Além do abismo: porque a questão nacional não se limita a vencer Bolsonaro

As pesquisas eleitorais mais consolidadas vêm reiterando claramente uma tendência: Ciro é o candidato que tem o melhor desempenho em todos os cenários de segundo turno, inclusive o pior deles. Os militantes ciristas ganharam as redes sociais afirmando que o seu candidato “é o único que pode vencer Bolsonaro”. Se não estão longe da verdade, segundo o retrato atual, ainda não pescaram uma informação tão ou mais importante.

Por trás do dado imediato que as pesquisas nos arremessam ao rosto (o de melhor desempenho eleitoral contra a pior ameaça política a que o país está sujeito), há um segundo dado: a capacidade de amalgamar as demais vertentes representativas do Brasil. Em outras palavras, Ciro é o caminho do meio. E a menor rejeição do candidato pedetista reforça isso. É o meio entre dois polos que, embora não sejam equivalentes, em suas respectivas densidades, desequilibram as relações de forças nacionais, colocam as inteligências brasileiras numa espiral, fermentando o que há de mais tóxico nas elites e na sociedade em geral.

Felizmente, como nos indica o raio-x do 2º turno, sair do impasse é uma vontade nacional. Só que essa vontade precisa ser melhor expressada, trazida pra fora do peito dos brasileiros. Essa não é uma tradução imediata, demanda tempo de maturação, para que a intuição do eleitor chegue a esse dado concreto, em tensão com outros apelos mais visíveis e palpitantes.

Sair do impasse é a razão de ser dessas eleições, e não fulano, beltrano ou sicrano.

Em entrevistas recentes, candidato Haddad justifica o fracasso do segundo governo Dilma ao impasse político sofrido pela presidenta. Curioso, só não diz como sairá dele, sendo representante de um dos vértices desse estremecimento. No outro extremo, temos Bolsonaro. Como foi dito, não são politicamente equivalentes, mas são polos opostos nesse cabo de guerra. Bolsonaro é um alpinista político, cresceu sobre a rejeição da esquerda, abusando da desinformação, dos preconceitos populares, e ocupando trincheiras esvaziadas na guerra entre o campo progressista e a mídia corporativa. Cada erro, os maus passos e más companhias da esquerda também foram devidamente aproveitados.

A política, como a economia, é feita de ciclos – e ambas precisam ser realinhadas, em primazia do desenvolvimento nacional. Ciclos e, nos casos mais derradeiros, rupturas. Porque assim conseguimos arejar o que está abafado pelo conflito ou romper o que está atrofiado em rigor mortis. Enquanto há vitalidade democrática, as questões estruturais seguem demandando um desatar de nós. A máquina do estado precisa de reformas, e as razões de não terem sido feitas é o que menos importa agora, a questão hoje é que somos arrastados por essa necessidade. E não existe reforma numa bifurcação entre a perplexidade geral e a entropia política. O povo brasileiro quer e precisa dum caminho do meio, que represente e realize, com energia e criatividade, a nossa capacidade de restauração.

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