Qual deve ser o foco da oposição?

No último texto, tentei argumentar que a liberdade de Lula não deve ser a prioridade da oposição no momento. Aquele era um olhar sobre a atuação da oposição pautado naquilo que não deve ser feito, tendo em vista a necessidade de se operar uma virada progressista no quadro político. O momento agora exige o foco em uma agenda propositiva, fundamental para trabalhar a consciência da população na tentativa de preparar uma série de ações que tentem provocar uma ruptura entre o governo e a parcela pobre e trabalhadora de seu eleitorado. Para isso, é necessário que a oposição foque seu trabalho em duas frentes, economia e segurança, ao mesmo tempo que evite um obstáculo, o identitarismo. É um desafio difícil, mas a sua superação é fundamental para derrotar Bolsonaro e o consórcio conservador que subiu ao poder junto com ele, fortalecendo a luta pela soberania nacional e o desenvolvimento autônomo e inclusivo do Brasil.

O primeiro foco da oposição deve ser a economia. A crise econômica que se inicia no segundo mandato de Dilma está presente até hoje, desgastando a sociedade brasileira e corroendo a esperança do povo brasileiro em um futuro melhor e mais digno. O crescimento de 1,1% por dois anos seguidos (2017 e 2018) mostra a total paralisia da economia brasileira no momento atual. A esperança por dias melhores para a grande massa de trabalhadores brasileiros passa por uma melhora na economia. A grande massa do povo brasileiro não tem preferência ideológica clara. A ideologia do brasileiro é aquela que lhe garante comida na mesa, moradia e emprego. Diante disso, é tarefa da oposição sair da defensiva e passar a trabalhar para pautar o debate econômico e político no Brasil. Não é possível mais que a oposição continue no velho jargão batido do “nenhum direito a menos”. O desafio agora é buscar uma agenda econômica positiva que ofereça saídas claras e objetivas para a crise e que seja facilmente compreendida pela grande maioria desorganizada da população brasileira. É um desafio para uma grande parcela daquilo que se convencionou chamar de esquerda no Brasil, justamente porque esse grupo se acomodou nos governos petistas e se acostumou a não estudar os problemas do país, tendo como consequência a falha em apresentar soluções práticas e duradouras para melhora de vida do povo nos momentos em que estas se faziam necessárias. Essa mudança de postura visa colocar desafios para o governo, exigindo que ele ofereça respostas para as pautas populares da oposição, forçando um tensionamento com o povo. Um exemplo, por que não pautar uma campanha nacional pela redução da jornada de trabalho sem redução do salário? Fazer uma grande campanha nacional pela redução da jornada de 44h para 40h semanais pode ser um desafio para o governo. Como ele responderá? Ser favorável implica contrariar o consórcio patronal que o sustenta, mas ser contrário implica passar a mensagem para o povo brasileiro que o governo está contra ele. Este exemplo mostra que, se essa nova postura pode não garantir uma vitória institucional imediata, certamente pode garantir uma vitória política que será essencial no médio e longo prazo. E é isso que vem faltando, vitórias políticas robustas.

O segundo foco deve ser a segurança. A oposição não pode deixar com que o discurso de combate à violência seja monopolizado pelo governo e pela direita. Esse é um outro pilar que elegeu Bolsonaro e pode ser um elemento fundamental para o seu enfraquecimento. Do mesmo jeito que deve ser feito na economia, a oposição deve trabalhar arduamente para construir propostas concretas para a melhora de vida da população, dialogando com o sentimento de indignação com a crescente violência no país. Os índices de homicídio no Brasil são superiores aos de zonas de guerra e o quadro mais geral da violência assusta o povo. O desafio aqui é duplo, já que ao mesmo tempo que a oposição deve trabalhar para entrar no debate da segurança pública de forma organizada, deve também centrar seus esforços em construir pontes com os trabalhadores de segurança, em especial os policiais militares. Um erro muito comum no senso comum da autointitulada esquerda é praticar um discurso extremamente agressivo e sectário com as forças policiais. O olhar é muitas vezes focado mais na condenação pessoal do policial do que na discussão sobre o modelo institucional da força policial brasileira, fazendo com que possíveis fontes de diálogo sejam extintas. É claro que não devemos aceitar situações de abusos de poder, assassinatos e outros casos graves de desrespeito aos direitos humanos, mas é sempre bom lembrar que a polícia que mais mata  é a que mais morre no mundo e isso pode ser um caminho para um denominador comum. Por que não discutir um plano de reestruturação da carreira dos policiais no Brasil aliado a um plano de desmilitarização das polícias, aumento vertiginoso da verba para inteligência e substituição do modelo de guerra às drogas por um modelo muito mais útil e eficaz? Construir uma proposta de segurança fundamentada na defesa dos direitos humanos ao mesmo tempo que garante uma resposta aos anseios por uma sociedade mais segura é o grande desafio nesse ponto.

