contra a renovação das lideranças progressistas e, portanto, contra a perda definitiva de espaço do PT. Uma batalha pela sobrevivência e nada mais.

Convenhamos que seria puro moralismo julgar o ímpeto instintivo de sobrevivência do petismo. Guerrear para se manter em pé é nada menos que a própria lei da vida. Quem escolhe o destino dos candidatos nas urnas, no entanto, não são os dirigentes, mas os eleitores. E não há nada de errado em alertá-los sobre o que realmente está em jogo.

Que o PT fosse abrir mão do seu protagonismo, em defesa de seus interesses legítimos, ainda que pequenos, nem o próprio Ciro esperava, como tem deixado claro desde que começou a rodar o país. Porém, que o PT fosse realizar o trabalho inédito de triturar tempo e capital eleitoral do campo da esquerda nacional em troco de pouquíssimo retorno, ou que o PSB fosse topar tal empreitada insólita em plena crise histórica da sociedade brasileira, colocando interesses regionais de Pernambuco acima de interesses mais amplos, isso sim foi uma enorme surpresa.

Em 2016, em plena corrida eleitoral nos Estados Unidos, a página Wikileaks vazou uma série de e-mails de membros do comitê nacional do partido Democrata. Nesses e-mails revelou-se que a direção do partido atuou nos bastidores contra a candidatura do senador Bernie Sanders, em prol da candidata do establishment Hillary Clinton.

Aquelas eleições, como ficou bem claro depois, não eram nada convencionais, e passaria longe de ser vencida pelos interesses convencionais do establishment político-econômico da sociedade norte-americana. Clinton não estava à altura do desafio.

A chance de Sanders vencer Trump era maior do que a de Clinton. Da mesma forma, Ciro hoje é o candidato mais forte e preparado para vencer Bolsonaro ou Alckmin.

Fatos são fatos. No Brasil atual, é um fato que Lula está na cadeia e não será candidato. O PT insistirá em seu nome até os 45 do segundo tempo, quando lançará outro nome qualquer. Visto que é raro encontrar um quadro qualificado no Partido dos Trabalhadores de hoje, a única vantagem do nome escolhido será ficar menos tempo exposto aos holofotes da crítica.

Assim, o PT comete o mesmo erro do Partido Democrata, com a diferença de que a negociata petista para inviabilizar Ciro Gomes não se deu às escuras. O PT arrisca sua legitimidade e abre um novo campo a ser explorado por Ciro, o de caçado e crucificado por Lula.

As eleições desse ano podem ou não ser convencionais, com um PT x PSDB no segundo turno, ou com Bolsonaro ou Ciro compondo um dos lados do ringue. Ninguém sabe ao certo qual será o peso da internet, da televisão e dos palanques. É inegável, apenas, que as incertezas aumentam os riscos.

E com os riscos em alta, a fagulha lançada pelo PT é capaz de desencadear um verdadeiro incêndio. Brincar com gravetos na frente da fogueira pode não ser a estratégia mais inteligente.

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