Reformar a previdência é usurpar sua velhice

Quase tudo já foi falado sobre a Reforma da Previdência. É a pauta de 2019, ou melhor, é a 2018 que não acabou. Por ela e por causa dela inimigos tomam café juntos, o Congresso tolera o presidente, a imprensa ignora os ataques feitos por Bolsonaro e os banqueiros, rentistas e caloteiros ameaçam fugir com seus títulos, dólares e créditos.

Aterrorizam o brasileiro comum dizendo que não terá dinheiro, constrangem os idosos jogando na sua sobrevivência tardia toda a culpa da crise, chantageiam instituições e sabotam verbas. Reproduzem em uma mensagem uníssona, tensa feito plantão jornalístico que comunica morte de celebridade, a ideia de que sem Reforma, o País vai quebrar. Dizem isso com a certeza profética de quem se esqueceu que até pouco tempo a salvação era outra Reforma, a trabalhista.

Na criação dessa retórica a favor da Reforma, um vendaval de informações embaraça o entendimento das pessoas. O governo faz sua parte com, dentre outras, a mentira do combate aos privilégios e o conto de que vai tirar dos que ganham mais para ficar igual, como se de liberal tivesse virado comunista. A imprensa reforça a dúvida sobre uma possível inexistência de futuro caso não aprovem a Reforma. E um terceiro grupo de ativistas, políticos ou não, se opõe com a força da maior das verdades da Reforma, a impossibilidade da maioria conseguir se aposentar.

Acontece que muito além das informações retorcidas e maquiladas, mais além ainda da esperança no lucro de 1 trilhão que embala o sono de Paulo Guedes, existe o intocável prejuízo humano da Reforma. Sobre as pessoas de carne e osso, ninguém fala. Falam sobre as profissões, que são das pessoas, mas não são as pessoas. Falam sobre a economia, sobre as contas públicas, sobre o mercado. Porém, sobre a Maria, o Francisco, a Sônia e o João, pouco ou nada foi dito até então.

Segundo o filósofo Arthur Schopenhauer, nós, seres humanos, somos os únicos a termos consciência da morte. Nenhum outro ser vivo sabe que vai morrer. Essa previsibilidade do fim nos faz ter pressa de realizar sonhos. Por isso, organizamos a vida em ciclos. A primeira infância, a segunda infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice.

Cada ciclo que substitui o outro carrega uma carga de esperanças, projetos e expectativas. Todavia, a Reforma da Previdência de Bolsonaro, usurpa o último desses ciclos, o da velhice. Essa nossa última fase da vida é a mais pesada, exatamente por ser a derradeira. O jurista italiano Norberto Bobbio escreveu no excepcional livro, O tempo da Memória, quando já vivia o último desses ciclos, que na velhice não se tem mais expectativa alguma, a não ser a da própria morte. É o momento de olhar para trás com orgulho das realizações ou com a angústia de não as ter realizado. Essa gangorra de sucessos e fracassos, vivências alegres e tristes não otimiza a visão pessimista da velhice, pois o peso do fim de tudo se soma às limitações físicas para lembrar que a morte está logo ali.

O alívio para viver sem se afogar nas angústias dessa última fase é saber que poderemos finalmente descansar, ficar mais próximo dos netos, cuidar de projetos pessoais ou simplesmente viajar. É o reencontro entre você e o tempo livre, para aproveitar o que sobrou dele. Assim, criar uma rotina apropriada para velhice é o anestésico para a melancolia derivativa da proximidade da morte.

Porém, nada disso será possível com a Reforma da Previdência. Os 40 anos de contribuição levarão a um prolongamento da vida adulta que invadirá a fase da velhice. O medíocre BPC de R$400,00 e o fim da contribuição patronal em um regime de capitalização impossibilitarão um mínimo de dignidade para desfrutar de sua própria contagem regressiva. E na junção do ciclo da velhice com o ciclo da vida adulta a Reforma da Previdência também compromete o ciclo anterior ao da velhice, pois enterra a expectativa do descanso. Perder a consciência de que no futuro se descansará é perder as esperanças de ter tempo para si mesmo.

No Brasil precário, em que a maioria dos trabalhadores utilizam no ciclo da vida adulta parte majoritária do próprio tempo em ônibus, jornada de trabalho e horas extras, podemos concluir que ao invés de trabalhar para viver, se vive para trabalhar. Esse cotidiano de objetivos invertidos se torna suportável apenas com a meta futura de aposentadoria, sem ela fica o vazio. Então, com a usurpação do quinto ciclo, a angústia de trabalhar até a morte pode afetar a produtividade, o humor e a própria qualidade de vida na fase adulta. É frustrante saber que até a morte sua rotina será a mesma, com a velhice se misturando com a o ciclo da vida adulta.

Com isso, ainda que a Reforma alcance a improvável melhora econômica esperada por Paulo Guedes, é importante refletir a quem interessa uma Reforma que extrapola os limites do caixa da previdência para invadir seu projeto de vida. O Brasil já carrega o peso de ter promovido a catástrofe humana na escravidão e na tortura da ditadura, não pode mais errar com as pessoas. A necessidade de ajustar as contas não pode superar a preocupação com as pessoas.

Por Borges Wellington

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