Radicalismo: solução pra quem?

É absolutamente incontornável o fato de que vivemos um momento de esgotamento com o modelo de democracia representativa tradicional, fenômeno que é global, e no caso brasileiro também se verifica enfado da população para com os pactos de governabilidade consagrados na Nova República, associados costumeiramente à corrupção, com as elites política, econômica e das corporações se acochambrando para manter seus privilégios — uma visão que não está distante da verdade, diga-se.

E diante desse cenário um tanto desolador e com a dificuldade de uma esquerda que faz parte do establishment defender o legado da Nova República, tema que tratei neste mesmo Disparada na minha última colula intitulada “Por que é tão difícil para a esquerda arejar seu discurso?”, tem crescido de maneira irresponsável um apelo por uma radicalização sem qualquer lastro na realidade, sem apresentar meios para empreendê-la, o que é positivo, e pior: ancorada no que de pior a esquerda produziu ao decorrer da História, fazendo loas a ditadores, processos autoritários e ideologias que não possuem qualquer apreço pela democracia, pluralidade, que dizimaram milhões e legaram mais que miséria material, mas também moral e humana.

Nesse cenário se caracteriza uma certa satanização do PT, só que de modo oposto às acusações bolsonaristas: enquanto para estes o Partido dos Trabalhadores radicalizou demasiadamente; para aqueles faltou radicalização, ruptura e um sem fim de jargões próprios da mentalidade revolucionária e de um marxismo vulgar que permeia boa parte da esquerda que ainda tenta entender o século XXI olhando dogmaticamente para postulados do século XIX que já se provaram equivocados.

A despeito dessas patacoadas que refletem não apenas desespero, mas tradições terríveis que se encontram ainda incrustadas na esquerda e contra as quais mais vozes precisam se levantar para devidamente exorcizar de uma vez por todas tal inópia, a população no geral é cada vez menos crente nesse tipo de ideologia e discurso. Na última eleição, os dois candidatos pelo campo progressista mais votados foram Fernando Haddad, um social-liberal, e Ciro Gomes, um social-democrata. O candidato radical, Guilherme Boulos, e que costumeiramente é acusado juntamente com seu partido por outros radicais de não serem tão radicalizados assim, conseguiu a pior votação da história do PSOL e teve apenas 0,58% dos votos válidos.

Ao mesmo tempo que há um reacionarismo instrumentalizado tentando impor pautas de costumes e que encontra como resposta na esquerda um identitarismo também autoritário e que bebe fortemente em ideologias autoritárias supracitadas (o identitarismo é filho bastardo do marxismo), o Brasil é cada vez mais um país liberal em relação a esses mesmos costumes: a cada Datafolha se observa que o brasileiro se opõe menos à descriminalização do aborto, das drogas e se põe a favor de dar mais poder ao indivíduo em relação a escolhas que dizem respeito a sua vida privada.

E por mais que no País tenhamos duas forças políticas polarizadas baseadas no messianismo, cresce nos setores médios uma visão mais racional da política, de que o político está para servir à população e não nós a eles (defensores de déspotas costumam pregar adesão incondicional a líderes, partidos e ideologias, o que conota ser uma questão tanto política quanto de busca por algum pertencimento, transformando vazios existenciais em plataformas políticas. Uma verdadeira desgraça). É baseando-se nisso que uma esquerda arejada, moderna, olhando para boas práticas, realmente defensora da democracia e da pluralidade (e não só ocasionalmente quando interessa), se pautando por estudos que apontam políticas públicas que funcionem, pode voltar a apresentar uma alternativa sadia e importante aos vícios autoritários e personalistas que polarizando a disputa política no Brasil colocam o futuro de todos nós em risco.

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