Reinaldo Azevedo e Ciro Gomes: frente ampla contra as corporações

A entrevista de Ciro Gomes para Reinaldo Azevedo foi expressão do encontro de duas frações da esquerda e da direita no Brasil que fogem ao senso comum. Ciro foi ministro de Lula, apoiou todos os governos do PT e lutou contra o golpe que derrubou Dilma em 2016, mas é crítico à politica econômica dos governos petistas. Reinaldo é antigo articulista famoso por sua verve anti-petista agressiva, mas é crítico severo da Lava Jato e da condenação e prisão sem provas de Lula. De posições distintas no espectro ideológico, Reinaldo liberal e conservador, Ciro nacionalista de esquerda, os dois têm uma compreensão parecida sobre uma questão central da crise política nacional: o autoritarismo das corporações judiciais.

Reinaldo fez perguntas em clima absolutamente cortês para Ciro, iniciando com bom humor pedindo para o candidato não ficar bravo e bater nele por suas perguntas polêmicas. O político cearense, famoso por posições firmes e retórica agressiva, deu risada dizendo que, assim como Reinaldo, era um homens de convicções fortes, quebrando o gelo da entrevista rapidamente.

A primeira pergunta foi sobre a reforma política, a qual Ciro defende que seja feita para o futuro, pois o sistema político vigente detém o monopólio constitucional da mudança das leis eleitorais e partidárias, e não conseguiria consenso para reformar-se a si mesmo. Outra questão relevante abordada foi a utilização de plebiscitos e referendos, proposta questionada por Reinaldo de forma negativa em comparação à experiência do chavismo na Venezuela. O candidato do PDT concordou que o uso desses instrumentos deve ser cuidadoso, levantando questões problemáticas como a pena de morte que teria apelo popular, no entanto, propôs que tais consultas públicas devem ser usadas para assuntos que versem sobre o interesse público difuso contra minorias corporativas altamente organizadas, como, por exemplo, a reforma da previdência.

A previdência abriu o debate sobre economia, área de divergência profunda entre os dois polêmicos personagens da política nacional. Reinaldo é a favor do teto de gastos públicos, Ciro é contra. Na previdência, os dois concordam que é preciso reformá-la, mas Ciro é contra a proposta do governo Temer e defende um regime de capitalização sem afetar direitos adquiridos, com uma regra de transição. Reinaldo desconfiou da viabilidade da proposta, mas os dois concordam que o principal problema da previdência são os privilégios de corporações públicas altamente remuneradas, especialmente o judiciário e o ministério público.

Ao final, a grande concordância entre os dois: o autoritarismo das corporações e a situação de anarquia judicial no Brasil. Ciro e Reinaldo concordam que: Lula foi condenado sem provas, a prisão em segunda instância é inconstitucional, e que o Judiciário e o Ministério Público precisam “voltar para a caixinha”. Essa expressão foi usada por Ciro numa entrevista, a qual foi motivo de ataques virulentos, como editorial da Folha e de outros jornalistas conservadores como Reinaldo, mas ele manteve a coerência de suas posições críticas à Lava-Jato e defendeu a mesma posição do candidato do PDT, a de que o avanço do autoritarismo judicial é um dos problemas principais da crise brasileira.

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