A retaliação da China às provocações bolsonaristas

“Um governante não deve jamais mobilizar seus homens movido pela raiva; um general não deve jamais lançar-se ao combate movido pelo rancor”

                                               (Sun Tzu, A Arte da Guerra)

Por Tiago Medeiros – O slogan “Tem que acabar com isso daí”, que compunha o pequeno acervo de frases prontas do candidato Jair Bolsonaro, na campanha que o levou ao Planalto, tem sido aplicado de forma a perturbar, a troco de nada, instituições que funcionavam normalmente, e países com quem vínhamos tendo, até 2019, relações objetivas, seguindo o critério diplomático do interesse. Essa aplicação é especialmente enfática contra a China, país que vem sendo fustigado pelas investidas dos filhos do presidente, mas que já vinha sendo difamado, desde antes, pelo próprio Bolsonaro. Apesar de duras as respostas emitidas pela autoridade diplomática chinesa a alguns desses acintes, a retaliação, tão prenunciada pela imprensa, no plano das parcerias comerciais, ainda não se consumou de fato. A pergunta é: por quê?

A imprensa brasileira gosta bastante de empregar a metáfora do xadrez para ler fenômenos políticos. Falam em aberturas, capturas, em movimentos das peças no tabuleiro. Profetizam, às vezes com excessiva ansiedade, os xeques-mates. Acontece que o xadrez chinês é o Wei qi, “o jogo das peças circundantes”, baseado na medição de forças, não na execução sumária do oponente. O jogo arbitra um equilíbrio pela descentralização dos movimentos no espaço do tabuleiro, pela plasticidade da estratégia e, acima de tudo, pelo prolongamento das campanhas no tempo (ver um interessante comparativo entre o xadrez e o Wei qi em Kissinger, H, Sobre a China. Trad. Cássio Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 40.). Se, em vez de procurarmos vitórias e derrotas totais, analisássemos pressões e vantagens relativas nos movimentos da China em relação ao Brasil, começaríamos a elucidar o que vem acontecendo entre esses dois gigantes territoriais. Arrisco um enquadramento.

Entre as coisas que precisavam “acabar” para que o Brasil prosperasse, dizia o candidato Jair, estava a vulnerabilidade de nosso chão aos interesses do comunismo oriental, ávido que é por explorar as “nossas riquezas naturais”. Dizia o ex-capitão: “a China não quer comprar do Brasil, quer comprar o Brasil”. Um de seus filhos, aquele rebatizado pelo vice-presidente Mourão com o epíteto “Bananinha”, desde a vitória eleitoral do pai, tem reverberado o mesmo credo de forma ainda mais sinofóbica e reincidente, fazendo de suas redes sociais instrumentos de baixarias e notícias falsas as mais surreais sobre o nosso tradicional aliado no comércio. Ernesto Araújo, o atual chanceler brasileiro, tem exercitado um combate veemente à China, nesses dois anos de luta ideológica contra os fantasmas dos outros. Fazendo eco ao reacionarismo importado dos EUA e à filosofia cripto-literária de Olavo de Carvalho, o bolsonarismo tem mostrado que é possível ser lobo em pele de cordeiro e constituir, orgulhosamente, uma alcateia de herbívoros.

A China é o nosso principal parceiro comercial, eis um lugar comum que toda a mídia verbaliza. Mas é importante sinalizar que, nesse jogo econômico, encaramos um player muito mais equipado do que nós – e não apenas economicamente. Os nossos quinhentos e poucos anos de puberdade pouco podem contra uma civilização que, só da filosofia mais difundida, o confucionismo, soma mais de duas mil e quinhentas primaveras. A concepção de tempo da China não é restrita aos ciclos seculares em que se fazem as nações modernas e muito menos às décadas de um mesmo século em que elas reproduzem os seus marcadores históricos. A unidade temporal sínica é o milênio. E é nesse devir de longuíssima duração que a China forja, como bem adverte Henry Kissinger (ver novamente Kissinger, H. Sobre a China. Trad. Cássio Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 21), a sua autoimagem de “Império do Meio” ou “país central”. O raciocínio de tempo sem bordas que caracteriza a mentalidade chinesa deveria ser um fato a se constatar, e com o qual se lidar, não, como tem sido, pretexto para se espernear, infantil e impotentemente, contra a presença de alguém que não pode simplesmente se fazer ausente.