Tudo o que foi exposto nos parágrafos anteriores diz respeito às pautas centrais da oposição na sua tentativa de fazer o enfrentamento político com o governo. Ela parte de uma leitura que percebe na crise econômica e no caos da segurança pública dois elementos centrais que impulsionaram a vitória de Bolsonaro. Esses dois elementos são essenciais para que a oposição fure a bolha em que se encontra e dialogue com as grandes massas desorganizadas do país. Dito isso, é necessária uma nova estratégia perante os disparates do governo, especialmente aqueles que levam a discussão para o campo comportamental, apelando para um moralismo barato para manter o “inimigo esquerdista” vivo e sua base coesa. É neste ponto que a armadilha identitária entra no jogo.

A luta contra as opressões (mulheres, negros, LGBTs etc.) não deve se confundir com o identitarismo. O debate de opressões é essencial no Brasil, especialmente se olharmos para alguns fatos importantes: o Brasil é um país forjado na escravidão, o que faz com que as consequências disso sejam sentidas até hoje na sociedade; a violência homofóbica é grave e nosso país é o que mais mata pessoas trans no mundo; as mulheres pobres e negras são a parte mais explorada da classe trabalhadora. São três exemplos de uma série de outros que mostram a necessidade das lutas contra a opressão no Brasil. A questão aqui não é a relevância das pautas de opressões, mas sim o modo como elas têm se dado. Uma parte expressiva, a mais barulhenta, dessas lutas foi dominada por um discurso extremamente agressivo e divisionista. Este é o identitarismo, uma postura completamente agressiva que trava uma luta dissociada de qualquer valor igualitário e faz da diferença o motor da luta política das minorias. O pressuposto de uma igualdade natural entre os seres humanos é substituído por uma noção de diferença essencial e inevitável ou por uma noção confusa acerca do “fim das identidades”. A ausência de qualquer ideal valorativo de igualdade, o predomínio de pautas de classe média e a retórica extremamente agressiva em uma parte considerável dos movimentos de luta contra as opressões fez com que estes criassem um abismo entre o povo e suas lutas. Uma parte da esquerda adotou essas lutas identitárias sem muita crítica e foi para o lado dos identitários nesse abismo. Qual a saída? Não é o abandono das lutas contra as opressões, mas a sua integração em um projeto muito maior que dialoga com as grandes maiorias populares. É sintomático o Brasil ser majoritariamente composto por mulheres, negros e pardos e estes não se sentirem representados por aqueles que julgam ser seus representantes. É urgente que as pautas de classe média sejam substituídas por pautas de grande adesão popular e que a retórica agressiva seja substituída por uma postura de diálogo.

O desafio da oposição e da autointitulada esquerda é construir pontes, e não muros, entre si e o povo. Uma postura muito comum da oposição, especialmente a petista, é a que busca querer “explicar” ao povo o que está acontecendo, se colocando em uma posição de autoridade diante de  uma grande massa de seres de inteligência inferior. A premissa desta atitude é a de que o povo foi iludido e que eles devem ser “ensinados” sobre a verdade. Uma postura como esta não tem como funcionar. Como que eu espero um diálogo com o povo se eu, de antemão, já chego o chamando de “burro”, “ignorante” ou “estúpido”? Todos os outros são iludidos, menos nós? Muito mais do que falar, o que a oposição deve fazer é buscar ouvir. Temos uma dívida com a grande maioria de trabalhadores massacrados pela realidade cotidiana brasileira. Uma postura arrogante é tudo o que a oposição não precisa no momento. A ofensiva que está vindo contra o direito dos pobres e trabalhadores é avassaladora e é preciso que a oposição (pelo menos uma parte considerável dela) entenda a necessidade de se reconectar às pautas dos trabalhadores e mostrar que tem respostas para os seus anseios. Fugir dessa tarefa é como fugir da realidade, pode ser confortável para nossa consciência, mas será avassalador para o futuro do Brasil.

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