RICARDO CAPPELLI: O curioso caso de “Benjamin Boulos”

É impressionante como o discurso feito pelo pré-candidato do PSOL no programa Roda Viva se assemelha ao discurso do PT dos anos 80. Boulos é inteligente, ataca o sistema financeiro e as desigualdades sociais. É calmo e didático.

Navega com desenvoltura pela multiculturalismo identitário norte americano que, infelizmente, encontrou guarida na esquerda brasileira, em todos os partidos, sem exceção (pode ser que eu é que esteja ficando velho e rabugento, vai saber).

Talvez por isso não tenha entrado na questão mais importante: a identidade nacional.

Dos 200 maiores “PIB´s”” do mundo nada menos que 153 são de empresas, que atuam sistematicamente para enfraquecer as nações, entraves para a circulação livre e vagabunda do capital. A política de fortalecer subidentidades fragmentadas é parte desta estratégia. A Fundação Ford e a Globo não fomentam esta agenda por sensibilidade com os problemas do terceiro mundo.

Agarrado apenas a questão social e identitária, faz um discurso limitado. A principal estratégia de resistência ao neoliberalismo é o fortalecimento de um projeto nacional de desenvolvimento. A questão nacional esteve ausente no discurso psolista.

Trump e Putin, por lados opostos, expressam a centralidade da nação. No campo progressista brasileiro, Manu e Ciro são os que fazem claramente esta defesa. Justiça seja feita, o programa assinado pelas fundações partidárias, coordenado pelo petista Márcio Pochman, deu centralidade ao tema também.

No campo da política Boulos faz as mesmas afirmações do “PT raiz”. Construirá sua base política por cima dos partidos, numa ligação direta com as massas através de mobilizações, das organizações sociais, de plebiscitos e referendos. Faz para isso uma analogia com o funcionamento da minúscula Suíça.

O PT cresceu, amadureceu, chegou ao poder e tirou 36 milhões de pessoas da pobreza. Compreendeu a necessidade de construir consensos para viabilizar seu projeto. Ampliou envolvendo todo mundo político nele.

Se cometeu erros, não foram estes. A incompreensão da questão nacional, que fez vivermos uma brutal desindustrialização, certamente está entre eles.

A imagem de Guilherme com cavanhaque remete instantaneamente ao Lula do início. O discurso é muito parecido. O MTST é um movimento valoroso e de fundamental importância, mas não possui a força social e histórica das grande greves do ABC.

Egresso da classe média paulistana, Boulos fala em tom professoral, não possui carisma, a trajetória e a história de superação que fez de Lula a alma viva do povo brasileiro.

Sua entrada na corrida presidencial fez bem a disputa. Jovem, inteligente e bem articulado, não deixa de ser um sopro de esperança vindo de uma juventude cada vez mais carente de sonhos.

Ao vê-lo com o mesmo discurso do PT da década de 80 foi impossível não lembrar de Brad Pitt no filme “O Curioso caso de Benjamin Button”, onde o personagem nasce velho e vai ficando mais novo ao longo do tempo.

Uma tentativa de “Luiz Inácio rejuvenescido, classe média, intelectualizado e raiz” que seduz jovens escolarizados dos setores médios dos grandes centros urbanos.

Muito mais maduro que candidatos anteriores do PSOL, somará com certeza no segundo turno com o campo popular e democrático. Se chegarmos lá, obviamente.

Por Ricardo Cappelli

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