Mas vamos às questões econômicas. As nossas riquezas naturais são recursos de negociação valiosíssimos para o trato com a China, afinal, saem de nossa terra parte expressiva do que entra pela boca dos chineses. São as nossas commodities o que nos têm conferido os restos de superávits no balanço de pagamentos já há algumas décadas. Temos, e não de agora, apostado todas as fichas nos bens de vantagem internacional comparativa – como bem o quisera, em meados do século passado, Eugênio Gudin e como tanto lamentava Celso Furtado – e elas são o nosso único trunfo. No tabuleiro de batalhas descentralizadas do Wei qi, ter somente um recurso é consentir o cerco efetuado pelo oponente. Não tendo um modelo de desenvolvimento pronto, nem sequer um planejamento que servisse como o seu letreiro, não somos capazes de prescindir comercialmente da China. Não há rebeldia que possa contra esse fato. A China o sabe. Não precisávamos, portanto, inaugurar um regime de tensões artificiais, vez que nem substância nem ideias temos para nos proteger desse gigante paciente.

Por isso, o palpite sobre a retaliação da China tem que considerar a sua autoimagem e a ordem mundial de acordo com o ponto de vista dela. Uma civilização milenar, que se coloca – porque assim se vê – no centro de tudo, não raciocina pelos mesmos parâmetros de uma nação como o Brasil. Sabendo muito sobre si mesma, a China sabe o suficiente sobre os outros. E sabe que não há durabilidade possível a um governo como esse, que chega ao poder decretando, num misto de cinismo e ingenuidade, querer “acabar com isso daí!”, e que capenga para se preservar entre agendas improvisadas. A consciência de perduração, de prolongamento, de intrepidez, confere às decisões diplomáticas chinesas uma unidade de ações muito mais redonda do que a têm pressuposto os nossos analistas, para os quais a China, movida pela raiva e pelo rancor, haverá de retaliar comercialmente o Brasil a qualquer momento – demonstração de ignorância quanto ao aforisma de Sun Tzu que reproduzo na epígrafe.

Alternativamente, entendo que a retaliação já começou e ela consiste de parcimônia. Encontramo-la na tolerância que ora é disfarçada com as reações esporádicas às ofensas e provocações do clã Bolsonaro ao governo chinês. Conquanto tenha respondido de modo a produzir algum barulho no Congresso nacional, no setor agropecuário da economia e na imprensa profissional, a China mais avançou por não ter executado rompimentos efetivos do que por tê-los operado. É que, com isso, ela envia a mensagem de que o crédito do Brasil diminui à proporção que o débito aumenta. É provável que a controversa sobre a tecnologia 5G da Huawei, muito mais do que tweets com ataque aos insumos das vacinas contra a Covid-19, seja um estopim para um movimento mais incisivo, mas já terá sido precedido por outros. Do lado de cá, confundindo adversários com inimigos e ações com bravatas, o governo brasileiro nos caricatura como um pequeno mico tupiniquim totalmente inerme ante o dragão oriental

Proponho essa chave. A China aguarda as transições que ela assistirá em nosso país – porque tem memória suficiente das mudanças das sociedades e dos Estados ocidentais –, quando iniciarmos a recomposição nacional após a ressaca da extrema direita. E será esse o momento mais oportuno para que ela nos imponha sutilmente os custos pelas ofensas e pelos ataques fetichizados que vem sofrendo hoje. A demora em uma posição efetiva contra o Brasil é apenas parte de uma refinada estratégia. O bolo dos resultados será muito mais consistente se crescer pelo fermento da paciência.

Ver-se-á que os custos que o país tenderá a pagar, depois de encerrada a era Bolsonaro, na chegada de um governo inevitavelmente mais democrático, mais lúcido e mais equilibrado do que o acidente governamental de que estamos padecendo, serão bem maiores e sugarão bem mais as nossas energias. Isso está no radar dos chineses. O sarro que o destino nos tira está em termos dado o poder a um presidente que dizia querer nos livrar da sombra do monólito chinês, mas que, ao deixar o cargo, nos terá consagrado uma submissão ainda maior ao Partido Comunista.

O nosso desafio é começar, agora, a pensar em como contornar os estragos do bolsonarismo sem nos vulnerabilizarmos aos interesses do governo chinês. Precisamos, mais do que nunca, daquela inspiração do Barão do Rio Branco, do molejo e da lábia, para atravessar a lama de débito moral em que nos atolamos. Que saibamos como passar pelo governo Bolsonaro minimizando os danos que ele competentemente legou ao país.

Por Tiago Medeiros

4 Comentários

  • O artigo é positivo, mas prucura explicar “as decisões da China” através de sua cultura milenar. Lógico que a cultura chinesa tem grande importância, mas não podemos responsabilizá-la, por exemplo, pelo sistema semifeudal que existia até 1949 (há menos de cem anos, portanto), pela submissão desse regime de atraso a praticamente todos os países imperialistas existentes durante os séculos XIX e XX, atribuindo esses fatos abjetos à “paciência chinesa”, ao “confuncionismo”, à “sabedoria chinesa”, à sua habilidade para mover as peças em um jogo de posições. As decisões tomadas pela China são elaboradas pelo Partido Comunista Chinês que liderou uma Revolução contra um estado coisas milenar existente na China, que submetia centenas de milhões de indivíduos a condições de pobreza e extrema pobreza, a uma situação de dominava e pilhagem colonial. A maneira particular com que a China elabora sua astúcia diplomática tem muito mais a ver com o domínio do marxismo-leninismo por parte de um Partido Comunista que possui 80 milhões de filiados, e milhões de dirigentes, de quadros, permanentemente estimulados a refletir sobre os problemas da China, produzindo soluções criativas, não apenas nas áreas das Ciências Naturais e Tecnológicas, mas também nas Ciências Médicas e, no caso aqui em discussão, nas Ciências Humanas, Sociais e Políticas. Sem o domínio de uma cultura que conta com menos de 200 anos, que configura o marxismo-lenismo, sem a capacidade do PC Chinês de usar os conceitos teóricos e filosóficos (do materialismo histórico) do Socialismo Científico, a China não seria capaz de expressar tanta “sabedoria chinesa”. Mas parece que o autor prefere Max Weber a Marx para elaborar suas análises políticas.

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  • O analista quase se permitiu dizer “apesar do Partido Comunista Chinês, a cultura chinesa conseguiu salvar a diplomacia da China”. Atribuir à cultura chinesa o sucesso da diplomacia chinesa é de uma criatividade anticomunista impressionante. Análise cientifica profunda! Imaginem se os chineses tivessem alguém como Ciro Gomes para eleger presidente! Ciro Gomes + Cultura Chinesa. Isso seria uma combinação sensacional! Se um partido como o PDT levasse o trabalhismo para a China, então, aquele país oriental se converteria na maior potência do mundo, e passaria a conhecer índices de crescimento espetaculares, que tirariam 700 milhões de chineses da pobreza. Hoje, os chineses, com certeza,teriam até desenvolvido a tecnologia 5G.

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  • Eu queria saber de Darcy Brasil porque então outros países geridos por partidos marxistas-leninistas não agem como a China. É simplesmente contraditório falar em “maneira particular com que a China elabora sua astúcia diplomática” e atribuir isso não ao que ela tem de “particular”(!!!), que é sua própria história civilizacional, mas ao que tem de teórico, i.e., comum, universal, ou seja, ao que diz respeito às ideias estrangeiras de um partido. A coisa é mais sobre o que a China fez com o marxismo-leninismo do que sobre o que o marxismo-leninismo fez com a China.

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